Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2015_003
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Endoenças de Entre-os-Rios
  • Outras denominações: Procissão do Senhor dos Passos e Procissão do Encontro
  • Contexto tipológico: Endoenças designa a procissão que tem lugar na noite de quinta-feira santa, integrada no ciclo festivo pascal da igreja católica romana, em que se promove o arrependimento e penitência conjunta dos membros da comunidade, e também o pedido de indulgência, como preparação para a celebração da Páscoa.

    No lugar e na região envolvente, o termo endoenças abrange, na linguagem comum, o todo em que o evento se integra, incluindo por isso a sexta-feira santa, em que o percurso da procissão é simétrico ao de quinta, ou mesmo a generalidade das práticas da semana santa.
  • Contexto social:
    Comunidade(s): Habitantes e naturais de Entre-os-Rios.
    Grupo(s): A organização da procissão está a cargo de mordomos, no entanto, a preparação da festividade abrange diferentes grupos sociais e funcionais.
    Indivíduo(s): Mordomos, sacerdote(s) e serviços pastorais, fiéis/figurantes, músicos, penitentes, residentes e naturais em geral.
  • Contexto territorial:
    Local: Entre-os-Rios
    Distrito: Portugal
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Norte \ Tâmega
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: Anual
    Data(s): Festa móvel, com data fixada anualmente de acordo com o calendário eclesiástico romano, tratando-se da quinta-feira que precede o domingo de Páscoa.
  • Caracterização síntese:
    Quinta-feira de Endoenças, com a Procissão do Senhor dos Passos e sermão «do Encontro», é um dia festivo que pertence à vivência fortemente ritualizada da Semana Santa, integrada no ciclo primaveril dominado pela Páscoa. Complementa-a naturalmente a Sexta-feira da Paixão, em que nova procissão, do Senhor Morto, faz o percurso inverso ao da noite anterior, para regressar à matriz onde decorrerá a «aleluia», no sábado.

    A originalidade desta celebração pascal em Entre-os-Rios não reside porém nas cerimónias em si, semelhantes a outras da Semana Santa, muitas bem mais ricas e complexas, mas no facto de actualizar anualmente o profundo sentido de pertença a uma comunidade ribeirinha invulgar, que não coincide com freguesia ou paróquia, assente num território há oito séculos repartido por três margens de rios de difícil travessia (Tâmega e Douro), que dominaram o seu quotidiano, enquadramento territorial que constitui uma relíquia de divisões administrativas passadas, neste caso as terras do medievo couto de Santa Clara do Torrão.

    Por outro lado, a posição dos lugares e o itinerário sacro inscrevem-se em cenário natural ímpar, a desembocadura do Tâmega no Douro, que obrigava outrora à passagem da procissão em barcos e ainda hoje propicia a espectacularidade da iluminação da noite de Endoenças, em que se acendem milhares de lumes distribuídos pelas encostas até à borda da água. A população reforça os laços nestes dias de festa e regresso a Entre-os-Rios, vive-os intensamente no espaço público e no lar, entre as cerimónias religiosas em que participa, a família e a gastronomia tradicional, sempre com o rio presente.

  • Caracterização desenvolvida:
    Entre-os-Rios

    Entre-os-Rios situa-se na margem direita do rio Tâmega, junto à desembocadura no Douro, no cruzamento de caminhos inter-regionais. Fez-se burgo por iniciativa senhorial (foral de 1241) e cedo se especializou no transporte, comércio e serviços que a população da apinhada Rua podia prestar ali mesmo, ou em terras afastadas até onde os seus barcos lhes permitissem chegar. Arrais, marinheiros e pescadores, artífices, negociantes e comerciantes compunham o espectro desta sociedade, até ao século XX focada no rio, cais e feira, e antes também na cobrança dos direitos de passagem e portagem.

    Mas, mais importante para a construção da identidade pessoal e da comunidade é o facto de o Burgo desde a Idade Média ter feito parte da paróquia do Torrão, na outra margem do Tâmega, pelo que todas as pessoas aqui nascidas ficam integradas naquela comunidade, inscritas nos registos da igreja onde recebem os sacramentos e durante séculos foram enterradas. Quando o liberalismo transformou estas entidades em circunscrições administrativas civis, o lugar continuou na freguesia e concelho do Torrão, mais tarde anexado ao de Benviver, todos na margem esquerda do Tâmega. Malgrado a insistência da autarquia penafidelense, apenas com a criação do município do Marco de Canaveses (1852) e normalização dos limites se desvinculou administrativamente Entre-os-Rios dessa umbilical ligação, para o reunir à freguesia de Eja e município de Penafiel.

    Em contra-corrente, não ocorreu transferência paralela no domínio da divisão eclesiástica, permanecendo o Burgo integrado na paróquia do Torrão. Esta circunstância ajudou a alimentar a distinção que os moradores fazem do seu lugar, mais urbano e muito ligado ao rio, face à ruralidade da restante freguesia de Eja. Estamos perante como que um raro fóssil, testemunho ímpar da complexa e intrincada malha de divisões do território desenhadas a partir da Idade Média e cristalizadas durante o Antigo Regime, que o programa liberal pretendeu racionalizar. Esta situação singular potenciou o extraordinário enquadramento cénico com que deparamos em noite de Endoenças, quando milhares de lumes são acesos simultaneamente nas encostas das duas margens do Tâmega e na margem oposta do Douro, o núcleo das terras do medievo couto do Convento de Santa Clara do Torrão.

    Quaresma

    O ciclo quaresmal, porém, é bem mais longo, começando na Quarta-feira de Cinzas, imediata ao Carnaval, para terminar no Sábado de Aleluia, estando os eventos religiosos e de catarse social distribuídos por todo o período, com momento alto na noite de Quinta-feira Santa, em que se realiza a procissão do Senhor dos Passos ou do Encontro, com o respectivo sermão de penitência, e a Sexta-feira em que sai a do Enterro do Senhor, solenidades muito elaboradas pela piedade barroca e comuns no sul da Europa católico. Importa documentar a forma de viver estas práticas rituais ao longo dos últimos séculos para interpretar a festividade cíclica de hoje. Factualmente, a preparação destes eventos religiosos começa na visita pascal do ano anterior, quando os homens da comissão de festas que integram o compasso perguntam aos paroquianos - no Torrão, Rua e Jugueiros - se querem vir a ser mordomos da próxima celebração. Aos primeiros inscritos acrescem os que o fazem devido a promessa. Serão estes mordomos que vão dividir entre si a despesa, que se tornará menos pesada se o número for razoável. Sirva de exemplo o ano de 2012, em que se inscreveram mais de uma centena de mordomos do Torrão, outros tantos de Jugueiros e cerca de oitenta da Rua, mas muitas vezes ultrapassaram as três centenas.

    Quarta-feira ou Senhor Roubado

    Na quarta-feira, os mordomos e pagadores de promessa juntam-se, quer na capela de S. Tiago, quer na da igreja do Torrão (aqui os jovens) para carregar os andores com as imagens que irão tomar lugar na procissão, retiradas dos respectivos altares pela Comissão de Culto. Compete aos do Burgo aprontar, apenas sem as lanternas, os andores da Senhora das Dores e do Senhor dos Passos, e aos do Torrão o do Senhor Morto. Depois, por exigência dos itinerários que serão percorridos nos dois dias seguintes, é preciso nesta noite prévia mudá-los de margem, pois na quinta-feira a Senhora das Dores e o Senhor dos Passos sairão da igreja paroquial do Torrão, no fim da cerimónia litúrgica, enquanto o Senhor Morto partirá, na sexta-feira, da capela de S. Sebastião - o calvário - para regressar à igreja. A troca decorre já de noite e recebe a designação de Senhor Roubado. É feita com discrição, quase sem iluminação e sem ruído, com acompanhamento mínimo, passo acelerado e furtivo, como se de um roubo se tratasse de facto. Está prescrito que os dois grupos se cruzem a meio da ponte, como anteriormente faziam no meio do rio.

    Quinta-feira de Endoenças, procissão dos Passos e sermão do Encontro

    Quinta-feira Santa, ou de Endoenças, apesar de ainda ser, para muitos, dia de trabalho, é também a jornada de preparação para a cerimónia que decorrerá à noite. As casas são limpas e ornadas, assim como a via pública, em especial no itinerário a percorrer pelas procissões. Grupos de mulheres asseavam as cruzes da via-sacra que a família ou empresa tomava a cargo, cobrindo-as de flores, hoje substituídas por tristes bandas de tecido roxo. Instalam-se nas casas os suportes para a iluminação, tradicionalmente lume de cera, também por comodidade mudado para conjuntos de lâmpadas, por vezes montados em cruz. No ar anda o característico aroma que emana da cozedura do pão-de-ló e outros doces que não se dispensam nestes dias.

    Quando a vida do rio marcava o quotidiano da comunidade, também as embarcações deviam ser limpas e preparadas, fosse para receber a procissão que passava nos rabelos grandes, ou para a acompanhar em cortejo e ficar junto do cais, envolvidos no sagrado. Nos dias anteriores era importante obter uma boa pescaria, para não faltar o sável e a lampreia neste tempo de abstinência. A lampreia era ainda prato obrigatório no Domingo de Páscoa, ao lado do anho assado com arroz de forno.

    Os paroquianos juntam-se na sua igreja matriz do Torrão após o jantar/ceia, para participar no primeiro ofício do Tríduo. O momento de encanto acontece então cá fora, quando na noite se acendem milhares de lumes tremeluzentes que desenham as duas vertentes do Tâmega e a margem sul do Douro, e iluminam as fachadas das habitações, os muros dos quintais, bem como os barcos numa lenta deriva pelo rio. Contributo de todos os habitantes, tradicionalmente responsáveis por iluminar o caminho sempre que o sagrado saísse à rua, esta prática ganhou nas Endoenças uma espectacularidade ímpar pela área envolvida em redor do encontro dos rios, as terras do antigo couto. Documenta-se, pelo menos no século XX, como esta característica foi potenciada pelas forças vivas e autoridades locais, tornando-se mais-valia para promover o evento junto de um público diversificado.

    Terminada a celebração litúrgica, os intervenientes dirigem-se aos responsáveis, é a azáfama de fazer cada qual envergar o trajo e insígnias da personagem (figuras litúrgicas) que irá encarnar, momento de excitação e turbulência para as muitas crianças em idade de catequese que é preciso organizar para que o préstito esteja pronto a seguir, encabeçado pela fanfarra dos Bombeiros de Entre-os-Rios, que abre a procissão e marca a cadência fúnebre adequada. Passam as figuras e em posição recuada elevam-se os andores - do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores - sobre os ombros dos mordomos, seguidos pelos penitentes e devotos com promessas para cumprir, lume na mão, alguns descalços, muitas crianças pelo seu pé ou ao colo, mesmo vestidas de anjo. Finda o préstito a banda de música contratada, habitualmente a de Rio de Moinhos ou de Lagares (ambas do município de Penafiel), seguida por aqueles que se querem juntar à procissão.

    A multidão que desceu a Entre-os-Rios só para assistir, de preferência a tempo de começar por comer um lauto jantar de sável e lampreia, distribui-se pelo itinerário entre a igreja do Torrão e o largo da feira, no Burgo, e vai abrindo alas para a procissão. O silêncio impera quando se aproximam os andores, até os feirantes desligam as intrusivas músicas e iluminações das suas tendas e rulotes.

    Desde os anos quarenta do século XX que o primeiro troço do itinerário se faz passando o Tâmega na ponte Duarte Pacheco e não como antes da sua construção, quando se cruzava em barcos, do cais do Torrão para o da Rua, travessia por vezes difícil nesta época do ano em que a corrente é ainda forte. Para maior segurança dos rabelos carregados com os andores e participantes, lançava-se mesmo um arame de apoio à travessia.

    No modelo actual, a procissão forma-se no adro da igreja e ao seu redor, para de seguida subir o caminho até entroncar na estrada (N108), percorrer a ponte sobre o Tâmega e entrar na margem direita pela estrada/rua (rua Principal) que se dirige à ponte do Douro. Ao chegar ao entroncamento da rua da Castanheira, inflecte para dentro da povoação e continua pela rua de Santo António, até ao largo. Aí divide-se em dois braços: o que acompanha o andor de Nossa Senhora fica no largo da feira (Largo Gaspar Baltar), junto da cruz da via-sacra; o que leva o andor de Cristo, com percurso mais longo, por junto do rio (Av. dr. Carvalho Mendes) até ao largo do Pelourinho, onde antes aportavam os barcos, sobe a rua da Fonte da Nogueira e desce a de S. Tiago, para ficar parado na desembocadura desta junto do mesmo largo da feira, onde chega anunciado pela música fúnebre executada pela banda, com as autoridades e os padres.

    Com magnífico enquadramento deste rossio voltado ao rio, habitualmente apinhado de gente, tem lugar a celebração religiosa, que inclui o sermão dito do Encontro, feito por um padre-pregador instalado em púlpito improvisado, ladeado pelo pároco, representantes políticos e convidados de distinção. Nos anos de menor investimento é o próprio pároco que se encarrega desta pregação, em que não se torna difícil fazer subir a emoção. Termina no clímax do Encontro da mãe com o filho moribundo, o andor do Senhor dos Passos entra finalmente na praça, ficam frente a frente e são inclinados para diante para o Beijo, como se a Senhora osculasse Cristo na despedida.

    Novamente reunida, toda a procissão segue pela velha estrada de Arrifana. Sai do Burgo perto da capela de Santo António e sobe a Rua Nova no sentido da capela de S. Sebastião, acompanhando a via-sacra até ao calvário aí estabelecido. O andor de Nossa Senhora aqui permanecerá para o dia seguinte, o do Senhor dos Passos regressa discretamente a casa, a capela S. Tiago.

    É meia-noite passada, fim da jornada e hora de dispersar para os participantes e observadores mais resistentes, já que a maioria não se dá ao trabalho de fazer esta última e longa subida, parte a seguir ao sermão. Os da terra que seguem a norma sobem ao Calvário, e também eles regressam a casa, onde têm a aguardá-los, segundo a tradição, uma pequena merenda de pão da Rua e «café», porque a janta foi há muito.

    Sexta-feira Santa - Procissão do Enterro do Senhor

    Na Sexta-feira Santa, a acção regressa à rua depois do almoço. As pessoas reúnem-se em S. Sebastião para dar início à procissão do Senhor Morto, que incorpora o ataúde com Cristo e o andor de Nossa Senhora das Dores, além de muitas das figuras da noite anterior, os penitentes e cumpridores de promessas, rematando com o(s) sacerdote(s) que segue(m) sob o palio e o público acompanhante, bastante menos. Silenciosa e fúnebre, percorre itinerário inverso, pelo caminho que o andor do Senhor dos Passos fizera na noite anterior, até ao largo do Pelourinho onde embarcaria, mas agora segue junto ao rio para retomar a estrada, passar a ponte e descer para a igreja paroquial.

    Está consumado o Enterro, sábado será de Aleluia, celebrada à noite na igreja paroquial, e domingo a Rua volta a animar-se para mais uma celebração Pascal: a visita do compasso, agora organizado em duas cruzes que saem de S. Tiago; a entrega dos folares (amêndoas e pão-de-ló); o convívio dos filhos da terra na diáspora que regressam a casa nesta ocasião festiva de reencontro, alimentado por uma boa mesa onde não faltará a lampreia, o anho assado com arroz de forno e o melhor pão-de-ló, que em tão grande quantidade as doceiras da Rua começaram a cozer dias antes.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: Embora se trate de uma festa religiosa católica, a participação e motivação geral para a manter ultrapassa o grupo dos crentes com prática regular. A comunidade sente-a como o evento anual em que se revê e cada membro pode posicionar-se de diferente forma em edições sucessivas, desde o mais empenhado papel de mordomo ou pagador de promessa, ao de penitente ou acompanhante da procissão, e ainda como espectador/participante.

    No entanto, o núcleo central dos mordomos tende a permanecer apesar do envelhecimento, envergam as opas e tomam as varas, procurando transmitir a prática a novos aderentes, homens mais jovens como os que carregam os andores. Empenham-se também regularmente em outras realizações e tarefas da paróquia, sendo este o caso particular dos elementos, de ambos os sexos, que a partir da igreja matriz do Torrão carregam o ataúde do Senhor Morto na noite de quarta-feira em que se trocam as imagens - Senhor Roubado.

    Em contrapartida, a valorização da pertença e actividade das confrarias, assim como o papel da Ordem Terceira de S. Francisco nas cerimónias quaresmais estão cada vez mais reduzidos ou mesmo já extintos.

    Circunstância privilegiada para a transmissão aos mais jovens será o período em que estes se transformam em catecúmenos, sendo deste grupo que saem grande parte dos figurantes, que encarnam personagens bíblicas e históricas e aqueles que com eles interagiram, empunhando também tarjas com mensagens catequizantes preparadas pelos responsáveis pelo ensino da doutrina e superiormente aprovadas pelo pároco. A idade de formação e a quase universalidade desta aprendizagem, outrora imperativa, deixará, por certo, marcas duradouras. A disponibilidade económica, o gosto pela aparição em público (ou cultura do espectáculo) e a valorização social da criança/jovem têm levado a um significativo aumento de presenças, mais assinalável se ponderado com a diminuição da natalidade. Aos olhos dos mais velhos (>60 anos) esta mudança é evidente, no seu tempo de criança não havia «armador» que levasse tantos fatos e adereços, nem as famílias se reviam nesta participação como prestigiante.

    O empenho logístico das autoridades civis e a sua presença nas cerimónias, em especial na procissão de Endoenças, contribuem para a transmissão da tradição por ampliar o impacto e divulgação, com ressonância nos meios de comunicação social, alertando os residentes e naturais migrantes para este valor que, por o assimilarem desde a nascença, nem sempre é reconhecido. Daqui podem resultar novos agentes activos (ou reactivados) de perpetuação da festa dentro da comunidade, mas também fortes riscos de manipulação para fins mediáticos ou outros.


    Data: 2015-01-29
    Modo de transmissão oral e escrita
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Mordomos e outros agentes ligados ao culto religioso e ao poder autárquico; habitantes e naturais de Entre-os-Rios.
  • Origem / Historial:
    O ciclo quaresmal começa cada ano na Quarta-feira de Cinzas, imediata ao carnaval, para terminar no Sábado de Aleluia, estando os eventos religiosos e de catarse social distribuídos por todo o período. Importa-nos ter em mente este calendário alargado de celebrações litúrgicas e piedade popular porque, em diferentes tempos e localidades, as comunidades emprestaram mais ênfase a momentos diversos. O mesmo teria sucedido em Entre-os-Rios e respectiva sede paroquial do Torrão. Para já, as notícias reunidas para reconstituir a diacronia desta celebração são poucas, mas passíveis de encadeamento até chegar às Endoenças de hoje.

    Para além da igreja matriz da paróquia do Torrão, situada na margem esquerda do Tâmega, não muito afastada do rio, existiam no Burgo, pelo menos desde a Idade Média/ início da Época Moderna, duas capelas, a de S. Tiago, na Rua e com culto regular, e a de S. Sebastião, fora do aglomerado. Porém, as principais cerimónias da quaresma, bem como o domingo de Páscoa, teriam sempre de ter a matriz como fulcro.

    A confraria do Santíssimo Sacramento e as cerimónias pascais na Época Moderna

    Caberia pois à Confraria do Santíssimo Sacramento do Torrão, instituída a 28 de Agosto de 1554 por bula de Júlio III, tomar a iniciativa de organizar esta celebração, como de facto faria no final de seiscentos, uma vez que está prevista nos estatutos revistos em 1701 por ordem do visitador que ali se deslocara no ano anterior (PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-C/114/00513).

    No capítulo 4 ponto 5º diz-se: «para que o zello desta confraria cresça e vá sempre a maior augmento no culto divino para que assim seja Deos mais decentemente servido e louvado e ingrandecido queremos que se fação as enduenças sempre com muzica e se arme a igreja com papeis como athe aqui se costuma e milhor puder ser e se não diminuaria aos sermões do anno na forma costumada o que tudo se entende chegando os rendimentos da confraria e ajudas em termos que o culto divino feito na forma pretendida em nada fique diminuido» (fl.10v.).

    E especifica-se no capítulo 11 Dos officios da Semana Santa, ponto 1º «Ordenamos que querendo os mordomos cellebrarem os officios da semana santa preparem para isso o sepulchro muito bem adornado com a perfeição que se deve para trono em que Deos sacramentado ha-de estar patente aos olhos humanos como tambem para o descendimento que se faz na dita igreja hum anno outro não, no qual sepulchro se porão ao menos sessenta vellas de cera fina ardendo continuamente emquanto estiver o Senhor exposto e quatro tochas no planno da capella e no anno que houver descendimento não o fara sem muzica para mais descencia e servisso de Deos e para que seja sempre venerado e servido descentemente se farão estes officios com toda a solennidade que tão piedozo acto pede assistindo nelle sette ou oito padres quando não podem sêr mais a cada hum se dara a esmola costumada e da assistencia da quarta feira e sexta e querendo-se fazer officio no sabbado santo lhes darão a sua esmolla» (fl. 14v-15). Daqui podemos deduzir que tanto a significação do enterro, repetido todos os anos, como o descimento da cruz, de frequência bienal ou inferior, teriam lugar na própria igreja, com toda a solenidade e no contexto da liturgia da Semana Santa seiscentista, sem envolver procissão no exterior.

    Na quinta-feira, depois da missa, o Santíssimo deixava o sacrário e ficava exposto aos fiéis numa capela armada, sendo esta uma construção de arquitectura efémera, erguida para a circunstância, certamente bastante dispendiosa tal a prudência que se recomendava aos mordomos. A reserva eucarística - Deus sacramentado - simbolizaria o depósito de Cristo no túmulo, daí a designação de sepulcro (RODRIGUEZ 2009: 9-17). Monumentos deste tipo, próprios da Semana Santa, foram também comuns em Espanha e Sul de França, estando actualmente em forte risco de perda total, por se terem tornado obsoletos há décadas. Um programa internacional de estudo e restauro procura promover a sua recuperação (ALBERT & al. 2009).

    O descimento acrescentava o esforço económico ao evento, condicionando o ritmo da sua montagem, no mínimo bienal. Não seria, por isso, um simples painel ou tela que se exporia aos olhares, mas algo que implicasse trabalho e gastos. Nestes dias exigia-se ainda a participação de vários padres e de executantes musicais, a quem era preciso pagar, alojar e alimentar, verbas a que acrescia o custo da cera.

    As cerimónias mencionadas, destinadas a catequizar pela emoção e envolvimento colectivo de grande teatralidade, decorreriam de quarta a sexta-feira, podendo prolongar-se para sábado, neste caso fazendo a passagem do dramático tempo de trevas, do silêncio e som das matracas, dos sermões de penitência, para o renascer da alegria, o destapar dos altares, o toque dos sinos e campainhas e o acender dos lumes, alacridade apotropaica consonante com a primavera ou pascoa das flores.

    As celebrações quaresmais na capela de S. Tiago e a via-sacra

    Em meados do século XVIII, a capela de S. Tiago do Burgo guardava permanentemente o Santíssimo Sacramento e nela havia sido instituída a Irmandade dos Santos Passos, a das Almas e a Ordem Terceira de S. Francisco, nenhuma parecendo muito anterior à viragem do século. Infelizmente, não dispomos dos estatutos da Irmandade dos Passos, certamente com objectivos penitenciais, mas apenas temos a referência feita pelo pároco de 1758 a que esta organizaria procissão, com todo asseio, no quarto domingo da quaresma (CAPELA 2009: 412). Como as da Semana Santa, também estas procissões quaresmais que a precediam e preparavam se tornaram alvo das campanhas de missionação e comuns à piedade barroca.

    Para potenciar a sua realização, em quase todas as paróquias foi construída uma via sacra, com capelas/retábulo ou simples cruzes, que partia da igreja e percorria os caminhos para depois se dirigir a um local de preferência elevado e ermo onde ficaria o calvário. A via-sacra de Entre-os-Rios seria um caso menos vulgar, já que não parte da igreja paroquial, mas de uma capela substituta, com Santíssimo e missa regular, a de S. Tiago, onde estava a irmandade dos Passos. A primeira estação fica junto da capela, marcada pelo cruzeiro, seguindo o percurso ao longo da rua e estrada para culminar no calvário, as três cruzes colocadas junto da capela de S. Sebastião, num ponto alto, fora do lugar.

    Excepto o velho cruzeiro frente à capela, já mencionado em documento de 1610, e o que a remata em S. Sebastião (transferido para o cemitério), as demais cruzes são todas muito idênticas, parecendo a via-sacra construída de uma só vez, segundo um programa unitário, não como acontece em outras freguesias, onde a variada qualidade de execução das cruzes e o texto de algumas inscrições dos pedestais apontam para alguma autonomia dos elementos, por vezes erguidos por voto ou benemerência de determinado particular. Neste caso, não há epígrafes que ajudem a datar a construção da via sacra, que talvez possa datar de final de seiscentos ou início do século seguinte, por forma a que em 1758 fosse vista sem novidade. A datação prístina deste caso torna-se mais credível devido à dependência desta capela em relação ao convento franciscano, já que a ordem, através das suas missões, privilegiou este culto.

    Nos estatutos da ordem terceira de S. Francisco, instituída na mesma capela de S. Tiago do Burgo, prevê-se, no capítulo 5, «Que todos os annos se faça procissão de cinza. Queremos que todos os annos, na primeira dominga da quaresma se faça procissão de penitencia, como até agora se fazia com sermão que fará nosso padre comissario ou seu delegado; no fim da dita procissão, a cujo acto ordenamos que todo irmão assista, trazendo para isso uma vella branca que leve na mão quando andar na procissão de que tomará conta o irmão secretário, e dos que faltarem fará rol para serem condemnados a arbitrio da Meza. E os irmãos zeladores de todas as partes não faltarão este dia a acto tão solemne, e dado o caso que faltem sem urgente causa e impedimento, havemos por penitenciado cada um em cento e vinte reis para cera da Ordem. E porque a fabrica e composição dos andores dá muito trabalho aos irmãos moradores nesta freguesia e é bem que todos sejam irmãos no trabalho assim como são iguaes no demais, havemos por bem que tambem os irmãos de fóra lhes sejam lançados andores para que tragam homens que os levem na procissão quando lhe couber a sorte. E o que nisto faltar, sendo-lhe lançado em Meza será penitenciado pela dita Meza como parecer justo» (PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-C/114/00855).

    Realizada logo no início da quaresma e com presença obrigatória dos irmãos, a procissão teria um percurso exterior, que não se especifica, e levaria andores, também não identificados. Podem certamente associar-se-lhe as imagens do Senhor dos Passos, da Senhora das Dores e do Senhor Amarrado à Coluna existentes na capela e que ainda aí não estariam quando se realizou o tombo de 1678. Nada nos leva a crer, porém, que o itinerário deixasse a margem direita do Tâmega para passar à esquerda, sede da paróquia, onde não há qualquer cruz/estação de via-sacra.

    Curioso é o conjunto de cabeças, mãos e pés, para montar figuras, hoje em grande parte desaparecidas, datáveis da transição do séc. XIX/XX. Integrariam as celebrações quaresmais dos Terceiros, à semelhança das que se faziam em Mafra ou Ovar, e incluíam a figuração do Papa, de S. Francisco, Santa Clara, Santa Catarina, S. Luís e outros. Para proteger este espólio das tentações infantis, o baú em que se guardavam era identificado às crianças da comunidade como a «caixa das aranhas», que não poderiam abrir sem ficarem sujeitas a um ataque dos aracnídeos.

    As Endoenças na Época Contemporânea

    A procissão noticiada desde início do século XX, datável talvez ainda da centúria anterior, junta aos aspectos litúrgicos e de piedade popular um novo sentido de promoção do espectáculo para um público, na maioria crente mas não necessariamente empenhado naquele acto religioso. Sintomática deste novo entendimento é a notícia publicada no jornal O Penafidelense, de 20 de Março de 1910, portanto anterior à implantação da República. O correspondente em Entre-os-Rios, anuncia que «a solemnidade das Endoenças que se realisa na proxima quinta-feira, nésta povoação e que pela sua originalidade costuma attrahir aqui grande concurso de pessoas, dos diversos concelhos do districto, revestirá, este anno, desusado lusimento tanto na parte religiosa como na profana. São dignos dos maiores encomios os promotores.... Na quinta-feira, ao cahir da noite, e findo o officio de Trevas, organisar-se-ha a procissão.... devendo ser a sua passagem, no rio Tamega, em barcos, profusamente illuminados, bem como a vista dos predios das duas margens d'este rio e ainda dos da margem do rio Douro, d'um effeito feerico, deslumbrante, pois este anno, não só os illustres promotores d'esta solemnidade como tambem os moradores das duas povoações envidaram todos os esforços para lhe imprimir a maxima imponencia».

    Conseguiram certamente o objectivo, um maior número de pessoas para gozar o soberbo espectáculo, já que na comissão estava o escol das famílias da terra, quase todas com membros no clero: dr. António Bernardo da Silva, cónego da Sé do Porto; cónego Alberto Barroso; padre António Martins d' Almeida, reputado orador sagrado; padre Luís Moreira, director do internato dos Carvalhos (V. N. Gaia); padre José Vieira Borges, antigo pároco da freguesia; padre Manuel Alves da Rocha e padre José Alves da Rocha, pároco de Eja e Entre-os-Rios (S. Miguel). Não lhes seria difícil iluminar as muitas casas que possuíam e induzir os vizinhos, caseiros e arrendatários a fazer o mesmo. A empresa de transportes de Pinto Lopes facilitava as deslocações, disponibilizando carreiras especiais desde Penafiel. Afinal, eram as mesmas forças vivas que tinham promovido os melhoramentos materiais, criado as associações e dinamizado a actividade económica local, e que no ocaso deste ciclo de crescimento se vão unir na Associação de Defesa e Progresso de Entre-os-Rios.

    José Júlio Mota Barbosa, poeta e autor de um guia de turismo publicado em 1942, temporariamente residente em Entre-os-Rios, viu assim a procissão antes da construção da ponte:

    «Falando de Entre-os-Rios, é forçoso fazer uma referência à tradicional Procissão dos Passos que aqui se realiza em quinta-feira Santa; é muito original e talvez sem outra semelhante, pelo menos no Norte do País. A procissão, que sai da igreja paroquial de Santa Clara do Torrão, do concelho do Marco de Canaveses ... atravessa o rio Tâmega, mesmo na sua foz, em barcos, trazendo as irmandades, penitentes, «anjinhos», figuras e ainda os andores do Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores, pendões, pálio e tudo mais que compõe o préstito religioso. Esta procissão é de noite; e como os barcos vêm com luzes e todos os que a acompanham, mais ou menos iluminados, o efeito é maravilhoso, tanto mais que a procissão leva uma hora ou perto, a atravessar o rio! Juntemos que no Torrão, em Além Douro e em Entre-os-Rios, isto é, em ambas as margens do Douro e do Tâmega, tôdas as casas, e algumas bem distantes do rio, iluminam mais ou menos suas fachadas e janelas. É noite de grande concorrência; e é também velho costume comer neste dia arroz de lampreia e sável assado...» (BARBOSA 1942: 54).

    Na monografia dedicada ao município de Marco de Canaveses, de 1947, também Vieira de Aquiar recorda o fascínio exercido por esta procissão: «Antes de existir a ponte, era simplesmente maravilhoso presencear a sua travessia no ponto de confluência daquele rio [Tâmega] com o Douro, em virtude de se realizar ao cair da noite, com milhares de lumes e dezenas de barcos que povoavam os dois rios» (p. 319).

    Aliás, nesse município, que em 1852 integrou várias circunscrições administrativas anteriores, a solidariedade vicinal antiga prevaleceu não só nas Endoenças de Entre-os-Rios. O exemplo que se segue é idêntico, dizendo respeito a duas freguesias a montante no Tâmega - S. Nicolau (margem esquerda) e Santa Maria de Sobretâmega (margem direita) - que faziam parte do anterior concelho Canaveses. José Augusto Vieira reportou ainda no século XIX, que «porque não se quebram assim relações de seculos entre boas visinbhas, e não ha festa em Canavezes que Santa Maria não considere como sua ou vice-versa. Ainda ha pouco ... era d'isto prova a celebre procissão dos Passos, que á noite sahia de Canavezes para Santa Maria de Sobre Tâmega, d'onde voltava só no dia seguinte, procissão muito notavel por causa do grande numero de penitentes que se davam o barbaro prazer de irem vergastando o corpo com disciplinas, e de levarem espadas atravessadas na bocca para d'este modo punirem naturalmente os pecados da palavra, que haviam commetido durante o anno» (VIEIRA 1887:481-482).

    Nas freguesias ribeirinhas do Douro realizavam-se igualmente procissões que envolviam a vida fluvial, como a que ocorria em Sande, onde o préstito, com andores e muitos devotos, descia da igreja para oeste, a par do ribeiro até ao Douro, aí embarcava em rabelos e subia o rio para aportar ao cais de Vimieiro, prosseguindo o itinerário de volta à igreja, agora por nascente. Também quando na Páscoa o compasso descia ao cais de Vimieiro, deparava com os rabelos ancorados lado a lado, formando uma passagem por onde atravessava entrando assim em todas as embarcações, que cada família de arrais engalanava como se fosse a sua casa (SILVA e outros 1996: 31) Na festa de Nossa Senhora da Estrela, de Boassas (Oliveira,Cinfães), a imagem, saída em procissão da capela de Ermida com seus devotos, fazia o percurso até Porto Antigo em barcos rabelos enfeitados. Chegados a este importante porto fluvial, realizava-se a benção das embarcações e marinheiros (PINTO 2008: 46).

    Em outras freguesias do município penafidelense fazem-se interessantes procissões quaresmais, sendo de salientar a procissão dos Passos de Lagares e as procissões da Semana Santa da cidade. Quase todas as paróquias têm via-sacra para suportar a sua realização, excepcionalmente em Lagares existem três em diferentes lugares, sendo as datações mais antigas para este património do séc. XVIII. Na cidade as estações ou passos tomaram por vezes a forma de pequenas capelas autónomas, outras estavam adoçadas a igrejas e havia ainda as que era armadas para a ocasião (SOEIRO 1994:70-71).

    Ainda que as mundividências do século XXI sejam outras, Entre-os-Rios continua a pertencer à paróquia da outra margem, não havendo mesmo culto na capela de S. Tiago, que muitas vezes supria as práticas cultuais regulares, evitando as dificuldades da travessia. Por isso, é ao Torrão que os infantes vão para receber o baptismo, como irão eventualmente para casar. Finados, o lugar pode recebê-los no cemitério próprio, junto da capela de S. Sebastião, onde fica localizado o calvário das Endoenças.

    O itinerário destes préstitos religiosos, que exclui a restante freguesia de Eja, é igualmente um mapa deste pulsar sistémico. Une apenas a área ribeirinha do Torrão, onde se ergue a matriz e outrora o convento, às velhas ruas do burgo, que percorre na sua maior extensão, «de lo Castineiro da fooz do Tamega usque ad finem vel ciman de lugaris» como dizia a carta de povoamento que Teresa Rodrigues de Barbosa concedeu em 1241 à gente estabelecida na Rua da Ribeira de Antrambos Rios (SOEIRO 2013: 18-20).

    Esta identidade que diferencia é de tal forma sugestiva que vários canais televisivos nacionais já aqui vieram realizar reportagens, particularmente quando surgiu a ideia de candidatar esta manifestação ao Guiness pelo número de candeias acesas em simultâneo.
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Direito consuetudinário e direito canónico Direito colectivo da comunidade, de carácter consuetudinário e direito canónico relativo às componentes do culto católico romano. Comunidade de residentes no burgo de Entre-os-Rios, área ribeirinha do Torrão, lugares de Jugueiros e Boure, paroquianos de Santa Clara do Torrão.
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Teresa Soeiro
    Função: Docente do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
    Data: 2015-01-29
    Curriculum Vitae
    Declaração de compromisso
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
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