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FICHA DE PATRIMÓNIO IMATERIAL
N.º de inventário:
INPCI_2017_001
Domínio:
Práticas sociais, rituais e eventos festivos
Categoria:
Festividades cíclicas
Denominação:
Festa de Carnaval dos Caretos de Podence
Outras denominações:
Carnaval de Podence, Caretos de Podence, Entrudo dos Caretos, Entrudo Chocalheiro
Contexto tipológico:
A festa de Carnaval dos Caretos de Podence insere-se no quadro das festas de mascarados que ocorrem no ciclo do inverno, que estão, no contexto geográfico português, associadas à região nordeste do país e que incidem sobretudo no Natal, Ano Novo e Carnaval. Este evento ritual tendo origem no chamado “tempo longo”, de organização da vida em função dos ritmos do ciclo agrário, reporta às festas de celebração do final do ciclo de inverno e início do ciclo produtivo da primavera, exercendo funções de restabelecimento da ordem natural e social no contexto daquelas sociedades agrárias. Singular relativamente a outras festividades de Carnaval realizadas noutros pontos do país e adaptando-se a um contexto socioeconómico pós-rural, a festa de Carnaval dos Caretos de Podence assume hoje particularidades próprias, através dos seus elementos – a máscara e o fato –, dos comportamentos que caracterizam o ritual e os protagonistas da festa, os mascarados, conhecidos como “caretos”, e da sua função social atual, assumindo um formato distintivo e único.
Contexto territorial:
Local: Podence
Freguesia: Podence
Concelho: Macedo de Cavaleiros
Distrito: Bragança
País: Portugal.
NUTS: Portugal \ Continente \ Norte \ Alto Trás-os-Montes
Contexto temporal:
Periodicidade: Anual
Data(s): Decorre entre Domingo-Gordo e a Terça-Feira de Carnaval que antecede em 47 dias o Domingo de Páscoa, fixando-se a data das celebrações de Carnaval entre 3 de fevereiro e 9 de março.
Caracterização síntese:
A festa de Carnaval dos Caretos de Podence é um ritual que se caracteriza pelo comportamento específico dos seus protagonistas mascarados, os “caretos”. Nas suas “sortidas à rua” (em regra, nos três dias de Carnaval), os caretos, percorrem a aldeia tendo como principal missão chocalhar as mulheres. Este ritual festivo que é também caracterizado pelo convívio entre vizinhos, amigos e familiares, foi num contexto passado, de que dá conta a memória dos residentes mais velhos na aldeia, protagonizado essencialmente pelos rapazes e homens solteiros, cujo alvo eram as jovens raparigas e mulheres solteiras, tendo portanto uma função propiciatória, de passagem e de comportamento erótico-sexual.

Fruto da alteração profunda do contexto socioeconómico dos meios rurais o perfil sóciodemográfico dos caretos de Podence sofreu adaptações que facilitaram a sobrevivência e a manutenção da festa. Os fatos de careto são hoje vestidos por homens e rapazes de várias idades, independentemente do seu estado civil. Hoje também as crianças participam no ritual, mascaradas de “facanitos”que assumem o papel de aprendizes dos caretos, e, em função do “empoderamento” da mulher na sociedade portuguesa, há uma cada vez mais consentida participação das raparigas. Os protagonistas da festa, por imperativos demográficos, são também maioritariamente emigrantes e migrantes, sendo este um momento do ano que promove a reunião familiar e vicinal, gerando sentimentos de pertença cultural e territorial. A festa é neste sentido promotora de um diálogo intergeracional, que tem permitido a sua transmissão e fortalecido a sua continuidade.

Com o objetivo de preservar a manifestação e garantir a sua continuidade prática, forma-se em meados dos anos 80, um grupo de Caretos de Podence que é habitualmente convidado a apresentar-se, várias vezes durante o ano, noutros contextos festivos ou em eventos de natureza muito diversificada, como festas populares, cortejos, ou performances de palco, dentro e fora do país. Estas apresentações são uma forma de divulgação e promoção que antecipam a festa que acontece em Podence no Carnaval, ao mesmo tempo que têm promovido a identificação cada vez maior da festa como um símbolo da “cultura tradicional portuguesa” atraindo muitos visitantes.

Hoje a aldeia é visitada durante o Carnaval por vizinhos das aldeias e cidades próximas, amigos e familiares, curiosos e turistas nacionais de todo o país e até visitantes internacionais.

Ao longo dos três dias de celebração do Carnaval de Podence decorre um programa de atividades paralelas, como exposições que exploram a temática da festa, uma feira de produtos regionais e concertos de música tradicional, entre outras, voltadas quer para a comunidade, quer para a receção dos turistas e visitantes.
Caracterização desenvolvida:
A festa de Carnaval de Podence caracteriza-se especificamente pela “sortida” dos caretos (1), nome pelo qual são conhecidos os homens e rapazes mascarados, que correndo e pulando pela aldeia durante aquele período festivo (em regra, entre Domingo-Gordo e Terça-feira de Carnaval (2)), têm como principal objetivo ao encarnarem o personagem mascarado, chocalhar as mulheres com ritmados movimentos de anca atingindo-as com os chocalhos que trazem pendurados à cintura. Entre as chocalhadas e a correria, os caretos tentam também “intimidar” os homens não mascarados, preferencialmente acertando-lhes na cara com as franjas da cauda do capuz do traje que usam. Este ritual festivo é também caracterizado pelo convívio entre vizinhos, amigos e familiares, pelo que ao longo das “saídas” dos caretos pelas ruas da aldeia, alguns habitantes lhes vão abrindo as portas de casa ou das adegas, oferecendo-lhes de beber e de comer, essencialmente vinho caseiro, pão e carnes de fumeiro tradicional. Assumindo o papel do mascarado, com todo o desregramento que lhe é permitido, fazem parte algumas “partidas” de Carnaval, como o roubo ocasional de algum fumeiro, ou o deitar cinzas às pessoas, entre outras brincadeiras consideradas inofensivas, como por exemplo ainda, as “cacadas” que se caracterizam por lançar, sem aviso prévio, alimentos para dentro das casas (como nozes ou farinha).

O seu comportamento mais característico, o movimento das “chocalhadas”, interpretado como uma “simulação do ato sexual” alude a uma das dimensões mais específica desta festa. Este ritual festivo foi num contexto passado, de que dá conta a memória dos residentes mais velhos na aldeia e alguma textualização etnográfica, protagonizado essencialmente pelos rapazes e homens solteiros, cujo alvo eram as jovens raparigas e mulheres solteiras. O erotismo, implícito na atuação de chocalhar dos caretos hoje muito menos agressiva, é relatado pelos mais antigos, recordando a festa em meados do século XX, como uma forma de contacto físico entre rapazes e raparigas jovens que lhes era absolutamente vetado noutros períodos do ano, pela ordem social e os costumes morais a que atendiam. Hoje, num contexto de maior liberdade dos comportamentos e das sociabilidades, persistem as investidas sobre as raparigas e as mulheres ora como forma de manutenção das características da festa consideradas tradicionais, ora como usufruto da liberdade e licenciosidade ainda hoje consentidas e reconhecidas aos caretos.

Será esse característico comportamento provocatório/erótico dos caretos de Podence, que representaria a vincada diferença de papéis de género estabelecida no contexto das sociedades rurais agrárias (hoje muito mais diluída), e que ainda cria algumas “resistências” a que também as raparigas se vistam de caretos, embora a sua participação seja cada vez mais comum. Alegam, sobretudo os mais velhos, que a participação das raparigas contribui para a continuidade da tradição, ao passo que outros criticam a “irreverência” desta participação feminina temendo a perda do traço tradicional. Este debate interno e informal da comunidade (que não se cinge apenas à participação feminina, mas também ao próprio comportamento performativo dos caretos, entre outras questões características ou organizativas)pode ser entendido como um esforço de adaptação e continuidade de uma tradição antiga no contexto contemporâneo. Tal contexto deu também abertura à participação de rapazes e homens de todas as idades, independentemente do estado civil, ou dos descendentes da aldeia nascidos fora da localidade, e ainda das crianças, que assumem o papel de aprendizes vestindo fatos e máscaras similares aos dos adultos, e às quais chamam de “facanitos”.

Do mesmo modo abriram-se também “portas” a um público exterior à aldeia, fazendo com que a interação dos caretos se estendesse a essas novas audiências. Atualmente a aldeia é visitada durante os dias de festa por vizinhos das aldeias e cidades próximas, amigos e familiares, curiosos e turistas de todo o país, da vizinha Espanha e alguns chegam já de terras mais longínquas (3). Qualquer mulher presente na festa, independentemente do seu estado civil ou idade, ou do estatuto de residência, é alvo das chocalhadas.

A caracterização atual deste ritual festivo carnavalesco está assim implicitamente relacionada com as transformações do mundo rural português, particularmente da recomposição do tecido social e da economia local, a partir de meados do século XX. Até esse momento, e tendo em conta uma organização socioeconómica dos meios rurais centrada na agricultura e nas profissões tradicionais, o conteúdo erótico que caracteriza o ritual carnavalesco de Podence e a abundância alimentar nos momentos de refeição durante a festa, podem também, ser interpretados à luz de uma perspetiva de antecipação da renovação/regeneração da fertilidade na natureza e do retorno da abundância no novo ciclo produtivo agrícola que se inicia com a primavera.

Hoje, a população de Podence vive muito mais dissociada do espaço agroflorestal enquanto fonte exclusiva de trabalho e rendimento. A população de residência permanente é maioritariamente idosa, tendo por isso, grande peso, nos rendimentos, as pensões e reformas. A prática agrícola é normalmente um complemento desses rendimentos. Por outro lado, os movimentos de população não se limitam ao despovoamento. Além dos emigrantes e migrantes que retornam sazonalmente, ou dos que retornaram nos últimos 20 anos para viverem o tempo de reforma, em Podence a grande maioria da população residente em idade ativa trabalha fora da aldeia, em localidades vizinhas, desempenhando profissões sobretudo do setor dos serviços. Há ainda os que morando na região regressam aos fins-de-semana. Existe portanto um novo contexto, de maior abertura ao exterior e de dependência da aldeia dos fluxos económicos que resultam destes movimentos da sua população. A festa é caracterizada por permanências e mudanças, refletindo um diálogo entre esse mesmo contexto de mudança e a vontade de manutenção da tradição por parte da população.

Funcionando como um referencial, para os descendentes e habitantes, do contexto histórico e social do passado recente da comunidade, a festa promove o reencontro e fortalece os laços sociais entre os seus residentes permanentes e os seus descendentes. O regresso periódico da população migratória é, por exemplo, em muitos casos, um compromisso com a continuidade da festa, reconhecida assim pela comunidade como símbolo cultural e identitário específico da localidade. O aumento nas últimas duas décadas do número de caretos que participam na festa está positivamente relacionado com o regresso pontual dos migrantes no Carnaval e com a sua valorização. Por outro lado, o interesse, de investigadores das ciências sociais, dos órgãos de comunicação social e dos turistas e curiosos, tem gerado também um fortalecimento desta relação entre a comunidade e o seu património festivo, intensificando-se consequentemente as iniciativas locais durante a reprodução anual da festa.

Na década de 80 surgiu no interior da Associação de Melhoramentos de Festas e Feiras um grupo de caretos de Podence que se constitui formalmente como grupo associativo em 2002. Assumindo como missão a promoção e divulgação da tradição carnavalesca de Podence, o Grupo de Caretos de Podence, participa desde meados da década de 80 numa grande diversidade de eventos por todo o país e no estrangeiro. Em 2004, é inaugurado na aldeia, um espaço museológico, a Casa do Careto, aproveitando as antigas instalações da escola primária, onde são expostos uma série de elementos característicos da festa, como os fatos e máscaras e os teares tradicionais para a sua confeção. O espaço (aberto ao público, durante todo o ano) funciona também como sede da associação, auditório e galeria, transmitindo pontualmente filmes documentais sobre a festa, e expondo coleções de pintura e fotografia retratando o ritual. O Grupo assumiu ainda ao longo do tempo, a organização mais formal de um conjunto de atividades que decorrem ao longo dos dias de festa, voltadas quer para a comunidade, quer para a receção dos turistas e visitantes.

Efetivamente, os preparativos para a festa começam no ano anterior, com o planeamento deste programa de atividades paralelas que atualmente acompanham os três dias de ritual festivo do Carnaval de Podence. A organização e o planeamento deste programa que inclui animação musical, uma feira de produtos regionais, degustação de gastronomia regional, passeios pedestres e de burro, entre outras atividades, está a cargo da Associação Grupo de Caretos de Podence, conta com a participação voluntária, e mais intensa nos dias que antecedem a festa, de várias pessoas naturais da aldeia, e também com o apoio logístico e financeiro da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros. Estes preparativos incluem, a instalação no recinto da escola primária de uma tenda, com instalação de palco e mesas, para realização de concertos e serviço de algumas refeições comunitárias; a instalação de barraquinhas para a feira de produtos regionais, a reorganização do espaço da Casa do Careto para desenvolvimento das atividades planeadas para o espaço durante os dias de festa (montagem de novas exposições, cerimónia de inauguração do evento, etc.), construção e montagem do “boneco” para a “Queimada” (bebida alcoólica servida Domingo à noite) e “Queima do Entrudo”, entre outros detalhes logísticos.

O crescimento da organização e a diversificação do programa da festa, particularmente desde a inauguração da Casa do Careto em 2004, tem impulsionado também um novo dinamismo económico de iniciativa local, como por exemplo, a reconstrução de casas vazias para desenvolver investimentos de turismo habitacional (4), ou a produção artesanal de alguns objetos associados à festa, como por exemplo, de máscaras essencialmente produzidas na aldeia mas também fora, e outros objetos de função meramente decorativa, postais ou estátuas em miniatura de caretos, para venda na Casa do Careto e em especial durante os dias de festa. A poucos meses do Carnaval, estes pequenas atividades locais começam também a preparar-se para a realização da festa.

Ao longo do ano, o Grupo de Caretos de Podence é habitualmente chamado a apresentar-se noutros contextos festivos ou em eventos de natureza muito diversificada, como festas populares, cortejos, ou performances de palco, dentro e fora do país. Estas apresentações são uma forma de divulgação e promoção, antecipando a festa que acontece em Podence no Carnaval, ao mesmo tempo que têm promovido a identificação cada vez maior da festa como um símbolo da “cultura tradicional portuguesa”.

Nesse sentido, a denominação “Entrudo Chocalheiro” deriva de uma iniciativa da Associação do Grupo de Caretos de singularizar a imagem “marca” da festa, diferenciando-a de outras festas de carnaval ou de mascarados e tornando-a, com esta denominação simplificada mais identificável e destacável quer pelos meios de comunicação social quer pelos operadores turísticos. De forma genérica, para a população, a denominação “Entrudo chocalheiro” é relativamente nova mas não estranha. Além desta denominação, a referência à festa faz-se habitualmente dizendo “Carnaval de Podence”, “Entrudo dos Caretos” ou simplesmente “Caretos de Podence”.

Paralelamente, ao longo do ano, vão igualmente sendo preparados os fatos e máscaras que serão utilizados durante o Carnaval. Os fatos e máscaras são uma componente central da festa, por se constituírem como elementos materiais distintivos, confirmando um dos aspetos da singularidade da festa reclamada pela população. Neste sentido, quer as alterações do contexto socioeconómico da aldeia, atrás referidas, quer a constituição formal do Grupo de Caretos de Podence e a subsequente representação mediática e turística da festa, tiveram influência na uniformização das características dos fatos e das máscaras. Por um lado, a maior disponibilidade económica e de recursos materiais, faz com que, os caretos possam atualmente “encomendar” fatos e máscaras, quando, anteriormente, estes eram essencialmente feitos pelos próprios ou com “ajudas” de familiares e amigos com recurso exclusivo aos materiais disponíveis no espaço da aldeia. Essa disponibilidade limitada de recursos era geradora de variações que dependiam também do engenho e da criatividade de cada um, sobretudo na feitura das máscaras.

Se hoje a máscara de lata pintada de vermelho, às vezes com contrastes ou detalhes a preto (barba, bigode, sobrancelhas, ou cruzes, que poderão remeter à simbologia cristã, e que de modo genérico a população atribui à transfiguração do mascarado em personagem diabólico), é a mais vulgarmente associada ao careto de Podence; no passado recente (como o comprovam, por exemplo, as máscaras que integram a coleção do Museu Nacional de Etnologia, e testemunhos da população mais idosa da aldeia) as máscaras eram feitas, de sobras de metal (aproveitando por exemplo contentores de combustível), madeira, cortiça ou couro (por exemplo, sobras de sapateiro).

Também os fatos, caracterizados por serem preenchidos por fileiras de franjas de lã de ovelha, coloridos, tingidos artesanalmente, efeitos a partir de colchas “de casinha” (padrão típico transmontano) tecidas na aldeia, passam a ser feitos a partir de outros materiais (por exemplo, lãs sintéticas e colchas de padrão diverso, adquiridas na feira), em consequência da escassez e/ou desuso dos recursos tradicionais. No entanto, na feitura dos fatos mantém-se o desenho “original” conhecido, e a utilização de cores atualmente mais comum, é o amarelo, o verde e vermelho, remetendo às cores da bandeira nacional (a par destas podemos encontrar ainda o azul, o rosa ou o preto em alguns fatos mais antigos).

O fabrico de fatos e máscaras, ao longo do ano, é ainda uma prática que gera e fortalece relações de interajuda. Em particular, o fabrico do fato, mais trabalhoso do que a máscara, é habitualmente feito percorrendo várias “mãos”. O processo começa com a aquisição de colcha e lãs, passa pela feitura das franjas à mão ou em pequenos teares “de grade”, pelo corte e cozimento do fato (hoje feito por costureiras, fora da aldeia, após o desaparecimento da única alfaiataria que ali existia), e termina com o “enfranjar” à mão (cozimento das franjas no fato). Assim, até estar completo, o fato poderá incluir o trabalho de várias pessoas (dentro e fora da aldeia).

O impulso natural que este fabrico artesanal de fatos e máscaras recebe da realização anual da festa de Carnaval, é ainda muito importante para a dinamização local em torno da festa e a partilha de conhecimentos sobre esses “saberes fazer”. Os “produtores” das máscaras e das franjas ganharam com o tempo estatuto de artesãos e são assim vistos conjuntamente como os membros da comunidade transmissores de um conhecimento mais profundo sobre a festa e os elementos tradicionais associados a ela.

No entanto, em face da emigração da maioria da população e do envelhecimento da população residente, a esta mão-de-obra disponível na aldeia é associada mão-de-obra externa. A Associação do Grupo de Caretos de Podence tem assumido aqui um papel de mediador, e dando resposta a pedidos vindos da população descendente emigrada, tem contratado também a produção de fatos junto de outros artesãos da região (por exemplo, costureiras da zona de Miranda do Douro, que habitualmente produzem também outros trajes regionais).

Já a produção de máscaras, cujo processo é mais simples e pode ser trabalhado apenas por uma pessoa, continua a ser maioritariamente assegurada pelos artesãos na aldeia, que as fabricam quer para os caretos, quer também para venda durante a festa, a turistas e visitantes, como elemento representativo e simbólico da festa. O fabrico da máscara, por ser um elemento do traje mais simples e de produção mais personalizável, sugere também uma maior dinâmica relacional entre os mais velhos e os mais jovens; quer porque os mais jovens procuram reproduzir traços tradicionais associados aos trajes antigos procurando para isso o saber dos mais velhos (é este por exemplo, o caso de um jovem que recentemente recuperou a confeção de máscaras em couro, feitas anteriormente pelo avô); quer porque introduzindo pequenas distinções vão “modernizando” o design da máscara ou inovando mesmo as técnicas de produção (retomando o exemplo anterior, ao mesmo tempo que recupera o fabrico artesanal de máscaras em couro, introduz novidades, como o uso de tintas, com cores menos habituais como o verde o amarelo ou o preto, e a utilização de novas ferramentas).

O traje do careto é completado ainda por duas bandoleiras de campainhas que cruzam na parte frontal do tronco e das costas, e por um conjunto de 4 a 8 chocalhos que levam à cintura. São estes elementos, também de produção artesanal e que hoje vem sobretudo da região alentejana, que produzem a sonoridade associada aos caretos, pautada pela correria e pela sua ação de chocalhar. Isoladamente ou em grupo o careto produz uma certa e particular “musicalidade” que segue os ritmos da sua ação física, anunciando por exemplo, a sua chegada, ou a vivacidade com que chocalha as pessoas.

Por vezes serve também de apoio à atuação do careto uma bengala ou um pau de ponta arredondada e saliente, utilizado para elevar o corpo quando saltam, para aceder às varas de fumeiro e roubar alguma chouriça, ou simplesmente para “brincar” e fazer barulho.

As máscaras, fatos e chocalhos, e bengalas ou paus, são também elementos que passam de geração em geração, e que servem de empréstimo entre familiares, amigos e vizinhos, circulando normalmente entre várias casas da aldeia durante a festa e/ou de ano para ano.

A poucas semanas da festa, os preparativos intensificam-se, quer os que respeitam à sua dinâmica mais formal, por exemplo, impressão, distribuição e divulgação do cartaz da festa, quer dos seus aspetos mais informais, como o planeamento do regresso dos familiares ou o remendar de fatos e repintar de máscaras.

No sábado, o dia antes do início da festa, ultimam-se na aldeia os preparativos, concentrando-se toda a ação no recinto da escola primária onde é instalada a tenda para os concertos e refeições, e junto à Casa do Careto, onde são erguidos os “bonecos” que serão queimados e preparada a carroça de bois para o “pregão casamenteiro”. A festa antecipa-se nessa noite com a participação do Grupo de Caretos no desfile noturno de Carnaval em Macedo (iniciativa do município, que se realiza de alguns anos a esta parte), contando agora com a presença de muitos dos emigrantes que uns dias antes ou no próprio dia vão chegando.

Domingo-Gordo é já dia de festa, e enquanto os turistas e visitantes se passeiam pela aldeia e participam nalgumas atividades paralelas do programa, os habitantes desfrutam do convívio familiar e vicinal. Em muitas casas, como nos restaurantes locais, ao almoço de domingo servem-se pratos tradicionalmente associados ao período de Carnaval, sendo o mais comum, o cozido de carnes de porco e de fumeiro, acompanhado por couves, batatas, rábano, ou “casulas secas” (vagens de feijão seco).É depois de almoço que os caretos começam a sair de suas casas e a percorrer as ruas da aldeia, concentrando-se normalmente num grande grupo que vai atuando mais ou menos em conjunto. É junto à Casa do Careto e no recinto da escola primária, que se concentra a maioria da população e de turistas. Os caretos, vão aparecendo em grupo ou isoladamente e chocalhando as pessoas, pulando, soltando gritos e dançando ao som das bandas entretanto convidadas a animar a festa (cuja composição inclui normalmente tambores e gaitas de foles). O percurso, mais ou menos desordenado dos caretos faz-se então a partir daí, subindo a rua central da aldeia, até ao largo principal e estendendo-se um pouco por toda a aldeia durante a tarde e até à noite.

O grupo principal é constituído pelos homens e rapazes que vão ao longo das ruas correndo e chocalhando as mulheres, assustando os que as acompanham, com gritos e pulos intimidatórios e fazendo pausas, convidados que são a entrar nas casas e adegas para beber. Pelo povo e entre os visitantes, numa espécie de ação secundária, circulam em menor grupo as crianças “facanitos”, pares de raparigas vestidas de “careto” e alguns grupos de “matrafonas” ou “marafonas”. Estes personagens, encarnados por jovens raparigas e às vezes alguns rapazes da aldeia, vestem normalmente “roupas de velha” (vestuário feminino antigo e de corte tradicional associado à vida rural), usando um lenço na cabeça e cobrindo a cara com uma renda, encenam pequenos números para-teatrais promovendo efeitos de "carnavalização". Estão imunes às chocalhadas dos caretos, pelo que é comum que as raparigas da aldeia se vistam de “matrafonas” como forma de provocação, tornando-se assim num alvo inacessível. Servem por outro lado, quando encarnadas pelos rapazes, como um elemento de jogo gerador de riso, pela ridicularização proporcionada pela inversão de papéis de género, com a representação exagerada de algumas partes do corpo feminino e ainda pelo uso desordenado do vestuário feminil, como a lingerie e os saltos altos, por exemplo.

A festa prolonga-se pela tarde de domingo e até à noite, quando tem lugar uma refeição aberta a todos, a “Merenda à Transmontana” (composta por sopa, pão de trigo e carnes de porco assadas) a que se segue uma programação de animação musical e baile que inclui normalmente grupos de música popular e tradicional.

Segunda-feira, era um dia tradicionalmente de “pausa” na aldeia e, portanto, desde a elaboração dos primeiros cartazes da festa, era um dia com uma programação de atividades complementares mais “leve”. Mas dado o aumento da intensidade da festa no Domingo-Gordo, que por ser dia de fim-de-semana atrai muitos visitantes, o “pregão casamenteiro” habitualmente realizado domingo à noite passou a acontecer segunda-feira. Assim o programa da festa estende-se por três dias de Domingo a Terça-Feira, sem interrupções.

O “pregão” é organizado dias antes, por um grupo de homens e rapazes da aldeia que definem quem vão ser os casados e o que sobre eles irão dizer. No momento do pregão podem também surgir casamentos improvisados, sugeridos naquele momento, por um ou outro, por exemplo para incluir algum dos rapazes ou raparigas “de fora” que tenham vindo à festa, e não fossem esperados. O pregão começa com o desfile da uma carroça de bois levando um par de mascarados de noivos, puxada pelos homens e rapazes, desde a Casa do Careto até ao largo da igreja. O grupo de homens e rapazes anuncia os casamentos do alto das escadas da igreja e cá em baixo a população e os visitantes assistem.

O pregão é anunciado através de “embudes” (grandes funis), começando um dos homens por dizer: «Palhas, alhas leva-as o vento!» ao que o grupo responde: «Oh, oh, oh...» O homem continua anunciando e o grupo respondendo:
O homem: «Aqui se vai formar e ordenar um casamento»
O grupo: «Oh, oh, oh...»
«E quem é que nós havemos de casar?»
«Tu o dirás.»
«há de ser a …. filha de…. / que mora no bairro ….
«Oh, oh, oh…»
«E quem é que nós havemos de dar para marido?»
«Tu o dirás.»
«há de ser o …. filho de…./ que mora …..»
«Oh, oh, oh...»
«E o que nós havemos de dar de dote a ela?»
«Tu o dirás.»
«há de ser uma máquina de costura, porque ela é uma boa costureira.»
«E que é que nós havemos de dar de dote a ele?»
«Tu o dirás.»
«há de ser uma terra ao Souto, para que não saia um de cima do outro.»

Este guião, de texto relativamente fixo, tem também sido adaptado pelos mais jovens ao contexto atual, oferecendo-se como “dotes”, carros, Playstations e outras possibilidades modernas. Terminado o "pregão casamenteiro", a população regressa ao palco principal da festa, junto à Casa do Careto, onde continuam a decorrer as atividades do programa que terminará com a atuação dos grupos tradicionais de música e com a “queima” de um boneco que representa a figura do diabo e que antecipa a Queima do Entrudo da Terça-Feira de Carnaval.

O “pregão casamenteiro” é uma prática de sátira teatral comum em muitos carnavais rurais, e aqui, como que completa o jogo entre rapazes e raparigas da aldeia, iniciado pelo chocalhar dos caretos no dia anterior, ao mesmo tempo que gera um momento de desconstrução dos estatutos sociais, já que os “pregadores” aproveitam muitas vezes a oportunidade para destacar algum aspeto mais peculiar da personalidade dos casados, ou casando os pares contra os seus gostos, sobretudo das raparigas, expondo-os ao ridículo e gerando o riso coletivo.

Na terça-feira de Carnaval a festa decorre, com o ritual dos caretos e as atividades complementares, repetindo-se o que acontece no Domingo-Gordo. Neste dia, um dos novos momentos marcantes da festa é a “Queima do Entrudo”. A Queima tem sido vivida na aldeia com grande entusiasmo, reunindo nesse momento o maior conjunto de moradores e de caretos. Retratada com espetacularidade pelos meios de comunicação social, a terça-feira de Carnaval atrai também um grande número de visitantes. A associação em 2004 iniciou esta queima de um boneco que figurava o diabo; mas nos últimos dois carnavais (2014 e 2015) esta figura passou a ser queimada à segunda-feira após o "pregão casamenteiro" e na terça-feira foi substituída por uma recriação de um mascarado típico de Podence. Erguido com uma estrutura de ferro e feito de vários materiais (palha, cartão, giestas) o “Mega Careto”, impressiona pelo seu volume e altitude.

Assim, a festa encerra formalmente com a Queima do Entrudo ao final da tarde de terça-feira, antecipando por um lado o período de contenção quaresmal que tem início na quarta-feira de cinzas, e a partida dos familiares que regressaram para a festa. A partir desse momento, o grupo de caretos percorre indiferentemente, os cafés da aldeia, e casas de amigos e familiares, num ritual de visitação, convívio e comensalidade que se prolonga até à noite.

(1)"Careto" é a conversão de "careta" em palavra do género masculino, para designar o homem que usa máscara ("careta") no Entrudo ou Carnaval. A palavra "careta" é um diminutivo de "cara" que surge frequentemente no léxico popular associado às festas de mascarados do ciclo de inverno para designar a máscara.
(2)Também sucede ainda saírem à rua no Domingo Magro, quando nesse dia se realiza a feira mensal de Podence que ocorre no segundo domingo de cada mês. No passado era comum saírem durante todo o mês de janeiro aos domingos, percorrendo também as aldeias vizinhas.
(3)Inserindo-se num contexto mais alargado das festas europeias do período do solstício de inverno, Podence tem recebido visitas de vários historiadores, antropólogos, fotógrafos, e outros documentaristas estrangeiros.
(4)Para este fator contribuem também, por um lado, a situação geográfica favorável de Podence, que com acesso direto à autoestrada transmontana, se situa entre Macedo de Cavaleiros e Bragança, junto à Albufeira do Azibo, cuja praia fluvial é hoje destino de férias procurado por muitos turistas, e por outro o aparecimento de linhas de apoio financeiro para projetos de turismo habitacional no âmbito dos Quadros Comunitários de Apoio da União Europeia.
Manifestações associadas:
A festa de Carnaval de Podence inscreve-se num calendário festivo transmontano que coincide com o ciclo do inverno. Este conjunto complexo de festas é notado e descrito, no princípio do séc. XX, por José Manuel Alves, abade de Baçal, nas suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança: «Em muitas aldeias do concelho de Bragança, como Baçal, Sacoias, Aveleda, Varge, França e outras, os moços solteiros de dezasseis anos para cima, juntam-se no dia 26 de dezembro, festa de Santo Estêvão (em Baçal a reunião é a 6 de janeiro, festa dos Reis), chamam gaiteiro para os acompanhar na estúrdia; comem uma vitela comprada com o produto de trabalhos agrícolas, geralmente malhadas (debulha de centeio); percorrem a povoação mascarados e vestidos de fatos felpudos de variadas cores, em algazarra louca de gritaria ensurdecedora, soltando estrídulos hi, gu, gus» (Tomo IX). Mais adiante, o folclorista nota ainda: «A Festa dos rapazes em Baçal, Sacoias, Aveleda e Varge é semelhante nas suas modalidades e exibições, deixando perceber a mesma comunidade étnica e promanação histórica, denunciando nas suas origens primevas caráter mais antigo e acentuadamente pagão. Nos outros povoados parecem visionar-se apenas os ágapes do primeiro século com Santo Estêvão por distribuidor dos mantimentos; aqui puramente o gentilismo.» (Tomo IX). Comparando-as depois ao género de festas que acontecem no Canaval: «em geral, os festejos dos três dias em terras bragançanas são pelo teor da Festa dos Rapazes, atrás descritas, e correspondem às bacanais de março. Celebrizam-se por grandes comezainas, mascaradas e bailes. No Entrudo, come-se tudo, diz o rifão popular. A galhofa começa quinze dias antes, na Quinta-feira das comadres, oito dias depois é a Quinta-feira dos compadres, seguem-se o Domingo gordo, Segunda-feira gorda e Terça-feira de Entrudo, tudo dias perfeitamente pantagruélicos». Estas observações do Abade de Baçal revelam por um lado, uma preocupação em anotar as especificidades locais de cada festa ao mesmo tempo que cria “agrupamentos” tipológicos consoante a sua incidência no calendário e a sua relação com o calendário das celebrações religiosas, em particular as do Natal, e sugerem uma origem muito anterior à cristianização (e uma subsequente influência a partir da sua implementação), remetendo até para um contexto “selvático”, e ainda para os processos de “adaptação” a que estas festas terão estado sujeitas ao longo dos tempos. Efetivamente, este conjunto de festas que se estendiam por grande número de aldeias transmontanas e se realizam ainda hoje (muitas em pleno processo de revitalização) em algumas aldeias dos concelhos de Miranda do Douro, Vinhais, Bragança e Mogadouro recaem com maior incidência nos períodos do final e princípio do ano, concentrando-se sobretudo no chamado “ciclo dos doze dias” entre o Natal e o Ano Novo e depois no Carnaval, com a festa dos caretos de Podence, onde estes personagens mascaradas interferem. De forma mais abrangente, este conjunto de festas do nordeste transmontano, são ainda congéneres de festas realizadas nas regiões fronteiriças a norte de Portugal, particularmente da Galiza e ainda de outras regiões europeias onde também ocorrem manifestações similares (França, Suíça, Hungria, Áustria, Alemanha, por exemplo), partilhando algumas das suas características e personagens, detalhes relacionados com a indumentária, datas do calendário (carnavais e festas religiosas do período natalício), e os rituais ou performances que protagonizam. Em Portugal, desde que se realizam os primeiros registos conhecidos sobre estas festas, que coincidem em descrições de um contexto rural agrário do final do século XIX até meados do século XX, as aldeias transmontanas sofrem alterações profundas na sua sociodemografia que alteram radicalmente as condições em que as comunidades procuram e se posicionam no sentido de se organizarem para a realização das festas. É sobretudo a partir da década de 60 que se assiste a uma forte quebra do vigor de várias destas festas e muitas desaparecem. As migrações para o litoral do país em busca de melhores condições de trabalho, a “retirada” massiva dos jovens rapazes das aldeias, para a guerra colonial e depois nos grandes movimentos emigratórios que se conhecem naquele período, deixam as aldeias sem protagonistas para as festas. Nas décadas seguintes, em muitos lugares, as festas perdem importância e significado, e noutras localidades há um certo grau de “emblematização” e “revitalização” da festa que conduz à sua continuidade através de adaptações, nomeadamente alargando a participação a crianças, adultos e raparigas. Iniciando-se no final dos anos 70, um longo processo de dinamização, de expansão e reconhecimento da festa a nível nacional e até um percurso de internacionalização, e de ampliação e incentivo da participação na festa dos descendentes migrados e emigrados, o Carnaval dos Caretos de Podence é hoje um referencial identitário da cultura local fundamental para a comunidade. Neste processo de “sobrevivência”, a festa de Carnaval dos Caretos de Podence, é promovida ao longo de todos estes anos pelos locais, que nela reconhecem valor patrimonial, e uma vital função dinamizadora da localidade, de forma ímpar em todo o território transmontano, estimulando também a continuidade de festas de mascarados congéneres e mais amplamente da valorização de outras manifestações de património imaterial por parte dos seus detentores.
Contexto transmissão:
Estado de transmissão activo
Descrição: A realização da festa de Carnaval é assegurada atualmente pela Associação do Grupo de Caretos de Podence que assume a sua organização formal e pelos residentes e descendentes da aldeia de Podence que nela participam livremente. Os requisitos para participação na festa estão vinculados aos laços familiares e afetivos dos naturais e descendentes da aldeia.

Apesar de só se constituir como organização associativa em 2002, o Grupo de Caretos constitui-se informalmente no interior de outra associação em meados da década de 80 já com o objetivo de divulgar, impulsionar e garantir a realização anual da festa de Carnaval, que no final dos anos 70 corria riscos de desaparecer. Ao longo destas últimas três décadas a organização estruturada da festa estimulou também a participação dos locais, desde a confeção de fatos e máscaras, à colaboração na organização logística da festa e à integração de jovens caretos descendentes migrados e emigrados, e desse modo distantes daquela prática cultural festiva, proporcionando a sua transmissão inter-relacional contínua através do diálogo e da prática.

Tem contribuído também para a transmissão da manifestação a constituição de um espaço museológico, a Casa do Careto, que permite expor um conjunto de materiais que documentam a festa ao longo do tempo, promovendo assim um diálogo “interaudiências” (residentes, descendentes e visitantes) em torno dos contextos histórico-sociais que a festa foi atravessando.

O estudo e documentação da festa, a partir da década de 50, por investigadores das ciências sociais, historiadores e antropólogos, e, em particular, o registo fotográfico e audiovisual produzido nas últimas décadas, têm-se constituído como importantes acervos e fontes de transmissão da prática festiva. Estas fontes documentais permitem hoje, especialmente aos membros mais jovens da comunidade, revisitar um tempo passado, conduzindo por vezes a uma recuperação e readaptação daqueles modos mais “originais” ou mais antigos de fazer a festa, particularmente no que respeita ao comportamento do careto, e dos elementos que materialmente caracterizam a festa, a máscara e o fato. Constituem-se assim, por vezes, como argumento que permite atestar, no interior da comunidade a “tradicionalidade” associada a determinado aspeto que estivesse esquecido. Por outro lado, esse relacionamento dos participantes com estas fontes traduz a pretensão da comunidade de garantir a reprodução contínua da festa nos moldes que lhe sejam característicos sempre e quando o contexto atual o permite.
Data: 2015
Modo de transmissão oral
Idioma(s): Português
Agente(s) de transmissão: Todos os residentes e seus descendentes, detentores de conhecimento sobre a Festa de Carnaval dos Caretos de Podence, podem ser considerados como agentes transmissores da manifestação.
Origem / Historial:
A festa de carnaval que tem, hoje, lugar na aldeia de Podence, insere-se num ciclo de festas de inverno que acontecem um pouco por toda a região transmontana, e que são, segundo a literatura histórica, etnográfica e antropológica, de origem longínqua no tempo. De este conjunto de festas que ocorrem ao longo da raia nordestina, em várias aldeias dos concelhos de Miranda do Douro, Vinhais, Bragança e Mogadouro, recaem no calendário com maior incidência nos períodos do final e princípio do ano, concentrando-se sobretudo no chamado “ciclo dos doze dias” entre o Natal e o Ano Novo e depois no Carnaval. De resto, do pouco que se conhece sobre o passado histórico da festa de Carnaval dos Caretos de Podence dada a ausência de registos históricos e fontes documentais que reportem a períodos anteriores ao final do séc. XIX e princípios do século XX, o grau de parentesco dos caretos de Podence com outros personagens que habitualmente são protagonistas nas festas do final/princípio do ano, leva-nos a retomar a questão levantada por Benjamim Pereira (1973) de uma possível transferência do ritual no calendário festivo para o Carnaval.

De forma mais abrangente, este conjunto de festas do nordeste transmontano, são ainda congéneres de festas realizadas nas regiões fronteiriças a norte de Portugal, particularmente da Galiza e ainda de outras regiões europeias onde também ocorrem manifestações similares. Por exemplo, os “Narro” na (Alemanha), os “Roller” e os “Scheller” do Carnaval de Imst e os “Flinserl” mascarados do Carnaval de Bad Aussee (Austria), os “Buso” de Mohacs (Hungria), os “Mamutones” da Sardenha (Itália), os “Klauze” de Appenzell (Suiça), os “Kukeri” da Bulgária, os “ursos” e “cabras” da Roménia e da Polónia, ou os homens de palha da Eslováquia. De Espanha, “avizinham-se” a mascarados como os “Xinzo” de Limia ou os “Cigarrons” de Verín (Galiza), e do Carnaval de “Vijanera de Silió” (Cantábria), para nomear apenas alguns.

De facto, o uso das máscaras em diversas práticas rituais está presente um pouco por todo o mundo, como refere o renomado antropólogo francês Claude Levi-Strauss, dizendo que assumindo diversas funções e simbolismos, se estabelecem na sua utilização como formas intermediárias que representam uma relação entre extremos que nenhuma sociedade ignorou e que todas descrevem (1995). No Museu do Carnaval e da Máscara, em Binche, Bélgica, as festas europeias de inverno com máscaras são “desconectadas” da noção restritiva de Carnaval, no sentido da sua “forma lúdica” relativamente recente e específica das sociedades modernas da Europa (REVELARD: 1995). Distintas entre si, embora partilhando por vezes determinadas características, desde elementos materiais da indumentária, como por exemplo o uso muito frequente de chocalhos, a características performativas como o “ataque” (de algum modo) às mulheres como parte dos rituais, são coerentes na forma como se diferenciam dos carnavais urbanos de “desfile” e “paródia”, e se enquadram essencialmente em contextos rurais.

Numa conotação remota com o comportamento nas festas de inverno de povos antigos, diversos são os autores e investigadores que as reportam aos povos de origem indo-europeia e aos cultos agrários, que veiculavam a determinados rituais com máscaras funções mágicas e utilitárias que promoviam a fecundidade e a regeneração da natureza. «A máscara é o mediador por excelência entre a sociedade e a natureza» (LÉVI-STRAUSS: 1995). Assim, a possibilidade da existência pré-histórica de celebrações do novo ano/novo ciclo produtivo, com rituais próprios levam os autores a inscrever as celebrações de inverno com máscaras, como herança de um tempo em que as populações conheciam e celebravam os “ritmos” da natureza, viviam essencialmente da pastorícia e da agricultura, e alimentavam a crença de que um ritual de fartura e excessos promoveria um novo ano de abundância.

Por outro lado, e apesar de não existirem evidências históricas e documentais, numa tentativa de documentação da manifestação, que assume como principal argumento uma relação baseada nas datas em que recai a festa, associam-na também a celebrações antigamente realizadas ao período de Carnaval. Vários são os autores e também os promotores a relacionar a sua proveniência com festas de épocas pagãs, e festividades do período clássico e depois como resultantes de aculturações e sincretismos entre eventuais “culturas” dos povos autóctones da península e diversos ocupantes celtas e/ou romanos. Estas relações referem, por exemplo, os usos da máscara utilizada em rituais celebrados na Grécia Antiga, em louvor a deuses da fecundidade, remetem ainda para os celtas que também desenvolveriam esta cultura ritual, de louvor aos deuses da abundância, com recurso às máscaras, e que ocupariam na Península Ibérica a parte norte atlântica e ocidental, deixando as suas marcas, apesar da «força dinâmica do classicismo romano» que depois ocuparia este território, de que são exemplo a persistência de «certas manifestações religiosas e artísticas em aculturação com as propostas civilizacionais romanas», resultando, «daí um amplo sincretismo na convergência do céltico com o romano também no norte do território hoje português, numa continuidade incrementada mesmo no período da cristianização» (Maciel:2008:185). São ainda, frequentemente referidas, por associação, relações com festividades que ocorriam na ancestralidade romana, sobretudo aquelas que se realizam em torno do final do ciclo de inverno princípio do ciclo da primavera, celebrando a regeneração da natureza e o retomar da abundância produtiva. É sobretudo a estas festas em honra do deus Pan, deus dos rebanhos e pastores e a divindade mais importante do séquito de Dionísio (Baco na mitologia romana), que se atribuem as origens das festas de carnaval, pela relação com os banquetes fartos, e com os exageros e liberdades consentidos a todos os membros da comunidade nesse período festivo. Além do apelo à fecundidade, num momento de renovação da natureza com a aproximação da primavera, estas festas tinham também uma função de purificação e expurgação das pessoas e das comunidades e eram já habituais os «rituais de crítica social institucionalizada e a sua divulgação na praça pública» (TIZA: 2004:256).

Assim como outras festas do ciclo do inverno os rituais “profanos” que se aproximam hoje do carnaval, e que a igreja encontraria no processo de cristianização, foram muitas vezes combatidos e considerados pagãos. Mantendo-se pela força da significância que os povos reconheciam a estes rituais a maioria destas festas foi “cristianizada”, confluindo consoante a conveniência da igreja para as datas do calendário cristão e assumindo em muitos casos a celebração em honra de santos cristãos (Festas de Santo Estevão, Festas do Menino, por exemplo).

No caso, o Carnaval, ligado à Páscoa pela Quaresma, tem no calendário uma posição flutuante. Terá também sido por efeito da cristianização que estas celebrações ficaram conhecidas como Carnaval e Entrudo. Enquanto o significado etimológico da palavra Carnaval remete por um lado para o “adeus” à carne, sendo este significado de abstinência alimentar também aplicado à abstinência dos prazeres físicos, a que o período quaresmal que se lhe segue incita, remete por outro para uma justificação da licenciosidade e do exagero associado às comemorações do carnaval. Já a palavra Entrudo, remete para essa “porta” de entrada num novo ciclo, da vida espiritual cristã por um lado, e da natureza por outro, com a entrada na primavera.

Em Podence os personagens mascarados do Carnaval/Entrudo chamaram desde logo à atenção dos primeiros intentos de sistematização da etnografia portuguesa. Efetivamente, os primeiros registos documentais e a história oral permitem-nos retornar a um período em que a festa de Carnaval dos Caretos de Podence aparece num contexto sócio-económico profundamente centrado no ciclo agrícola. No início do século XX os caretos são brevemente referidos no quadro das festas de inverno pelo folclorista regional Abade de Baçal. Mais adiante, na década de 50, D. Sebastião Pessanha, museólogo, dando continuidade ao levantamento etnográfico das festas de mascarados transmontanos, iniciado por Santos Júnior e Martins Pereira, fala-nos em detalhe destas figuras, e refere já as particularidades da festa dos caretos de Podence que a tornam distinta das demais festas inseridas no ciclo de inverno em Trás-os-Montes:

«naquelas povoações de além Sabor, nem tudo é assim. O fato, muito mais rico, é composto por duas peças, casaco e calça, talhadas até de antiga colcha de “borboto” (…) ou então de pano liso e recamado de franjas de lã de várias cores. O casaco, abotoado na frente, tem um capuz que cobre inteiramente a cabeça e do qual pende, atrás, uma longa trança de lãs iguais às das franjas, a que dão o nome de “rabo”. Na cara, uma máscara de madeira, ou de lata, que nem sempre (…) tem a pretensão de representar o Diabo, não obstante assim se considerar o próprio mascarado. Desta maneira vestida e disfarçada, empunhando um pau, ou brandindo uma bexiga cheia de ar, esta personagem bizarra, que atemoriza as crianças e infunde respeito aos adultos, surge nas povoações, geralmente anunciada pela caixa de rufo, e tudo põe em completo alvoroço. Correrias desordenadas, saltos acrobáticos, cabriolas de todo o género, perseguições às raparigas mais incautas que teimam em vir à rua e que ele se as agarra, não deixa de abraçar ou, menos cortês, de tentar açoitá-las no sítio mais indicado – de tudo isto faz o “careto”, que mesmo em pleno campo, quando se dirige de uma para outra aldeia, não deixa de correr, de saltar, de chocalhar, de descarregar golpes tremendos com a sua moca, como se estivesse em luta com um inimigo invisível, tal como decerto praticava, há dezenas de séculos, uma figura semelhante, cuja missão se esfumou no rodar do tempo». (1960:21-22).

Esta descrição reporta-nos, a um interior rural onde uma muita limitada mecanização do trabalho agrícola e uma enorme dependência económica das profissões tradicionais revela um contexto social de organização socioeconómica que se estrutura em torno dos ciclos agrícolas. Nesse contexto a festa de Carnaval, como celebração do final do inverno (período rígido e pouco produtivo) que antecede a entrada na primavera, mantem uma forte associação ao mundo agropastoril. Permanecem as tecnologias de tecelagem de colchas utilizadas para construção de fatos de careto, a pastorícia e a utilização da lã de ovelha e o seu tingimento natural. Permanecem os costumes que submetem os rapazes jovens a “provas” incluídas no ritual festivo e que lhes permitirão integrar o grupo de adultos - como saltos de varandas, janelas, correrias, forçar a entrada em casas, longas caminhadas a pé. O ritual festivo requer, dos seus protagonistas, a passagem de provas de natureza física, e a demonstração de resistência, coragem, e “atrevimento”, estimulando a integração na comunidade, de grupo e o relacionamento ente os seus membros. Paralelamente a toda a ação do careto o objetivo e principal estimulo dos caretos que é a aproximação física às raparigas da aldeia, alimenta o mercado matrimonial interno.

Ainda na segunda metade do século, os “caretos” de Podence e as suas origens ancestrais são abordadas pelo poeta, dramaturgo e etnógrafo Azinhal Abelho. Nos anos 70, são objeto de pesquisas etnográficas de Ernesto Veiga e Benjamim Pereira, e em 1976 pela equipa cinematográfica de Noémia Delgado para o filme “Máscaras”.

Benjamim Pereira concluía assim a sua observação sobre o carnaval de Podence, na obra editada em 1973 “Máscaras Portuguesas”, onde ilustra grande parte do capítulo dedicado ao Carnaval com fotografias da festa dos caretos de Podence, dando-lhe indiscutível destaque no contexto das festas de Carnaval do país: «Em resumo, pois, do ciclo de Carnaval, entre nós, destacam-se os mascarados de Podence, nos quais, pela ação difusa da máscara e do traje – que aliás são perfeitamente idênticos aos dos mascarados transmontanos mais correntes da quadra do Natal (representando mesmo, possivelmente, a transferência de um anterior episódio, também ali natalício, para o Carnaval) – se opera, na imagem que deles se formou, uma transfiguração mágica, que consente as maiores loucuras e excentricidades, saltos de varandas e janelas para a rua, desafiando todos os riscos, protegidos e imunizados por essas forças obscuras que dimanam da máscara e do traje» (1973:134-136).

Transcorridos mais de trinta anos desde a edição daquela obra e das suas primeiras incursões no “território” das festas transmontanas com máscaras, Benjamim Pereira regressa (1999-2001) para organizar e coordenar a exposição “Rituais de inverno com Máscaras” do Museu Abade de Baçal em Bragança e o catálogo que a acompanhará, atualizando assim a sua descrição do ritual da festa dos caretos de Podence:
«Envergando vistosos fatos feitos de velhas colchas de fabrico caseiro, recamadas de franjas de lã colorida, com chocalhos pendentes da cintura, os mascarados aparecem no Domingo e Terça-Feira de Carnaval, percorrendo os caminhos da aldeia em correrias desordenadas, perseguindo as raparigas, sujeitando-as, quando conseguem agarrá-las, a sevícias mais ou menos atrevidas e a batidelas com os chocalhos, por meio de um golpe de rins, numa simulação do ato sexual. No Domingo à noite, do cimo da torre ou do adro da igreja “contratam casamentos” anunciando-os através de embudos. Esses casamentos exploram sempre os aspetos mais ridículos, incôngruos ou melindrosos da esfera amorosa das nomeadas, caricaturados através dos dotes desse noivado simbólico, feitos pelos rapazes à revelia das raparigas» (2006:34-35). Este ritual singular, que já esteve extinto da festa dos caretos de Podence, foi recuperado, em data incerta, e é uma das “formas fundamentais da vindicta popular em Portugal”, registada pelo etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira (1984).
Aquela observação de Benjamim Pereira em 2001 atesta a vitalidade de uma manifestação, que este autor tinha visto cair numa quase extinção nas décadas de 60 e 70, como reconta ao investigador Paulo Raposo (2010, p. 15-16): «As festas de inverno, na generalidade dos casos, acusavam um franco de¬clínio. Podence era uma das raras aldeias em que as cerimónias que envolviam mascarados mantinham uma certa vitalidade, sustentada sobretudo por um forte sentido de agressão erótica. As rapari¬gas eram objeto de fortes perseguições e, quando apanhadas, sujeitas a duras sevícias. Por isso estas refugiavam-se nas casas umas das outras, aparecen¬do nas janelas em jeito provocatório. Os homens intentavam atingir esse reduto e, a este propósito, o lendário nutria-se de histórias incríveis, com as¬saltos que provocavam quedas aparatosas sem con¬sequências desastrosas, graças ao estatuto singular que imunizava a personagem mascarada».

As imposições de um regime ditatorial, a retirada das aldeias, dos protagonistas da festa, os rapazes que partiam para a guerra colonial, a emigração massiva, provocada por uma alteração veloz das condições de vida no contexto rural, e ainda o decréscimo populacional, são as condicionantes que transformam os contextos da festa (não só a carnavalesca), nas aldeias do interior do país e que quase apaga por completo os caretos de Podence, no decurso das décadas de 60 e 70.

São estas alterações do contexto social e económico do território rural, onde estas festas tinham parte funcional, que fazem com que as populações percam o “sentido” da sua realização.

É neste contexto de mudança do “cenário” da festa dos caretos de Podence, que o filme de Noémia Delgado rodado em 1976, regista apenas três mascarados a saírem à rua naquele dia de terça-feira de carnaval. O filme teve assim, um importante impacto na comunidade local dando origem a uma revalorização da tradição.

É o antropólogo Paulo Raposo que observando os caretos de Podence (1999-2008), saírem do seu “habitat natural” para fazer “representações” da festa dos caretos além das fronteiras transmontanas, coloca questões sobre a revitalização da tradição e os seus contextos de mudança, permitindo-nos compreender o contexto atual da festa, particularmente com a edição em 2010 de Por detrás da máscara: Ensaio de Antropologia da Performance sobre os Caretos de Podence.

Diz o antropólogo que «As soluções utilizadas nas mascaradas são sempre soluções culturalmente enquadradas. E, portanto, a transformação dos seus contextos evoca necessariamente mudanças no contexto da festa. Novas condições económicas, sistema de valores em transformação, impõem contemporaneamente festas sujeitas a processos de folclorização, readaptações contextuais, refuncionalizações simbólicas e reinvenções culturais. E esse é, obviamente, o espectro que contextualiza também o carnaval de Podence» (2006:84).

Não existindo, portanto, aquele contexto arcaico e comunitário do mundo rural a festa transforma-se num evento cultural, que chama e atraí audiências – já não só locais. «Este novo enquadramento da festa decorre afinal de um recontextualização da ruralidade e da interioridade arcaizante com que a comunidade se pensa agora e com que se revê no passado» diz Raposo (2006:84). «Aos poucos a consciência de que esta nova autorrepresentação da identidade local, pensada através da festa, se poderia traduzir num ganho efetivo para a comunidade, tem levado, ironicamente, à cristalização da tradição numa espécie de produto de arte étnica. (…) a ironia é que a tradição preserva-se sobretudo enquanto comercializada e mercantilizada. O papel dos media, das instituições de turismo regional e local, operam inclusive uma mudança na representação social que a aldeia faz de si própria e das suas “tradições” – agora positivadas, porque arcaicas e seculares, e não já fruto de um atraso civilizacional» (2006:86-87) diz ainda Paulo Raposo, transmitindo-nos a ideia de que a “tradição” ou o “património” são assim a memória de um passado que se repensa e “reimagina” no presente – e «”reimaginar” reforça a ideia de que as identidades e as culturas não são imaginadas de uma vez por todas, mas que são constantemente recriadas» (2006:90).

É pois, na sequência destas transformações, e num contexto sócio-político pós-ditadura, e com o nascimento da uma associação cultural em 1985, a Associação de Melhoramentos, Festas e Feiras (de que mais tarde surgirá a Associação do Grupo de Caretos de Podence) que se assiste ao “reaparecimento” dos caretos, à recuperação de fatos e máscaras e à produção de novos. O grupo participa então numa enorme diversidade de eventos e festejos por todo o país e no estrangeiro, divulgando a festividade. Fatos e máscaras são hoje património móvel e imaterial associado a esta manifestação, revelando-se a tarefa artesanal de fazer fatos e máscaras um saber fazer promovido pelas sucessivas celebrações do carnaval.

A divulgação da festa é feita essencialmente pela Associação do Grupo de Caretos, ramificando-se pelas diversas formas de comunicação nas atuais plataformas digitais, num programa onde se inserem uma série de atividades paralelas destinadas a atrair um cada vez maior número de visitantes, em colaboração com uma série de entidades predominantemente locais incluindo a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros.

Hoje, a festa é participada por caretos de idade e estado civil “variado” e já não apenas pelos rapazes solteiros, havendo até participação dos mais pequenos, a que chamam “facanitos” e de raparigas envergando fatos de careto dos pais, tios ou irmãos. A participação das raparigas é relativamente tolerada e permitida pela também relativa espontaneidade da organização das saídas dos “caretos” pelas ruas da aldeia. O objeto principal das investidas chocalheiras dos caretos é também mais amplo, abrange tanto as mulheres solteiras como as casadas, residentes, turistas ou visitantes da aldeia. Os mascarados, não são apenas os residentes na aldeia, e sim os seus descendentes com ligações familiares e atuais à localidade, que habitando em localidades e cidades próximas ou ainda estando emigrados noutros países, regressam por altura da festa para participar no Carnaval. Os caretos saindo à rua, no Domingo Gordo e na Terça-Feira de Carnaval, chocalham, gritam e amedrontam, saltando e correndo desenfreadamente pelas ruas da aldeia, empoleiram-se ainda nas varandas e entram nalgumas casas da aldeia, onde muitas vezes são convidados a comer e beber, exibindo, no entanto, um comportamento mais moderado do que em décadas anteriores, e que se revela mais adequado ao cenário atual da festa, mantendo bem viva a manifestação.
Direitos associados:
TipoCircunstânciaDetentor
Direito ConsuetudinárioOs direitos coletivos relativos à Festa de Carnaval dos Caretos de Podence são de tipo consuetudinário, consistindo na definição do modo específico como se realiza o ritual festivo em Podence.São detentores dos direitos relativos à Festa de Carnaval dos Caretos de Podence a comunidade de residentes e descendentes da aldeia de Podence.
Responsável pela documentação:
Nome: Patrícia Alexandra Nunes Cordeiro sob a orientação científica do Dr. Paulo Jorge Pinto Raposo
Função: Patrícia Alexandra Nunes Cordeiro: socióloga (Edições Imaginarium, Macedo de Cavaleiros); Paulo Jorge Pinto Raposo antropólogo professor e investigador (ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa)
Data: 2015-05-29
Curriculum Vitae
Declaração de compromisso
Fundamentação do Processo:
 
     
     
   
     
     
     
 
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