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FICHA DE PATRIMÓNIO IMATERIAL
N.º de inventário:
INPCI_SU_2015_001
Domínio:
Competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais
Categoria:
Manifestações artísticas e correlacionadas
Denominação:
Processo de confeção da Louça Preta de Bisalhães
Outras denominações:
Barro de Bisalhães
Contexto tipológico:
A Louça Preta de Bisalhães, específica do centro olárico da aldeia de Bisalhães, freguesia de Mondrões, no concelho de Vila Real, singulariza-se pelos processos e técnicas ancestrais usados na sua confeção e cozedura. Atualmente único lugar em Vila Real onde ainda se confeciona a louça preta, Bisalhães estaria até o início do século XX integrada num centro olárico mais abrangente, constituído pelas freguesias de Lordelo, Mondrões (onde se insere Bisalhães), Vila Marim e Parada de Cunhos.

Sendo um dos poucos locais do país onde ainda se mantém a confeção deste tipo de louça, incluindo o processo arcaico da preparação do barro, da elaboração das peças, da sua decoração e cozedura, entre o final do século XIX e o início do século XX Bisalhães era apenas um dos mais de 70 centros oláricos existentes no país, na sua grande maioria a norte do rio Tejo.
Contexto territorial:
Local: Bisalhães
Freguesia: Mondrões
Concelho: Vila Real
Distrito: Vila Real
País: Portugal.
NUTS: Portugal \ Continente \ Norte \ Douro
Contexto temporal:
Periodicidade: A Louça Preta de Bisalhães é confecionada ao longo de todo o ano.
Data(s): Durante o ano, com maior quantidade em junho, devido à proximidade da Festa de S. Pedro, altura em que se realiza a tradicional “Feira dos Pucarinhos”.
Caracterização síntese:
A Louça Preta de Bisalhães, específica do centro olárico da aldeia de Bisalhães, freguesia de Mondrões, no concelho de Vila Real, é atualmente confecionada pelos oleiros Cesário da Rocha Martins; Manuel Joaquim da Rocha Martins; Sezisnando Ramalho; Jorge Ramalho; Querubim Queirós Rocha; Miguel Fontes; e Albano Carvalho (o escultor). Estes oleiros procedem à confeção das peças de louça, à cozedura e à venda. Atualmente a louça é confecionada nas oficinas que estes oleiros possuem em Bisalhães, mas também nos postos de venda que lhes foram disponibilizados pela Câmara Municipal de Vila Real à entrada da cidade. O processo de cozedura das peças de barro é efetuado exclusivamente nos fornos destes oleiros, em Bisalhães. As fases intermédias da confeção, nomeadamente a preparação do barro e a decoração, são usualmente da responsabilidade das mulheres (esposas e/ou filhas dos oleiros).

Esta louça, que é produzida durante todo o ano, integra peças de carácter utilitário, designadas por “louça churra” pelo facto de serem peças mais grosseiras e pouco decoradas; e peças de carácter decorativo, chamadas de “louça fina”. A louça de Bisalhães singulariza-se pelos processos e técnicas ancestrais usados na sua confeção e cozedura, que lhe conferem a tonalidade negra.
Caracterização desenvolvida:
A confeção da louça

Primeiramente há que registar que a produção da louça tem sido uma atividade familiar que envolve o homem, a mulher e os filhos, pelos quais estão claramente repartidas as tarefas a executar. Assim, cabem ao homem as tarefas de trabalhar na roda e enfornar a louça. Por seu lado, as mulheres e os filhos menores dedicam-se a trabalhos mais pesados e “menores” como a preparação do barro, o abastecimento de água e da carqueja necessária à cozedura do barro, “gogar” e decorar a louça.

A extração do barro

Atualmente o barro utilizado na produção da louça de Bisalhães é adquirido em fábricas de telhas e tijolos, em Vilar de Nantes (perto de Chaves), onde existiu também um centro de produção de olaria. Os oleiros pagam o barro e o seu transporte para Bisalhães é feito em viaturas rodoviárias, sendo mais oneroso o transporte que a própria aquisição do barro. Segundo o oleiro Cesário da Rocha Martins, o barro proveniente de Chaves não é igual ao barro de Parada de Cunhos, com o qual era produzida a olaria de Bisalhães, porque, na sua opinião, o barro de Parada de Cunhos conferia maior resistência às peças.

Tradicionalmente a extração do barro era efetuada nas barreiras existentes na localidade de Parada de Cunhos, vizinha de Bisalhães, na primavera ou no verão. Ao contrário do que acontecia em outros centros produtores, a extração do barro era um trabalho duro e perigoso que não era executado pelos próprios oleiros, mas por homens especializados. O barro era depois transportado para a aldeia em carros de bois.

A preparação do barro

O barro é guardado num pequeno compartimento sobradado que os oleiros designam de “caleiro”, situado dentro da oficina. Aí se separa o barro mais forte, que contém maior quantidade de argila e menor quantidade de areia, ou teixão. As duas qualidades de barro são trabalhadas separadamente, misturando-se de seguida de acordo com a natureza das peças de louça que irão ser produzidas. Formam-se então os “beloiros”, que consistem nas bolas de barro a partir das quais se formam as peças de louça. Estas bolas de barro são depois transportadas do “caleiro” em caixotes para os “pios”, recipientes em pedra com uma cavidade na parte superior, nos quais são “piadas”, ou seja, esmagadas com martelos de madeira de amieiro a que os oleiros chamam os “picos”, para depois o barro ser “peneirado”, ou crivado, para uma “gamela” de madeira ou pedra. Quanto mais fina for a peneira melhor será a qualidade da louça a produzir. Aí se começa a separar a louça mais fina, como os “pucarinhos de peito” e outras peças decorativas, crivada nas peneiras mais apertadas, feitas de panos de seda; da louça mais grosseira ou “churra”, crivada nas peneiras do milho, também usadas na confeção do pão, que é, geralmente, a louça utilitária.

Seguidamente o barro é novamente amassado, misturando-se com água na gamela, formando-se novas bolas a que os oleiros de Bisalhães chamam a “pele”, ou “péis”, quando são várias, que devem ser mantidas húmidas.

Então, de acordo com a quantidade de barro que necessita para produzir uma peça, o oleiro escolhe uma ou mais “péis” e amassa novamente o barro com as mãos, um processo designado de “coldrar” o barro que, então, toma uma forma arredondada, a que os oleiros chamam o “embolado”.

O trabalho à roda

Nesta altura poderá iniciar-se a fase seguinte da confeção do barro que é o trabalho à roda que, no caso da olaria de Bisalhães, é uma roda baixa na qual o oleiro dá forma às peças de louça que pretende criar. A roda utilizada pelos oleiros de Bisalhães é constituída pelos seguintes elementos:

Quiço – tábua retangular onde encaixa o trabulo;

Trabulo – pedaço de madeira que funciona como eixo com a parte superior pontiaguda na qual encaixa a cruz;

Cruz – travessas de madeira que se cruzam. Na extremidade de cada um dos quatro braços da cruz encaixam as pombas;

Pombas – curtos pedaços de madeira nos quais assenta a roda propriamente dita;

Tampo da roda – disco de madeira com mais de vinte centímetros de diâmetro no qual o oleiro coloca o barro que irá trabalhar;

Bucha – concavidade existente na parte inferior central da roda na qual encaixa a extremidade pontiaguda do trabulo;

Agarras – entalhes inseridos no disco superior que permitem agarrar a roda de forma a conferir-lhe mais facilmente movimento;

Banca – banco de três pés em madeira, no qual o oleiro se senta para trabalhar à roda;

A generalidade dos oleiros (como confirmam Cesário da Rocha Martins e Querubim Queirós Rocha) introduziu já nas suas rodas rolamentos esféricos metálicos de forma a facilitar o movimento da roda e aumentar a velocidade de circulação.

No trabalho de produção das peças o oleiro usa os seguintes utensílios:

Augueiro – vasilha de barro que contém a água necessária ao humedecimento das mãos;

Fanadouro – talas de madeira a que o oleiro recorre para dar forma às peças e levantá-las da roda;

Existem dois tipos de fanadouro:

Fanadouro de puxar – usado para levantar a peça da roda;

Fanadouro de alisar – usado para diminuir a espessura do barro, dar forma e alisar as peças;

Moca – pau comprido e redondo que o oleiro introduz no interior das peças quando não lhe é possível fazê-lo com as mãos (para erguer as talhas ou tanhas, por exemplo);

Cega – corda de viola, crina de cavalo ou linha de costura da qual, consoante as peças, o oleiro se serve para separar as peças de louça da roda. No caso das peças mais pequenas, a cega é uma linha de costura ou mesmo um cabelo de mulher, no caso de pretender separar peças como os pucarinhos de peito. No caso da louça “churra”, de maior dimensão, a cega é uma corda de viola.

Marcas nas peças de barro

Geralmente os oleiros não colocam marcas de autor nas peças que produzem. Dos oleiros em atividade apenas o oleiro Querubim Queirós da Rocha grava nas peças da sua autoria as iniciais do seu nome “QR” ou “R”, às quais acrescenta Bisalhães/Vila Real, e Jorge Ramalho costuma escrever “Olaria Ramalho”, acrescentando de vez em quando Bisalhães/Vila Real.

Decoração das peças

Ao contrário do que acontecia no passado, atualmente a louça negra de Bisalhães é quase toda ela decorada, tanto a louça “fina”, decorativa, como a louça “churra”, utilitária, tal como é referido na obra A Louça Preta de Bisalhães (Mondrões, Vila Real): “antes a louça era pouco decorada, hoje é quase toda ela decorada tornando-a mais atrativa e mais de acordo com o motivo pelo qual o comprador a adquire. Hoje compram-se as peças mais pela beleza da forma, pela decoração e pela memória da arte que a si traz agarrada, do que pela funcionalidade que motivou o oleiro a criá-las, algumas delas há vários séculos” (Fernandes, Moscoso e Castro, 2009).

A decoração das peças de louça de Bisalhães, praticamente inexistente até aos primeiros anos do século XX, bem como a criação de peças decorativas resultam da necessidade sentida pelos oleiros de adaptarem esta louça ao gosto dos consumidores a partir da altura em que a venda das peças utilitárias decaiu devido ao aparecimento de peças que cumpriam as mesmas necessidades produzidas a partir de outros materiais – como o plástico. Daí que, desde essa altura até à atualidade, se tenha vindo a incrementar a produção de peças decorativas e a decorar a louça utilitária que tradicionalmente estava isenta de motivos decorativos.

Hoje, e na continuidade da tradição da confeção da louça preta de Bisalhães, a tarefa decorativa das peças é da responsabilidade das mulheres – na quase totalidade dos casos dos oleiros locais essas mulheres são as suas esposas. Contudo, existem motivos decorativos da autoria dos próprios oleiros. Convém, por isso, discriminar os elementos decorativos inseridos na louça pelos homens daqueles que são da autoria das mulheres.

Os elementos decorativos introduzidos pelos homens são, geralmente, os seguintes:

Estrias – elementos inseridos com recurso de uma marcadeira;

Verdugos – aplicação de cordões ou cintas;

Bicos – pequenas formas arredondadas de barro colocadas aos pares sobre cada um dos lados dos alguidares que vão ao forno;

Outros elementos decorativos que exigem menor aperfeiçoamento.

No passado, as peças também eram decoradas pelos oleiros com mica, ou “espelho” como era designada, misturando-a no barro, o que conferia brilho à louça. Contudo, atualmente esse recurso decorativo já não se encontra em uso.

Como ficou acima referido, a tarefa da produção decorativa na confeção da louça preta de Bisalhães cabe fundamentalmente às mulheres dos oleiros, a quem compete também o trabalho de brunir, ou “gogar” a louça com recurso a um seixo do rio ou “gogo” e decorá-las depois de estar meia seca ou “moça”, no vocabulário dos oleiros.

Assim, as mulheres começam por “gogar” as peças na sua totalidade, deixando-as polidas. Depois de as peças estarem gogadas começa a introduzir-lhes elementos decorativos inspirados em motivos da natureza como flores, folhas e desenhos de estrelas, espirais, segmentos de reta paralelos, verticais e oblíquos. Algumas mulheres inspiram-se também em motivos existentes em panos bordados e cortinas.

A cozedura da louça

A cozedura da louça marca a singularidade da confeção da louça de Bisalhães, dada a ancestralidade da técnica utilizada, pois a cozedura desta louça é efetuada ao ar livre em fornos que poderemos considerar como uma forma mais avançada da antiga soenga. O forno usado em Bisalhães ainda não possuía, há uns anos, qualquer grade de separação entre a câmara de combustão e a câmara de enfornamento. Na citada obra “A Louça Preta de Bisalhães (Mondrões, Vila Real)”, um dos fornos tradicionais de Bisalhães é-nos descrito da seguinte forma: “[...] é escavado no solo, tem cerca de 1,50 m de profundidade por dois metros de diâmetro máximo, sendo apenas visível a face não enterrada no solo e na qual se situa a boca da caldeira. Esta é a única parede de alvenaria que o forno possui. Superiormente e ao nível do solo (em cima) fica a boca da câmara de enfornamento onde se coloca a louça que vai cozer. O forno situa-se num terreno com uma certa inclinação e junto a um caminho em declive, o que explica a diferença de cotas existente entre a boca da câmara de enfornamento e a porta da caldeira. No interior do forno existe o «pião», ou seja, uma espécie de cotovelo feito em granito, tijolo e barro que assenta uma das pontas no solo, apoiando-se a outra na parede do forno que tem a boca da caldeira. Este «pião» ajuda a suportar e a estruturar a grelha provisória que o oleiro cria com as roncas” (Fernandes, 2012). Os fornos que se usam hoje em dia têm, desde há cerca de vinte anos, toscas barras de ferro que separam a câmara de combustão da câmara de enfornamento, acabando-se desta forma com a necessidade de colocar as roncas, sempre que se pretende cozer a louça.

No dia estabelecido para a cozedura da louça, entre as cinco e as sete horas da manhã, os oleiros e respetivas famílias transportam as peças da oficina para o forno no qual é aceso o lume, preferencialmente com carqueja, caruma e giestas. Inicialmente o lume é mantido brando e destina-se a eliminar da humidade existente no interior do forno. De seguida, várias pessoas iniciam o processo de construção da grade do forno constituída pelas “roncas” que servem de grade de separação entre a caldeira da lenha e a da louça a enfornar. Terminada a construção da grade provisória, são colocadas, de forma borcada (de boca para baixo e fundo para cima) e acastelada, por cima das “roncas”, as peças de louça a cozer, começando pelas de maior dimensão e, por cima destas, as mais pequenas. Após o acastelamento da louça, o oleiro procede ao atiçamento do lume, adicionando mais lenha combustível, para que a louça seja cozida. Quando a louça está cozida, inicia-se o “abafamento”, que consiste em lançar na parte superior do forno, sobre a louça a cozer, ramos de giestas e carqueja, o que aviva mais o lume. Juntamente com esses ramos é lançada sobre as peças, que ficam cobertas, terra negra já utilizada em cozeduras anteriores, dando dessa forma continuidade ao processo de cozedura, pois a caldeira da lenha permanece alimentada. Há a realçar que na parte superior do forno o oleiro faz um orifício que funciona como chaminé. A certa altura, a experiência do oleiro determina o momento em que é colocada a arder na parte superior da chaminé mais caruma, o que provoca o avivar do fogo. De imediato, o oleiro tapa com terra tanto o lume que arde na parte superior do forno como a boca do forno. Nesta altura o oleiro toma todo o cuidado no sentido de a louça permanecer toda tapada com terra de forma a não penetrar oxigénio no interior do forno, o que a acontecer provocaria a existência de manchas na louça. As peças de louça permanecem assim abafadas durante mais algum tempo, originando a privação de oxigénio que lhe confere a tonalidade negra que a singulariza. Finalmente, extinta a fogueira, as peças de louça são destapadas, deixadas a arrefecer e limpas, para poderem depois ser vendidas.

Tipos de peças confecionadas na olaria de Bisalhães

Na olaria de Bisalhães são essencialmente confecionados dois tipos de peças, de acordo com a finalidade a que se destinam. Referimo-nos à louça utilitária, também designada como louça “churra”, e a louça decorativa, que os oleiros também chamam de louça “fina”.

Actualmente os oleiros dão alguma prioridade à confeção de louça decorativa, visto que a louça utilitária, durante o século XX, foi sendo gradualmente substituída por objetos de finalidade idêntica confecionada em materiais mais baratos e resistentes. Contudo, os oleiros de Bisalhães vão confecionando em quantidades significativas algumas peças utilitárias, em particular alguidares para o arroz de forno e assadeiras. Segue em anexo quadro com identificação das peças confeccionadas em Bisalhães, com descrição da tipologia e funcionalidade (ver anexo II-5).

No que diz respeito à louça decorativa, merecem destaque as jarras e vasos, bem como os mealheiros, entre outras peças produzidas pelos oleiros.

A louça utilitária está, como é lógico, intimamente ligada às atividades produtivas e à gastronomia da região. Sendo, durante muito tempo, a agricultura a base de sustento das famílias de Bisalhães e arredores – incluindo das próprias famílias dos oleiros, como já foi anteriormente referido – os oleiros desde cedo produziram peças que os auxiliassem no desempenho de algumas das tarefas do campo. Canecas, copos, pichorros e pichorras, garrafões permitiam o transporte de água ou vinho, o seu armazenamento e o seu consumo. As azeitonas colhidas e o azeite delas produzido eram armazenados nas talhas (ou tanhas), que serviam igualmente para guardar mel ou, até, enchidos. As paredes grossas destas peças, bem como a sua forma e altura, permitiam não só manter o seu conteúdo fresco como inacessível aos pequenos bichos existentes nos locais onde eram armazenadas. E os alimentos eram, muito frequentemente, cozinhados em peças igualmente produzidas em louça preta. Alguidares e assadeiras, para os assados (de carne ou de peixe) e para o arroz; braseiras, para assar as castanhas no outono; ou até os covilhetes, pequenas formas que deram o nome aos hoje famosos pastéis com recheio de carne de vitela picada, típicos de Vila Real.

Atualmente ainda se cozinha muito em barro preto, embora principalmente em meio rural e, menos, por pessoas que ainda guardam a memória dos cozinhados dos familiares de outrora. A restauração local denota muito interesse na utilização da louça preta, embora a reserve sobretudo para levar a refeição à mesa.

A louça preta de Bisalhães cumpre hoje um papel mais importante de “cartão-de-visita” de Vila Real, uma vez que é muito procurada pelos turistas que visitam a cidade. É, aliás, esse facto que faz com que praticamente toda a louça produzida pelos oleiros seja decorada, independentemente de ser louça marcadamente decorativa ou, pelo menos pela tipologia, utilitária.

A impermeabilização da louça

Devido à sua porosidade, a louça de Bisalhães costuma ser impermeabilizada antes de ser usada. Contudo, são variadas as técnicas e materiais usados na impermeabilização. Assim, há pessoas que untam o interior da peça com azeite, outras passam cera virgem no exterior ou no interior da peça, outras ainda usavam água e farelo.

A venda da louça

Atualmente a venda da louça de Bisalhães acontece fundamentalmente nas oficinas existentes à entrada da cidade de Vila Real ou nas casas e oficinas que possuem na aldeia de Bisalhães. Os oleiros referem também que na Feira de São Pedro, em Vila Real, ainda é rentável. Os oleiros Querubim Queirós Rocha e Cesário da Rocha Martins lamentam não poder ir à Feira, por razões de saúde e familiares.

Porém, no passado, recolheram-se testemunhos dos oleiros que em jovens, à semelhança dos seus antepassados, andavam de terra em terra com os pais e os irmãos e irmãs, a pé e descalços, a vender louça pela região do Douro, a sul do distrito de Vila Real, chegando mesmo à parte norte do distrito de Viseu.

Na verdade, não obstante a dureza de trabalho das demais etapas inerentes à confeção da olaria de Bisalhães, o processo de comercialização das peças tradicionalmente usado pelos oleiros e suas famílias assumia proporções de sofrimento desumanas. Convém aqui realçar que, até meados do século passado, a venda da olaria era feita não apenas pelos oleiros mas também pelas suas mulheres, que se deslocavam por diversas povoações deste território que distavam de Bisalhães três e mesmo quatro dezenas de quilómetros, como é o caso de várias localidades da região vinhateira do Alto Douro. O transporte das peças de barro era feito em cestos que pesavam dezenas de quilos e que colocavam à cabeça para facilitar os movimentos. Por não terem dinheiro para pagar o transporte rodoviário ou ferroviário, deslocavam-se a pé e, muitas vezes, descalços pelos caminhos agrestes e íngremes das montanhas, tanto de verão como de inverno. A venda era feita em muitas aldeias disseminadas pela zona duriense e em algumas das principais feiras da região como eram os casos de Vila Real, da Régua, Senhora do Viso, em Santa Marta de Penaguião e de Santo André, em Mesão Frio. A obra de Maria Emília Campos e Duarte Carvalho intitulada Bisalhães – Anatomia de um Povo dá-nos a conhecer um conjunto de testemunhos elucidativos e pungentes sobre a tarefa de venda da olaria de Bisalhães. Desse livro podemos, a título de exemplo, citar as declarações da Sra. Lídia, mulher do antigo oleiro Lucílio Fernandes:

“Íamos vender a Abaças e Guiães. Íamos num dia e vínhamos no outro. Naquela maré, não havia estradas. Íamos pelos montes. Só algumas pessoas tinham dinheiro para comprar alumínios, por isso cozinhava tudo em potes de barro. A peça mais antiga é o pote de barro. Em Abaças ficávamos em casa do Dr. Madeira Pinto. A irmã, D. Luísa, que era solteira é que estava à frente da casa. Compravam-nos desde púcaros pequenos (malgas) até panelas de fundo largo, para levar para as quintas. Pagavam-nos em azeite. A Sra. Maria José, mãe do Dr. Sanfins, dava-nos 20 litros de azeite e só tinha de dar 15. A D. Rosinha, mãe do Sr. Nicolau, também comprava. Também íamos para Galafura, a pé. Havia outros que iam para outros lados. O pai do Lucílio tinha um cavalo e iam para Leirós e S. Martinho. Em Guiães havia um largo e nós íamos para lá ao sábado ou domingo que era quando pagavam aos trabalhadores. Também íamos para Ordonho e Gouvinhas, a pé. Na costa de Abaças só havia sobreiros e pinheiros. Não havia estradas; eram só montes e vales. Andávamos sempre descalças, com os pés a sangrar, às vezes. Para cá, também vínhamos carregadas, com batatas, azeite e favas.”

Testemunhos deste teor conferem sentido às palavras de Miguel Torga, no livro Traço de União: “ […] A louça negra que nos vende este oleiro de Bisalhães não é, como parece, apenas barro amassado e cozido: é o lado nocturno da fome na sua expressão estóica e triste.”
Manifestações associadas:
Indissociavelmente ligada à louça de Bisalhães está a Feira de S. Pedro, em Vila Real, também conhecida como a Feira dos Pucarinhos. Nos dias 28 e 29 de junho de cada ano, os oleiros de Bisalhães espalham a sua louça na Rua Central, também conhecida como Largo da Capela Nova, para venderem as peças que foram produzindo. A população de Vila Real e localidades limítrofes acorre em grande número a esta Feira, que se constitui como um dos acontecimentos festivos mais populares da cidade e da região. É também tradição grupos de pessoas adquirirem aos oleiros uma peça de louça, formando depois uma roda na qual os elementos arremessam de uns para os outros essa peça. Aquele que deixar cair a peça de louça, provocando a sua destruição, é obrigado a adquirir uma outra para dar continuidade ao jogo. As pessoas de Vila Real designam esta tradição como o “jogo do panêlo”.
Contexto transmissão:
Estado de transmissão activo
Descrição: Atualmente, a confeção da louça negra está ativa na aldeia de Bisalhães e restringe-se a cinco oleiros, todos eles residentes na aldeia de Bisalhães, freguesia de Mondrões, concelho de Vila Real, distrito de Vila Real.

A tradição da louça negra de Bisalhães está inactiva nas aldeias de Lordelo, Parada de Cunhos, Mondrões e Vila Marim.

Tradicionalmente, a transmissão dos conhecimentos inerentes à produção da olaria de Bisalhães ocorre em contexto familiar. Os oleiros transmitem conhecimentos aos seus filhos e netos, tal como eles os receberam dos pais e avós. Estes oleiros não manifestam muita disponibilidade para transmitir os seus conhecimentos fora da família direta. Segundo os próprios oleiros atualmente em atividade, todos eles já procuraram transmitir aos seus descendentes, filhos e netos, a sua arte. Contudo, referem que as novas gerações não manifestam vontade de aprender a confecionar a louça por ser um trabalho exigente do ponto de vista físico, tanto para os homens como para as mulheres. O aumento do grau de escolarização das novas gerações tem permitido aos descendentes dos oleiros obter ocupações profissionais que os dispensam do trabalho de confeção do barro. Daí que se possa concluir que as novas gerações possuam apenas alguns conhecimentos e competências técnicas que não se traduzem propriamente na prática de produção. A exceção a esta regra reside no oleiro Jorge Ramalho, de 46 anos, filho do oleiro Sesiznando Ramalho que desde há sensivelmente três anos se dedica a tempo inteiro à confeção de louça de Bisalhães. É o oleiro mais novo em atividade, pois a idade dos restantes varia, atualmente, entre os 74 e os 81 anos. Destaque ainda para o jovem Miguel Fontes, neto de oleiros, que tem procurado aprofundar os seus conhecimentos e melhorar a sua técnica, elaborando já algumas peças típicas desta olaria.

Todos os oleiros referiram que não partilham conhecimentos uns com os outros, notando-se mesmo a existência de alguma rivalidade entre eles.

Data: 2014-12-31
Modo de transmissão oral
Idioma(s): Português
Agente(s) de transmissão: Os próprios oleiros
Origem / Historial:
A análise da documentação existente permite concluir que, pelo menos, desde o século XVI existe produção de louça em barro no centro de produção num conjunto de pequenas localidades adjacentes à cidade de Vila Real como Mondrões, Lordelo, Vila Marim, Parada de Cunhos e, principalmente, Bisalhães. O foral de Lordelo, de 12 de novembro de 1519, informa dos tributos a pagar pelos oleiros. Essa louça, que tradicionalmente era constituída por objetos de carácter utilitário como púcaros, bilhas, alguidares, potes, talhas, cântaros, panelas, canecos, pichorras, cafeteiras, covilhetes e bilhas de “segredo”, e louça decorativa como serviços de chá, lilás e pucarinhos de peito, era – e ainda é – comercializada na cidade de Vila Real, na Feira dos Pucarinhos, que se celebra anualmente no dia de S. Pedro, no dia 29 de junho, e por vários concelhos da região do Douro, durante todo o ano.

Porém, se tivermos em conta o estudo Olaria de Bisalhães – Caderno de Especificações para Certificação, da autoria de Graça Ramos (CRAT) e Alberto Tapada (AETUR), publicado em 2006, é plausível que a atividade olárica neste território tenha origens mais remotas. É uma temática cujo conhecimento interessa aprofundar, visto que os estudos produzidos até à atualidade não têm incidido prioritariamente sobre este aspeto. Os últimos trabalhos arqueológicos realizados na Vila Velha (núcleo original da cidade de Vila Real) em 1995 e 1996 e entre 2002 e 2004, acompanhadas posteriormente até 2008, no âmbito do Programa Polis, permitiram a recolha de fragmentos de cerâmica que indiciam a possibilidade de ser oriunda deste centro olárico, dadas as semelhanças com a louça aí produzida.

Contudo, segundo a mesma fonte, estes dados carecem de investigação e análises posteriores que confirmem esta relação. Outros fatores permitem reforçar a convicção de uma origem mais remota da produção de olaria nesta região, um deles é a abundância de barro existente neste território, o que é obviamente um fator facilitador desta atividade. Por outro lado, se atentarmos na toponímia verifica-se que neste território abundam locais cuja designação remete para a atividade da olaria. Assim, existe na freguesia de Lordelo o lugar a que chamam Soengas; em Vila Marim temos os lugares chamados de Barroca, Forno e, em Quintela, o Barreiro; existe também em Mondrões o lugar do Barreiro. Também a análise da antroponímia permite considerar a plausibilidade de uma origem mais remota da atividade de produção da olaria. Assim, no âmbito da “Devassa a que mandou proceder sua Majestade no território do Alto Douro pelo Desembargador António de Mesquita e Moura (1771 a 1775)” foram interrogados António Rodrigues Soenga e José Rodrigues Soenga, apelidos que obviamente remetem para a atividade da olaria.

Certo é que o foral concedido por D. Manuel I a Vila Real, em 1515, já faz menção à existência à olaria da região, tal como o já referido foral de Lordelo. Não obstante a inexistência de fontes referentes à atividade da olaria a partir do século XVI, é provável que tenha subsistido com robustez até ao século XVIII, época em que aumentam as referências a este centro olárico na periferia de Vila Real. Essas fontes documentais dão conta do significativo número de oleiros em atividade em Mondrões e Lordelo. É também referido que oleiros provenientes de Gondar se deslocaram para a freguesia de Mondrões e contraíram matrimónio com mulheres de Bisalhães que também se dedicavam à produção de louça. Um inquérito paroquial, datado de 1706, dá conta da muita louça que se produzia em Lordelo, cuja quantidade daria para “prover toda a comarca [de Trás-os-Montes]”; já em 1796 sabemos da existência de oito louceiros nesta mesma localidade. A “Relação de Vila Real e seu termo”, de 1721, refere a produção e comercialização de louça na freguesia de Mondrões. Os registos paroquiais de setecentos registam também factos e relacionamentos familiares como nascimentos, casamentos e mortes acontecidos entre pessoas que se dedicavam à olaria.

As referências existentes no séc. XVIII incluem não só o ofício de oleiro e as suas oficinas, como também o local de extração. De facto, a mesma “Relação de Vila Real e seu termo”, de 1721, menciona a existência da “fábrica de telha e tijolo” no lugar de Parada de Cunhos, igualmente referida no Inquérito Industrial de 1881. Aí se refere que “os fornos que têm e os processos que empregam são dos mais primitivos”.

No ano seguinte um oleiro de Bisalhães obtém um prémio na Exposição de Cerâmica Nacional, que decorreu no Porto – organizada por Joaquim de Vasconcelos.

Em 1890 refere-se, no Inquérito Industrial, a existência de cinquenta oficinas de olaria, cada uma com o seu forno. Ainda que nem todas laborassem todo o ano, metade fazia-o.

Uma das características da olaria de Bisalhães, e mais precisamente dos homens, mulheres e crianças que sempre colaboraram na sua confeção, e que, em larga medida justifica a sua subsistência até à atualidade, é a capacidade de adaptação à mudança dos tempos e de dar resposta às novas realidades do meio em se insere. Este fator foi particularmente evidente no século XVIII, mais concretamente a partir da criação da Região Demarcada do Douro pelo Marquês de Pombal, em 1756, quando a produção e comércio do centro olárico do termo de Vila Real recebeu um considerável impulso devido à necessidade de suprimir as necessidades alimentares e de trabalho da enorme quantidade de pessoas que afluíram à região do Douro provenientes de outras regiões transmontanas, das Beiras e da Galiza para a epopeia de construção dos muros, socalcos e plantação das vinhas que caracterizam a mais antiga região vinhateira demarcada do mundo. Na verdade, estes milhares de pessoas e famílias que passaram a residir em concelhos adjacentes ao centro olárico de Bisalhães criaram um novo e apreciável mercado para os oleiros. As peças de barro tornaram-se assim num elemento característico da atividade quotidiana, de trabalho e doméstica, inerente ao trabalho de construção das quintas durienses e de produção do Vinho do Porto. A partir desta altura os homens e, principalmente, as mulheres e crianças da freguesia de Mondrões passaram a calcorrear os caminhos que levam a concelhos como Vila Real, Peso da Régua, Sabrosa, Alijó, Murça, Santa Marta de Penaguião, e também a municípios da região norte do distrito de Viseu, como Lamego, Armamar, Tabuaço e São João da Pesqueira, a vender as peças de barro ou, como acontecia frequentemente, trocá-los por bens alimentares como vinho, azeite, fruta ou mel, que não eram produzidos na sua região que era montanhosa e fria. Faziam caminhos de dezenas de quilómetros em condições deploráveis, a pé, muitas vezes, descalços e carregando à cabeça cestos que chegavam a pesar várias dezenas de quilos. Por vezes, para se pouparem ao esforço desumano do carrego dos cestos com louça, as mulheres dirigiam-se à estação de Vila Real e despachavam a louça no comboio que fazia a linha Vila Real – Régua e elas, por não terem dinheiro para o bilhete, seguiam a pé para a feira da Régua, um trajeto de perto de duas dezenas de quilómetros. As incursões à região do Douro duravam frequentemente dois dias, o que obrigava as mulheres e crianças de Bisalhães a pernoitar nas aldeias, em casas de pessoas que os conheciam e se compadeciam da dureza de vida dos oleiros e seus familiares. No contexto da comercialização da louça preta de Bisalhães no Alto Douro assumia particular importância a presença dos oleiros e suas famílias nas feiras da região, em particular nas feiras de Santo André, no início de dezembro, e na feira da Senhora do Viso, na aldeia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião.

Desta forma alargou-se substancialmente o mercado da louça de Bisalhães tanto em termos geográficos como populacionais pois, para além de contar com a região do Alto Douro Vinhateiro, continuava a comercializar no núcleo urbano de Vila Real, que do ponto de vista demográfico era a maior de Trás-os-Montes.

A atividade de confeção do barro no centro olárico do termo de Vila Real persistiu ao longo do século XIX e a primeira metade do século XX, ainda que gradualmente se tenha vindo a restringir à localidade de Bisalhães. Alberto Tapada, em Bisalhães – Memórias sem futuro?, publica a lista nominal de 54 oleiros que, em 1947/1948, davam continuidade à confeção da louça negra de Bisalhães.

Porém, a partir de meados do século passado, fruto da evolução tecnológica e do incremento dos meios de produção em série, as peças utilitárias da louça de Bisalhães começam gradualmente a ser substituídas por objetos de idêntica função de alumínio e de plástico, que se foram tornando mais baratos e eram mais duradouros. Este fator provocou uma crise profunda na atividade dos oleiros que, uma vez mais, se viram na contingência de alterar a natureza das peças que criavam e os processos de venda. Desta forma incrementaram a criação de peças com finalidades decorativas como jarras, miniaturas, serviços de chá e loucinha de peito. Foram também abandonando as feiras e a venda pelas aldeias do Alto Douro, fixando postos de confeção e venda na Estrada Nacional nº 15, que liga o Porto a Vila Real, e que era a principal via rodoviária da região. Com o incremento do tráfego rodoviário e a chegada de mais forasteiros à região, estes pontos de venda localizados na estrada, nas proximidades de Vila Real tornaram-se numa imagem turística disseminada em cartazes e postais alusivos a este território. Eram postos de venda extremamente rudimentares, por vezes constituídos por tocas que os oleiros escavavam nas rochas da serra do Marão que marginavam a estrada e nas quais se abrigavam do calor e do frio intensos. A louça era exposta no chão e pendurada em primitivos “expositores” de madeira. Em simultâneo os oleiros, que também transportavam a roda e o barro já preparado, iam dando forma às peças que posteriormente seriam cozidas.

No início dos anos 90 do século XX, com a construção e abertura ao público do Itinerário Principal (IP4), que se constituiu como alternativa à velha estrada nacional 15, o processo de venda da olaria de Bisalhães sofreu outra alteração substancial. Com a abertura da nova via a quase totalidade do tráfego rodoviário desviou-se da antiga estrada 15, retirando os clientes da louça preta. Assim, e mais uma vez, os oleiros tiveram de se adaptar a esta nova realidade. A solução consistiu na construção, por parte da Câmara Municipal de Vila Real, de um conjunto de postos de venda localizados na entrada norte da cidade. Estes postos de venda, mais modernos e um pouco mais confortáveis que os anteriores, são os que atualmente utilizam para produzir uma boa parte das peças que continuam a cozer nos fornos de Bisalhães.

A década de 60 do século passado marcou, porém, o início de um acentuado declínio da atividade de confeção do barro em Bisalhães. Vários fatores contribuíram para este fenómeno. Desde logo o fenómeno migratório, que perpassou toda a população portuguesa, fez-se sentir com particular impacto nesta região. Os descendentes dos oleiros passaram a procurar nas grandes cidade do litoral as condições de vida que de forma alguma poderiam alcançar na sua terra de origem. Os próprios oleiros incentivaram esta atitude, pretendendo desta forma que os filhos não tivessem de passar por uma vida de sofrimento e miséria idêntica à deles e dos seus antepassados. Este êxodo para o litoral foi também acompanhado pela diáspora que durante as décadas de 60 e 70 esvaziou de gente o mundo rural, o que na região pobre e montanhosa onde se situa Bisalhães causou também um forte impacto, com consequências na atividade olárica. Outro fator relevante que justifica o declínio da produção de peças de barro de Bisalhães foi a melhoria das condições de vida e a massificação do ensino resultante da revolução de 25 de abril de 1974. Na verdade, a partir dessa altura as crianças e jovens de Bisalhães tiveram, como as outras, a possibilidade de aceder a níveis de escolarização que lhes permitiram vir a exercer profissões incomparavelmente mais cómodas e bem remuneradas.

Estes aspetos, entre vários outros de menor impacto, justificam em boa parte a situação crítica por que passa atualmente a atividade olárica de Bisalhães e que coloca fortemente em risco a sua sobrevivência. Assim, das mais de cinco dezenas de oleiros existentes na década de 50 permanecem hoje em atividade apenas seis, quatro deles com mais de 70 anos e, desses velhos oleiros, três já não podem contar com a colaboração das mulheres por já terem falecido ou porque as condições de saúde não o permitem.

Convém neste ponto realçar que as instituições locais não têm sido indiferentes a este processo de decadência da olaria de Bisalhães. A partir anos 70 a extinta Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão tomou várias iniciativas tendentes à preservação e divulgação da olaria através da edição de trabalhos de investigação, de coleções de postais, da divulgação nacional e internacional do trabalho dos oleiros. A Câmara Municipal tem dado atenção à realidade da olaria de Bisalhães ao construir os postos de confeção e venda das peças situados à entrada de Vila Real, os quais os oleiros utilizam atualmente; ao organizar a Feira dos Pucarinhos que anualmente decorre durante as Festas de São Pedro; divulgando a atividade dos oleiros junto da população e nos meios de comunicação social. Também a NERVIR – Associação Empresarial de Vila Real tem procurado dar contributos para a preservação e divulgação da olaria de Bisalhães. Assim, em 2006, no âmbito do programa comunitário ON2, esta associação empresarial local, em colaboração com a Câmara Municipal de Vila Real e a Junta de Freguesia de Mondrões, obteve a classificação de Indicação Geográfica Protegida para a Olaria Negra de Bisalhães, produziu o Caderno de Especificações definidor das regras de certificação da olaria de Bisalhães com o objetivo de garantir a valorização e autenticidade deste artesanato. Por fim, as escolas do ensino básico e secundário do concelho de Vila Real e de municípios vizinhos têm pontualmente convidado os oleiros a demonstrar a sua atividade perante os alunos como forma de lhes dar a conhecer a arte e incentivando a sua prática.

Porém, estas iniciativas, provavelmente por não terem continuidade e por surgirem sem que, por vezes, os promotores tenham em conta a realidade histórica e sociocultural em que se processa a atividade dos oleiros, não têm produzido resultados relevantes no sentido de estancar o processo de decrescimento da olaria de Bisalhães.

A confeção da louça preta foi motivo de interesse etnográfico desde finais do séc. XIX. Embora haja referência à olaria de Bisalhães e aos oleiros desde o séc. XVIII (ou XVI, se incluirmos o próprio foral de Lordelo), só ao culminar o séc. XIX e nos primórdios do séc. XX é que o interesse pela Olaria de Bisalhães encontra reflexo na bibliografia. Os prémios ganhos por oleiros e a exibição da sua louça nas mostras que se vão fazendo, um pouco por todo o país, mas principalmente a forma de fazer a louça cedo cativaram a atenção de inúmeros etnólogos e historiadores. Desde essa altura múltiplos investigadores dedicaram a sua atenção à louça preta de Bisalhães.

Assim, em 1706, António Carvalho da Costa na Corografia Portuguesa faz menção ao fabrico da louça no termo de Vila Real; Charles Lepierre, em 1899, no seu Estudo Químico e Tecnológico sobre Cerâmica Portuguesa Moderna, realçava a singularidade e importância da louça de barro confecionada em Bisalhães no contexto nacional. Também Rocha Peixoto nos legou textos e peças de louça de Mondrões/Bisalhães resultantes das suas visitas a este centro olárico, tendo publicado, em 1900, Industrias populares: as olarias de Prado e, em 1903, o texto intitulado “Sobrevivência da primitiva roda de oleiro em Portugal”, incluído na Etnografia Portuguesa. Em 1921, D. Carolina Michäelis de Vasconcelos publica Algumas palavras a respeito dos púcaros de Portugal, no qual, entre outras, reflete sobre as peças que integram a olaria de Bisalhães. Em 1924 e 1936, Cláudio Basto publica, respetivamente nas revistas Lusa e Portucale, os artigos “A Feira dos Pucarinhos em Vila Real” e “Pucarinhos de Vila Real”. Em 1940, Santos Júnior publica o texto “Oleiros e olaria” em Vida e Arte do Povo Português. Russel Cortês, em 1942, publica no Livro do Segundo Congresso Transmontano, o artigo “A Olaria Negra em Trás-os-Montes”. De Luís Chaves, em 1953, é editado Do barro se faz a louça; na louça se come o trigo; em 1970, Armando Augusto Ribeiro publica o livro A Olaria de Bisalhães – Subsídios para uma monografia do artesanato regional da Serra do Marão, na qual disserta sobre os vários aspetos da produção e venda da louça de Bisalhães. Mais recentemente há a realçar o trabalho desenvolvido por Werner Tobias que publicou, em 1986, Schwarze Keramik in Nordportugal, Ein Bericht uber die Arbeit der Topfer in Bisalhães – Vila Real e, em 1988, Arte Tradicional em Portugal. Da autoria de Maria Emília Campos e Duarte Carvalho é publicado, em 1999, o livro Bisalhães – Anatomia de um Povo. António Pereira Dinis publica, em 2000, “As Olarias de São Tiago de Mondrões no Século XVIII”, na revista Estudos Transmontanos e Durienses; e em 2004, “Contribuição para o estudo das olarias do termo de Vila Real. Manuel Rodrigues, oleiro em Parada”, na revista Olaria. Ainda de António Pereira Dinis em colaboração com Paulo Amaral, em 1997, “O café na chocolateira de barro de Bisalhães”, em Louça preta em Portugal: olhares cruzados; também de António Pereira Dinis e Paulo Amaral, em 2003, Louça Preta de Bisalhães – Vila Real, em As Idades da Terra. Alberto Tapada publica, em 2006, Bisalhães: Memória sem futuro? e, em 2004, em colaboração com Filipe Saiote Olaria Negra de Bisalhães. Relativamente à investigação e produção bibliográfica sobre a olaria de Bisalhães há a destacar o significativo trabalho que tem vindo a ser desenvolvido por Isabel Fernandes que, em 1997, publica “Oleiros de Bisalhães”, em 2003, “os diferentes modos de preparar o barro” em a A louça preta em Portugal: olhares cruzados; nas olarias de louça preta portuguesas, extintas ou em laboração”, em Actas das III jornadas de Cerâmica Medieval e Pós-Medieval: métodos e resultados para o seu estudo e, ainda em 2003, “Vasilhas: em barro se fazem, de barro se usam: o quotidiano visto através da olaria”, em Olaria Portuguesa: do fazer ao usar = Portuguese pottery: from crafting to usage; em 2006, “Saberes, sabores, usos e desusos da olaria nortenha”; em 2012, As mais antigas colecções de olaria em Portugal; de Isabel Fernandes, Patrícia Moscoso e Fernando Castro, em 2009, A Louça preta de Bisalhães (Mondrões – Vila Real)
Direitos associados:
TipoCircunstânciaDetentor
Direito consuetudinário local Direitos coletivos de carácter consuetudinário; direitos individuais.São detentores dos direitos relativos à produção da olaria de Bisalhães os artífices que integram este centro de produção.
Responsável pela documentação:
Nome: João Ribeiro da Silva ; João Luís Sequeira.
Função: João Ribeiro da Silva: diretor do Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real e do Museu da Vila Velha ; João Luís Sequeira: docente no Agrupamento de Escolas Morgado de Mateus (Vila Real)
Data: 2014-12-31
Declaração de compromisso
Fundamentação do Processo:
 
     
     
   
     
     
     
 
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