Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2016_001
  • Domínio: Competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais
  • Categoria: Atividades transformadoras
  • Denominação: Conhecimentos tradicionais, de caráter etnobotânico e artesanal, utilizados no processo de produção de palitos
  • Outras denominações: Manufatura de Marquesinhos (Lorvão, Figueira de Lorvão, Penacova)
  • Contexto tipológico: A manufatura de palitos consiste numa atividade transformadora, de cariz pré-industrial, caraterizada pela sua simplicidade tecnológica.
  • Contexto social:
    Comunidade(s): Na freguesia de Lorvão a manufatura dos palitos é realizada quer por homens, quer por mulheres, sendo realizada exclusivamente pelas mulheres nas freguesias de Penacova e Figueira de Lorvão
  • Contexto territorial:
    Local: As povoações onde ainda hoje se fazem palitos são: Caneiro, Chelo, Chelinho, Lorvão, Rebordosa e São Mamede, Paradela, Roxo, Ronqueira, Golpilhal e Granja.
    Distrito: Portugal
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Centro \ Baixo Mondego
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: Nos meses de dezembro e janeiro é feita a seleção e abate das árvores utilizadas na manufatura. O processo de manufatura dos palitos realiza-se ao longo de todo o ano.
  • Caracterização síntese:
    A manufatura dos palitos consiste numa atividade transformadora, de caráter pré-industrial, característica de diversas comunidades do município de Penacova. Com íntima associação à indústria transformadora local e importância expressiva na economia local, o processo tradicional de produção de palitos consiste num processo tecnicamente simples em que convergem e constituem fatores fundamentais dois tipos de saberes tradicionais locais. Em primeiro lugar conhecimentos de cariz etnobotânico, expressos no conhecimento dos cobertos e espécies vegetais endógenas, assim como nos procedimentos de seleção, abate e preparação das madeiras de salgueiro e choupo, incluindo o seu descasque e secagem, ao sol e no forno, destinadas à confeção de palitos. Em segundo lugar, os conhecimentos e as aptidões técnicas expressas no procedimento de laminação daquelas madeiras, com recurso a utensílios simples, em que a destreza do artesão, aprendida e desenvolvida em contexto familiar desde a infância, constitui o fator fundamental.
  • Caracterização desenvolvida:
    A manufatura de palitos consiste numa atividade transformadora, de cariz pré-industrial, que, em diversas freguesias do município de Penacova (Figueira de Lorvão, Lorvão e Penacova), recorre a espécies provenientes dos cobertos vegetais endógenos, característicos das margens do Rio Mondego, em particular o salgueiro e o choupo, e desde há muito se reveste de uma dimensão emblemática, a nível regional e mesmo nacional, quer dada a importância que este tipo de produção assume na atividade económica das respetivas comunidades locais, quer dada a profundidade histórica deste tipo de produção, com relevância económica atestada desde o século XVIII, mas com origens, associadas ao próprio Mosteiro do Lorvão, que a memória local faz remontar ao século XVII.

    Segundo a tradição, a manufatura dos palitos teve a sua origem no Mosteiro de Lorvão estendendo-se depois às povoações vizinhas, algumas já nos concelhos de Vila Nova de Poiares e Coimbra, em virtude do êxodo de pessoas vindas de Lorvão, quer por casamento, quer por motivos económicos, ou outros. Para além da influência do mosteiro na divulgação dos palitos, outro fator foi preponderante. Esta zona é propícia à existência de madeira de salgueiro-branco e choupo. Como no início do séc. XX o “salgueiro produzido no distrito de Coimbra e ribas do Mondego escassamente chegava para dois meses de produção de Lorvão e do concelho de Penacova” [VASCONCELLOS, 1975]. No início do séc. XX começou-se a adquirir a madeira daquelas espécies nos campos da Golegã, do Cartaxo, e em todo o Ribatejo. Mais tarde passou a utilizar-se o choupo que é mais fácil de ser trabalhado e é mais rentável e também existe em abundância na região.

    Sendo uma região de matas de pinho, eucalipto ou castanheiro, e lugar de fracos recursos agrícolas onde os homens viviam do trabalho da enxada, andando na lavoura alheia, a área de Lorvão propiciava o estabelecimento de uma indústria caseira como o fabrico dos palitos. Assim se preenchiam disponibilidades de tempo e se contribuía para o sustento diário, colaborando crianças, mulheres, velhos e mesmo homens adultos.

    Apesar dos lucros obtidos com a manufatura dos palitos e com a sua embalagem serem baixos, acabam por constituir um complemento importante para o orçamento familiar dos habitantes da região. Havendo a possibilidade de serem dedicados a esta ocupação períodos diários variáveis, permitindo assim harmonizá-los, sem grandes dificuldades com outras atividades de uma população com um ritmo irregular de trabalho ao longo do ano.

    A manufatura dos palitos propriamente dita, isto é, a laminação da madeira, é usualmente realizada no espaço doméstico, por vezes os vizinhos reúnem-se à porta de casa, sempre que as condições atmosféricas o permitem, para realização deste trabalho minucioso com recurso à luz natural, e passa por diversas fases:

    Seleção, abate e corte do salgueiro ou do choupo e preparação na serração: Os troncos são abatidos nos meses de dezembro e janeiro, serrados, rachados, limpos e descascados pelos madeireiros. Outrora a seleção da madeira para abate era feita pelos madeireiros. Hoje essa seleção é feita, muitas vezes pelas pessoas que fazem os palitos. Depois são rachados com a ajuda de dois homens. Cada um segura o seu utensílio e apoia o machado na parte superior do tronco, dando-lhe uma pancada com uma maceta (utensílio de madeira usado pelos madeireiros, juntamente com um machado), que separa o tronco em duas metades. Seguidamente a madeira é descascada e limpa com uma foice. Depois de retirada a casca, tira-se o veio central e as partes nodosas. Posteriormente as “metades” da madeira são novamente rachadas e atiradas para o chão. No ato da compra do pau, o artesão escolhe-o e ata-o em “molhadas” (conjunto de paus ou varas, limpos, descascados e amarrados, com um arame), consoante a quantidade que prefere.

    Secagem e preparação da madeira: Ao chegar a casa do artesão, a madeira é colocada a secar ao sol, durante os meses de março e abril, em linha reta, encostada a uma parede ou em “castelos” (também se diz encasar, isto é dispor os “paus” em “casas”, cruzá-los, dois a dois, paralelamente uns sobre os outros formando um pilha quadrangular). Depois da secagem do pau pelo sol, para tirar a humidade, este acaba de secar no forno de cozer a broa. Depois de cozer a broa e aproveitando o forno que ainda está quente, colocam-se os pedaços de madeira nos fornos (individuais ou comunitários) para “desamaciar” o pau, onde recebe uma têmpera apropriada ao fim a que é destinado: rija ou branda, conforme é convertido no palito comum ou no lavrado. Geralmente a secagem da madeira para os palitos de flor processa-se apenas ao sol, por vezes, se apanha muito calor, é necessário voltar a humedecê-lo com um pouco de água quando se vai trabalhá-lo.

    Quando a madeira está completamente seca, racha-se com uma foice (instrumento cortante constituído por uma lâmina encurvada, que termina num gume serrado), até se conseguirem pequenos pedaços que podem ser laborados com a navalha. Estes pedaços são designados por “nacas”. O artesão continua a abrir a madeira, obtendo pedaços espalmados de cerca de dois centímetros de largura, que se subdividem longitudinalmente até perto da base. Cada uma das hastes dessas “rachas” designa-se por “coto” e, quanto maior for o seu número, maior será a quantidade de palitos que se poderão obter. Habitualmente são quatro ou cinco o número de “cotos” por “racha”. Esta fase do trabalho é feita pelos mais velhos, pois exige mais perícia. A rapariga paliteira normalmente só começa a rachar o pau depois de casar. O artesão não executa por si a totalidade do trabalho. Há pessoas experientes, nesta fase de rachar o pau, que o auxiliam. Em Lorvão, era frequente encontrar mulheres que andavam aos “meios-dias” (trabalhavam para cada pessoa meio-dia de cada vez) a rachar o pau, ganhando assim, mais algum dinheiro, ou comida. Para os palitos de flor a madeira é aberta com uma navalha, até se obterem paus que se considerem adequados para fazer palitos. Contudo o trabalho de abrir a madeira à navalha é diferente, para os palitos de flor que exigem paus reboludos e para os de pestana que exigem paus de forma mais achatada.

    Transformação do pau em palitos: Partindo de pedaços de madeira, as “pegadas” ou os “cotos”, o artesão vai aguçando os paus até ficarem ligeiramente arredondados, num comprimento pouco superior ao dos palitos e aguça-se uma das extremidades. Depois separa-se, conjuntamente da “racha” ou “pegada”, cortando-se “em pá” (palitos de pá e bico), aguçados nas duas extremidades (palitos de dois bicos) ou cortados nas duas pontas (croques). Obtém-se assim, um primeiro grupo de palitos, logo armazenado no côncavo da mão com que se vai segurando a “racha” e repete-se, depois este modo de proceder sucessivamente, até esta acabar por ser toda transformada em palitos.

    No caso dos palitos de flor, a paliteira vai afeiçoando os paus, que vão adquirindo uma forma semelhante à dos futuros palitos. De cada um dos paus trabalhados só se obtém apenas um palito. O trabalho de acabamento do palito inicia-se pelo “luxar” e que consiste em passar, várias vezes, a face ou as costas da navalha pela madeira, até lhe conferir um certo brilho. Começa-se depois a fazer a “flor” ou a “pestana”, que são os efeitos decorativos. Para os palitos de flor levantam-se com a navalha, pequenas aparas de madeira que, enrolando sobre si mesmas, acabam por compor uma série variada de desenhos, esmerando a artesã em não repetir o mesmo motivo em cada quarteirão dos palitos que apresenta. Para delimitar a zona que vai decorar, a paliteira pode produzir na madeira pequenas marcas, com o auxílio de uma bitola. Nos palitos de pestana, as farripas são feitas, primeiro de um lado e, depois do outro. Para “enflorear” e fazer “pestana” deve ser utilizada uma navalha bastante usada. Depois de feita a decoração, talha-se a cabeça do palito, que também é “luxada”, e depois cortada para separar o pau.

    Contagem dos palitos: Acabados os palitos são contados e atados em “maços”. A contagem dos palitos é feita por grupos de quatro palitos: os “pares”. Um volume, ou maço de palitos de pá e bico contem 30 pares (30x4=120 palitos), enquanto os maços de primeira contem 50 pares (50x4=200 palitos). Embalagem: Os maços são desfeitos e os palitos acondicionados em embalagens para venda ao público. A embalagem dos palitos merece também um lugar de destaque, pois os palitos são um artigo que deve ser devidamente apresentado. Tinham também como objetivo manter os palitos nas “condições mais higiénicas possíveis evitando as moléstias levadas ao organismo pelos palitos expostos ao pó e ao dedo de toda a gente”. Os palitos destinados ao consumo próprio, apenas são atados com um fio, designado por guita e depois colocados num paliteiro. Os palitos confecionados para venda são colocados em: “carteiras” (embalagem de palitos constituída por uma caixa de cartolina); cartuchos (embalagem contendo três ou sete pares e meio de palitos, embrulhados em papel de seda); e tubos (embalagem de cartão em forma de prisma, com um orifício num dos topos para extrair os palitos).

    Estas embalagens em cartão são fornecidas por gráficas da região, as de plástico são adquiridas na região de Leiria.

    Para os palitos de flor as paliteiras fazem embalagens de papel colorido, em forma de pequenos pacotes cónicos, em que é introduzida apenas a ponta dos palitos. Cada um desses maços contém um quarteirão de palitos, que costumam ser todos de desenho diferente. Depois formam-se conjuntos de quatro embalagens, colocando-se duas num sentido e duas no outro, de modo a constituir-se um cento de palitos. Quanto aos palitos de pestana, são embalados de modo semelhante aos anteriores, embora com uma disposição diferente no interior de cada pacote, a fim de não se deteriorarem. Cada quarteirão de palitos é repartido por dois pacotes, contendo um doze e o outro treze, e assim cada cento leva oito pacotinhos.

    Utensílios de trabalho:

    Os utensílios dos paliteiros, também apelidados de “serviço”, acondicionados geralmente na cesta ou condessa, são simples e leves, uma vez que são transportados de um lado para o outro, pois esta atividade serve de complemento a outras tarefas, nomeadamente a agricultura. Os utensílios são os seguintes: banco, cesta ou condessa, coira, coiro, apara, navalha, foice, pedra de afiar e piteira.

    Banco – assento baixo onde o artesão passa a maior parte do dia. É um utensílio facultativo. Há muitas pessoas que se sentam nas soleiras das portas ou então num plano inclinado.

    Cesta ou condessa – Recipiente de abertura arredondada e fundo quadrangular, usado para guardar quer os palitos, quer os outros instrumentos dos paliteiros. Este cesto não é igual em todas as localidades onde se fazem palitos. Em Lorvão usa-se um cesto sem arco, enquanto em Chelo, se usa um cesto com arco. Justificação dada pois os lorvanenses são peritos nesta arte, que vem de geração em geração, sabiam aproveitar melhor a madeira, dividindo-a com rapidez e destreza em bocadinhos, pegando neles em grupos e fazendo vários palitos ao mesmo tempo. Chegavam a fazer-se quatro palitos de cada vez que eram atirados “bruscamente” para o cesto. O arco deste cesto funcionava como uma barreira, que fazia derramar os palitos pelo chão. Em Chelo eram feitos no máximo dois palitos de cada vez, que eram colocados vagarosamente no cesto.

    Coira – É uma “fita” rija para trabalhar as “rachas” da madeira. Protege a perna do artesão, da pressão do pau e dos golpes da navalha. Também a coira é diferente de localidade para localidade. Em Lorvão e São Mamede, a coira é feita de pele de boi, ou de corno de carneiro, que é cozido em água a ferver. Quando está mole, molda-se e aparelha-se ficando uma coira rija. Pode também servir um cinto velho. Já se utilizou para fazer a coira, unha de boi.

    A coira difere no comprimento e no modo de colocar, conforme se destine a ser usada por um homem ou por uma mulher. No caso específico dos homens são amarradas por um cordel, que passa por baixo da perna do artesão. Se o destinatário for a mulher, esta coira deve ser proporcional à sua altura. A coira é colocada sobre a perna da mulher que se quer proteger, e desce até ao chão, onde é segura pela ponta do pé, volta a subir novamente indo passar pela parte exterior da outra perna, formando uma espécie de triângulo.

    Coiro – Colocado sobre a “apara”. Pode ser um pedaço de cabedal, ganga ou cabedal.

    Apara
    – É um pedaço de papelão, cartão ou couro velho, colocado entre a coira e o coiro, para fazer altura.

    Foice sem bico ou podão – Instrumento de lâmina curva e estreita, com gume serrado, que serve para aparelhar, cortar e rachar a madeira de salgueiro ou de choupo, em pedaços mais pequenos.

    Navalha ou faca inglesa – Instrumento cortante composto de lâmina e cabo, utilizada para retirar da madeira pequenas lascas de pau de choupo ou salgueiro, que são afiadas e transformadas em palitos.

    Pedra de afiar – Pedaço de xisto alongado, com a finalidade de afiar a navalha.

    Piteira> - É um pedaço de madeira, destinado a “assentar” o fio da navalha.


    Tipos de palitos:

    Palitos de pá e bico – Palitos “lixados”, aguçados numa das extremidades, enquanto a outra termina em pá. Este tipo de palitos varia consoante o seu comprimento. Podem ser pequenos ou grandes, consoante a localidade onde são feitos. Geralmente os palitos de Lorvão e São Mamede são considerados palitos de segunda, “ordinários” ou “maganos”, feitos em grande quantidade e sem aperfeiçoamento. Contrastando com esses palitos, surgem os palitos de primeira, bem feitos, palitos mais grossos, mais morosos, feitos um a um. As pessoas que fazem os maus palitos (palitos de segunda) são apelidadas de “piçoqueiros” ou “estroceiros”.

    Palitos de dois bicos – As extremidades destes palitos terminam em bico. Também variam consoante a medida, podem ser curtos ou compridos.

    Palitos de flor e pestana – Palitos com motivos decorativos que se produzem ao levantar, com a navalha pequenas aparas de madeira que se enrolam sobre si mesmas. A matéria-prima usada para executar este tipo de palitos é laborada de forma diferente. Os troncos de salgueiro são adquiridos e serrados perto do local de trabalho. Os troços são abertos com um “podão” (ferramenta cortante e direita, que pode ter uma ou duas pegas, dizendo-se por isso de um ou dois pés; neste último caso os pés são perpendiculares à lâmina). Depois descasca-se a madeira, tiram-se os nós e é colocada a secar para tirar a humidade. Esta madeira ao contrário da utilizada para os palitos de pá e bico, não vai ao forno. Depois é arrumada num local onde não apanhe nem vento, nem sol. Posteriormente abre-se com a navalha, até se obterem paus que permitem a execução dos palitos. Este tipo de trabalho difere, os palitos de flor requerem paus reboludos; os palitos de pestana, paus de forma mais achatada. Para a decoração destes palitos, a artesã vai alisando os paus que posteriormente são “enfloreados”. Nos palitos de flor lascam-se pequenas aparas de madeira, que se enrolam sobre si mesmas. Nos palitos de pestana, as “farripas” são feitas, primeiro de um lado, e depois do outro. Por fim, talha-se a cabeça do palito, que é “lixada” e separada do pau. A melhor época para trabalhar a madeira de salgueiro é no inverno. No verão tem que se proteger de temperaturas altas, pois se estiver sujeita a estas, fica áspera e as “raspinhas” não viram tão bem. Convém para a execução deste tipo de palitos, que a madeira seja, quanto mais dura melhor.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: Atualmente a manufatura dos palitos é praticada em 3 das 8 freguesias do concelho de Penacova e na freguesia de Lorvão a manufatura dos palitos é realizada apenas pelos adultos, quer por homens, quer por mulheres, sendo realizada exclusivamente pelas mulheres nas freguesias de Penacova e Figueira de Lorvão.
    Data: 2015-01-28
    Modo de transmissão oral
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Todos os membros das comunidades do município de Penacova atualmente implicados na seleção e preparação da madeira e no processo da sua transformação e laminação em palitos.
  • Origem / Historial:
    A primeira referência aos palitos no Mosteiro de Lorvão remonta ao século XVII. Não sabendo, ou não podendo, explicar o dispêndio de uma verba de 600.000 réis, as monjas administradoras do Mosteiro indicaram que aquela verba estava relacionada com a utilização de palitos, dado que tem sido interpretado para evidenciar a importância que a indústria de produção de palitos assumia já na economia local naquela época, pois as freiras encobriram com essa justificação outras despesas (T. Lino d´Assumpção, As freiras de Lorvão, Coimbra, França Amado, 1899, p. 124).

    No último quartel do século XVIII, já se aludia à manufatura de palitos que em Lorvão se praticavam “com grande abundância” [Boletim do trabalho industrial, p.5). Em 1853, António Luiz Henriques Secco dizia que “os moradores de Lorvão homens, mulheres e crianças, são talvez o povo único do país, que se dedica à pequena indústria de palitos, e à exportação para as diversas cidades do Reino, donde passam mesmo a mercados estranhos (António Henriques Seco, “Memória Histórico-Corográphica dos diversos concelhos do districto administrativo de Coimbra”, Coimbra, Imp. da Universidade, 1853, p. 112). Augusto Mendes Simões de Castro, na explicação de uma visita que fez ao Mosteiro de Lorvão, publicada em 1865, mostra que os habitantes de Lorvão “quase todos se ocupam na manufatura dos palitos, cujo comércio é ali de alguma importância. Vimos em quase todas as portas crianças, adultos e velhos trabalhando nesta indústria, e entreteve-nos ver a ligeireza e perfeição com que a executavam” (“Mosteiro de Lorvão”, Archivo Pittoresco, Tomo VIII, 1865, p.76).

    Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, a atividade paliteira alargou-se para fora das suas paredes. Em 1861, existiam apenas 80 paliteiros na freguesia de Lorvão, em contrapartida em 1910, aquela população ascendia a 3 484 pessoas exercendo a sua atividade. Esta pequena indústria dos palitos ocupava muita gente porque era uma atividade que podia ser feita sem grande esforço, assim como uma forma de preenchimento de disponibilidade do tempo. Conciliada com outras atividades que tinham um ritmo irregular de trabalho ao longo do ano, ligado às atividades agrícolas. Trata-se de uma indústria rural imposta pela insuficiência de recursos fornecidos pela agricultura e que se enquadrava num ambiente de extrema pobreza. Sabe-se que a vida em Lorvão, em 1903, era difícil, existiam carências de habitação, daí terem solicitado ao governo o arrendamento em parcelas de parte do Mosteiro de Lorvão, o que veio a acontecer, tendo o edifício sido habitado, por uma parte dos habitantes até 1952, data em que foram transferidos para o “Bairro” social.

    Ainda no ano de 1903, se protestava num “jornal da terra que não havia plantação de salgueiros” (Vida Local, Revista de Formação e Informação para a Defesa das Autarquias Locais e seus Problemas, Separata dedicada a Penacova, p. 24.) sendo adquiridos em lotes ou feixes, nos campos de Coimbra, Golegã, Santarém e nas margens dos rios Ceira e Mondego, a jusante de Penacova. A madeira utilizada inicialmente para fazer os palitos era o salgueiro, depois devido à escassez em arranjar esta matéria-prima passou a utilizar-se o choupo, uma madeira mais mole, mais fácil de preparar e que permite mais rendimento, apesar de ser mais cara. Contudo a mudança para a madeira de choupo originou algumas críticas, a avaliar por um artigo publicado, em 1914, no Jornal de Penacova, em que repreende a quebra de qualidade dos palitos enviados para a América, como se denota no seguinte trecho. “Além do abuso do mau fabrico, verdadeiramente comprometedor e desmoralizador do produto, há ainda outro abuso que começa a aparecer e que virá dar o golpe de morte na nossa indústria de palitos – é o uso, no fabrico dos palitos, de madeira que não seja o salgueiro-branco. A matéria-prima dos palitos portugueses – salgueiro-branco – é uma das maiores recomendações desse produto, não só pela sua brancura de marfim, como seu sabor agradável. Pois até isto os fabricantes menos exemplares estão pondo de parte, empregando o choupo e outra qualquer madeira de gosto desagradável, de uma claridade muito duvidosa e muito sujeita ao mofo, o que não acontece com o salgueiro-branco” (“Indústria dos palitos dos dentes”, Jornal de Penacova, n.º 665, de 11 de julho de 1914).

    Em 1910 os maços de palitos eram moeda corrente em Lorvão. “Com eles se compravam provisões de boca e vestuário. Havia macinhos de vários tamanhos e valor: 7,10,12,14,17,19,20,22,25,30,40 e 45 réis; os do último preço eram já uma especialidade: eram os marquesinhos, e ainda hoje têm este nome com 200 palitos” (J. Leite de Vasconcellos, Etnografia portuguesa, vol X, p.389). Em 1917 Lorvão tinha 2500 habitantes. Apenas dois habitantes não precisar de fabricar palitos para garantir a sua subsistência. “Toda a outra população válida, de pais a filhos, de avós a netos, incansável e interminavelmente, corta, esquarteja, seca, leva ao forno ou lavra a única matéria-prima da indústria de Lorvão: o salgueiro. Nesse ano também se faziam em Lorvão com o salgueiro outros artefactos, para além dos palitos, nomeadamente facas, garfos, colheres e canetas (J. Leite de Vasconcellos, Etnografia portuguesa, vol VI, p. 144).

    Para além dos palitos de pá e bico e de dois bicos, identificados anteriormente, outrora confecionaram-se outros tipos de palitos, nomeadamente:

    Croques – Paus partidos e lixados. Serviam para acender fogões e para os chupa-chupas, também designados “Pirulito puxa-puxa”, que eram chupa-chupas em forma de guarda-chuva fechado vendidos à porta do mosteiro, em dias de festa. O vendedor de chupas levava uma tábua retangular cheia de furos, presa ao pescoço por uma cordinha. Era feito com mel ou açúcar caramelizado e embrulhado em papel pardo.

    Palitos serrados – Palitos sem bico, parecidos com os croques, mas mais perfeitos.

    Palitos de relógio – Parecidos com os palitos de dois bicos, mas mais compridos. Serviam para os relojoeiros limparem os relógios.

    Palito gigante – Palito comprido para farmácia.

    Os palitos de flor, a confirmar por um artigo do Jornal de Penacova, de 1902, relacionado com as indústria e comércio locais, só aparecem em finais do séc. XIX, diz-se que este tipo de palitos “é muito pouco conhecido no país e menos ainda no estrangeiro, apesar de serem premiados na última exposição de Paris os que lá apareceram” (“Palitos”, Jornal de Penacova, n.º 34, de 19 de abril de 1902). Segundo a memória oral local, “Os palitos tiveram a sua origem dentro do mosteiro. As freiras faziam muitos doces, para não pegarem neles com a mão, um dia uma abadessa pediu a uma criada, para ir à cerca (zona envolvente do mosteiro) afiar uns paus de louro (árvore que aí abunda). Como o louro não era adequado para fazer palitos, as freiras começaram a experimentar qual seria a melhor madeira, até que descobriram o salgueiro. Madeira branca como o marfim, flexível, de sabor agradável, adocicado que podia acompanhar os mais belos petiscos das freiras e esgaravatarem os dentes dos restos das iguarias que neles ficavam entalados. O fator principal de decoração transformou-se em utilidade prática. Atualmente a parte decorativa existe nos palitos de flor e pestana, enquanto os outros são apelidados de palitos de pá e bico.

    De início fazer palitos constituiu um entretenimento para as fidalgas freiras, em horas de recreio. Depois passou a ser uma obrigação das criadas, para “satisfazer os desejos pedidos de mimosos presentes, expressos por pessoas das famílias das monjas e nobres da corte”. Mais tarde, para serem satisfeitas as numerosas encomendas de palitos, começaram também as crianças, adultos e velhos da aldeia a dedicar-se aquela atividade. Agarravam na navalha e nos pedaços de madeira, abriam-nos em quatro e firmando-os sobre um pequeno protetor de couro (coira) que os envolvia do joelho esquerdo, até ao pé, adoçavam a madeira, afiavam-na na ponta, com duas ou três passagens rápidas da navalha. Voltavam essas pontas, marcavam os paus à altura conveniente dos palitos, cavando a madeira, vergavam, partiam em quatro hastes de cada vez e surgiam os palitos que eram guardados no cesto ou condessa. Esta atividade manteve-se no âmbito caseiro até aos nossos dias, “o fabricante de palitos é simultaneamente operário e gerente. O seu lar e a sua família constituem a fábrica, a mão-de-obra e a gerência (Orlando Ribeiro, Introduções geográficas à história de Portugal, Lisboa, 1977, p. 157). Trabalhavam muitas vezes até altas horas, daí o provérbio “Seroei tanto até já não puder com a pazinha de um palito”. Outro pormenor importante é que em Lorvão era usual deixar pelo menos a produção de um dia de trabalho para aforrar, isto guardar algum dinheiro para adquirir uma peça em ouro, ou vestuário, daí uma expressão utilizada “Temos de forrar o pagamento pr´a dar ó orives, à conta do cordão”.

    A embalagem dos palitos mereceu um lugar de destaque, pois eram um artigo que devia ser luxuosamente apresentado. Num jornal de Lorvão, chegou mesmo a apelar-se para a forma das embalagens: “é valioso elemento dar um pouco de cuidado à forma como são embalados (…), devem produzir-se trabalhos, de duplo valor artístico (…), devem evitar as imitações de um para outro fabricante no que respeita às embalagens (Progresso Lorvanense, Ano II, n.º 52, 18 de junho de 1922). Cada comerciante tinha uma marca de palitos com a sua respetiva embalagem. Também os paliteiros eram diferentes de comerciante para comerciante, mas todos tinham um único objetivo: manter os palitos nas condições mais higiénicas possíveis e “evitando as moléstias levadas ao organismo pelos palitos expostos ao pó e ao dedo de toda a gente” (J. R. Pinto Brandão, “Memória sobre a indústria portuguesa dos palitos dos dentes”, in Boletim do trabalho industrial, n.º 37, 1910, p. 4). Nas embalagens eram mencionadas muitas palavras de elogio dos palitos “são recomendados por serem fabricados de madeira flexível em Portugal”; “especializam-se pelo seu perfeito acabamento e pela excelente qualidade da madeira de que são fabricados que por ser livre de resinas conserva o esmalte dos dentes evitando a cárie”; “hygienicos e desinfectados”, entre outras.

    A produção destinava-se na sua maior parte à venda, a particulares e a comerciantes que os enviam para os seus clientes, entrando no circuito comercial do país e do estrangeiro (França, Inglaterra, Espanha, Brasil, México, Argentina, Panamá, etc). No início do Séc. XX vendiam-se palitos diretamente nas mercearias. Faziam-se palitos antes das refeições, que eram enrolados e vendidos a “três vinténs”. A moeda de troca era o palito, o autêntico, cujos maços valiam “bacalhau, açúcar, arroz, café, petróleo, azeite, linho, broa, etc”. Quando um paliteiro necessitava de adquirir algum género, não necessitava do intermediário nem da Casa da Moeda, nem do Banco de Portugal. “O homem da venda recebia palitos não recebia dinheiro, mas examinava com escrúpulo, com um rigor de quem conferisse velhas assinaturas em pergaminho antiquíssimos”. Tudo era pesado, medido, contado e retribuído em artigos necessários à sua subsistência e vestuário. Daí várias expressões utilizadas em Lorvão “Vamos mazé aproveitar pr’a fazer uns palitinhos. Andem ninas, quem não trabalha, não come!” ou “Temos de ganhar pró café qu’indó temos qu’ir comprar ao Ti Jaquetas””, ou “Ó nina, estão os palitos atados já podes ir aviar o recado”. Por vezes compravam o pau no mesmo comerciante onde iam trocar os palitos, daí o lamento que se tornou proverbial “para ganhar o pão não ganho o pau; para ganhar o pau não ganho o pão”. Ao merceeiro sucediam-se os outros elos da cadeia de intermediários, que do paliteiro ao consumidor, podia passar por mais quatro ou cinco intervenientes. As condições de comercialização dos palitos nunca foram favoráveis para os fabricantes, originando tentativas de venda direta, com deslocações difíceis ou sujeitando-se aqueles a uma cadeia de intermediários gananciosos. O vendedor de palitos do séc. XX além dos palitos vendia rocas e colheres de pau. Ia apregoando pelas ruas “Merca palitos! Olha o belo marquesinho”.

    Em 1898 abriu em Lorvão uma agência para exportação dos palitos que abrangia países europeus como a Espanha e Inglaterra, os antigos territórios ultramarinos e as Américas, onde os palitos portugueses apareciam no Panamá, Brasil e México (“Indústria dos Palitos”, O Defensor do Povo, n.º 40, Coimbra, 4 de dezembro de 1892).

    Embora a manufatura dos palitos tivesse tido importância a partir do séc. XVII, só nas primeiras décadas do séc. XX se constituíram algumas sociedades na freguesia de Lorvão:

    - Em Lorvão, no ano de 1918, a sociedade por quotas, sob a firma Ferreira & C.ª Lda, com o capital social de 12 contos (AUC, not. Augusto Saldanha da Silva Vieira (Coimbra) l.n. n.º 182 – C, fls 8v.-12);

    - Na Rebordosa, em 1923, a sociedade em nome coletivo, sob a firma Francisco Simões Flórido, com o capital social de 20 contos (AUC, not. José Albino Ferreira (Penacova), l.n. n.º80, fls.2v.- 4.);

    - Na Rebordosa, em 1924, a sociedade por quotas de responsabilidade limitada, sob a firma Exportação Mondego, Lda., com o capital social de 300 contos (AUC, not. José Albino Ferreira (Penacova), l.n. n.º80, fls.2v.- 4.).

    Apesar da constituição destas sociedades não se alterou a manufatura caseira dos palitos. Os paliteiros dedicavam-se ao comércio, quer interno, quer externo. Na maior parte dos casos recorriam ao sistema de indústria ao domicílio, onde as sociedades apenas ultimavam, embalavam e comercializavam os palitos feitos essencialmente nos próprios lares.

    Nas primeiras décadas do séc. XX, os principais exportadores da freguesia de Lorvão eram os seguintes (J. R. Pinto Brandão, “Memória sobre a indústria portuguesa dos palitos dos dentes”, in Boletim do trabalho industrial, n.º 37, 1910, p. 4):

    - António Rodrigues Craveiro, de Lorvão;

    - José Albano, de Lorvão;

    - António Caetano da Fonseca, de Lorvão;

    - Manuel da Fonseca Ferreira, de Chelo;

    - António Fernandes, de Chelo;

    - Manuel dos Santos Borges, da Rebordosa;

    - Pedro Marques, do Caneiro.

    Existiu uma grande dependência dos palitos em relação a alguns mercados, nomeadamente o brasileiro, muito importante para o escoamento da produção da região lorvanense que, “tendo este país atravessado uma dura crise económico-política, cerca de 1891, tal ocorrência teve repercussões negativas graves a nível local, traduzido numa forte baixa na exportação do produto (Henrique Coutinho Gouveia, Palitos de pá e bico (Exposição Itinerante), Coimbra, Museu e Laboratório Antropológico da Universidade de Coimbra, 1981, p.7). Tornou-se difícil a sua colocação no mercado, o preço da sua comercialização desceu então para menos de metade.

    Em 1902, encarava-se “a hipótese desta indústria vir desenvolver-se. As exportações atingiam cem contos de réis, o que era para o tempo notável (António Henriques Seco, “Memória Histórico-Chorográfica do districto de Coimbra”, in Vida Local, p. 24). Tentativas para incrementar a pequena indústria dos palitos, atividade que se julgava vir a contribuir para o desenvolvimento de Lorvão, pois as exportações atingiram no ano de 1913 o montante de 120 contos. Para isso era necessário melhorar a manufatura. Assim a 21 de fevereiro de 1913 “juntaram-se em Lorvão 400 fabricantes de palitos para resolver certas reclamações sobre o aparecimento de agulhas de pinheiro nos maços de palitos e da fabricação com madeira escura ou queimada (António Henriques Seco, “Memória Histórico-Chorográfica do districto de Coimbra”, in Vida Local, p. 24).

    Para além das tipologias de palitos, apresentadas anteriormente, outrora existiram outras. José Leite de Vasconcelos mencionou que “os palitos são de valores diferentes: o marquesinho, que é de consumo (vulgar e fino), o palito de flor (enfeitado), o palito gigante (para farmácia), o palito de relógio (comprido com dois bicos para relojoeiro (José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, vol. VI, p. 142). J. R. Pinto Brandão adotou outra tipologia: “palitos-flor, gigantes ou compridos de 1.ª (0 m, 12 de comprimento); meio gigantes ou compridos de 2.ª (0 m, 8); marquesinhos especiais (0 m, 05); marquesinhos de 1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª e 5.ª, sendo esta última classe a denominada “palitos maganos”, a qual ainda abrange o palito mais tosco que as engomadeiras de Coimbra usavam para meterem nas casas dos colarinhos e punhos depois de engomados e brunidos. Os marquesinhos de 3.ª e 4.ª classes são os chamados “ordinários” (J. R. Pinto Brandão, “Memória sobre a indústria portuguesa dos palitos dos dentes”, in Boletim do trabalho industrial, n.º 37, 1910, p. 4).

    Ao longo do Séc. XX, várias foram as formas de divulgação desta pequena indústria. Foram promovidas várias exposições nomeadamente as exposições distritais de 1869 e 1884, que tiveram lugar em Coimbra; as exposições nacionais, a Exposição da Indústria Portuguesa de Lisboa, em 1888 (nesta exposição foram premiados sete expositores de palitos, sendo três com medalha de cobre e quatro com menção honrosa) e a Exposição do Palácio de Cristal Portuense, em 1891; exposições internacionais, nomeadamente: Exposições de Paris em 1900 e 1910, Panamá em 1915, Argentina, Rio de Janeiro em 1922 (Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil) e Londres, os palitos foram premiados, não só pela habilidade e perfeição dos paliteiros ao demonstrar a sua arte “como pela graciosidade entre as povoações que representavam”.

    Ao longo do séc. XX, numa altura em que a industrialização era palavra de ordem, muito natural seria que fossem iniciadas tentativas ligadas à maquinofatura dos palitos. Desde os inícios do fabrico mecânico dos palitos, as suas repercussões manifestaram-se na freguesia de Lorvão. O fabrico dos palitos no estrangeiro, por meio de maquinismos, estabeleceu “uma temível concorrência à indústria portuguesa, quer em qualidade, quer em preços. Com efeito lê-se num relatório de 1920 que era de esperar que a introdução do fabrico mecânico dos palitos impulsionasse “notavelmente esta indústria que se tem conservado estacionária, se é que não tem afrouxado. Impõe-se por isso a introdução do fabrico mecânico para evitar que a fabricação mecânica dos países estrangeiros venha conquistar mercados que de longa data pertencem aos portugueses (Relatório dos serviços da 2.ª Circunscrição Industrial nos anos de 1916 a 1920, in Boletim do trabalho industrial, n.º 119, 1923, p.18).

    A primeira tentativa de industrialização verificou-se em Lorvão, com a introdução de algumas máquinas chinesas que começaram a laborar numa casa particular. A primeira fábrica de palitos, Fapilor (Fábrica Paliteira de Lorvão) entrou em funcionamento a 2 de novembro de 1982. Esta fábrica nasceu do sonho de um dos seus proprietários, assim como da falta de palitos, dado que a produção manual era cada vez menor. Outras unidades fabris lhe seguiram, a Begal e os Palitos Campeões. Unidades fabris que foram remodeladas e ainda hoje funcionam. Inicialmente fabricavam palitos triangulares, depois começaram também a fabricar o plano e o redondo, que era vendido para todo o país. A partir de 1986 passaram a exportar para Espanha.

    Cada tipo de palito exige uma máquina diferente. O palito triangular exige um “charrion”, que transforma um “taco” em palitos. Os palitos planos exigem uma “desfolhadora”, que desfolha os troncos de madeira. Quer os palitos triangulares, quer os palitos planos eram laborados com madeira verde, ao contrário do redondo, que era com madeira seca. Os palitos eram secos em estufas a temperaturas que variavam entre 60 e 80º. Depois de secos iam para um polidor para ficarem mais macios. A madeira mais utilizada era o choupo, embora também fosse utilizado o plátano e a acácia, nos espetos.

    Na década de 1980 a embalagem e distribuição estava a cargo de cerca de 20 intermediários, normalmente fornecedores da matéria-prima, que percorriam o país para vender os palitos. O seu lucro chegava a atingir os 500%. A exportação fazia-se por intermedio de três exportadores para: Brasil, Austrália e Guiné.

    As 3 fábricas de palitos: Begal, Campiões e Fapilor e alguns pequenos comerciantes que embalam palitos, dão trabalho a cerca de 80 pessoas. Uma destas fábricas, por imposição das grandes superfícies comerciais para onde vende os palitos, é uma empresa certificada. Representantes dessas superfícies vêm a Lorvão fazer auditorias. Estas unidades fabris possuem selo HACCP, relacionado com o sistema de segurança alimentar (Hazard Analysis and Critical Control Points) que significa análise de perigos e pontos críticos de controlo.

    Os palitos embalados em Lorvão são exportados, tendo como destino: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Espanha, França, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Suíça, Brasil, México, Argentina, Panamá, etc.). Praticamente todo o mercado nacional é abastecido por palitos embalados em Lorvão.

    No concelho de Penacova a manufatura dos palitos assume um caráter emblemático da cultura de matriz tradicional local, que se exprime igualmente na importância que os três ranchos folclóricos federados do concelho (Grupo Etnográfico de Lorvão; Rancho Folclórico “As paliteiras de Chelo” e o Rancho de Penacova) dedicam, desde as últimas décadas, à encenação da manufatura de palitos por ocasião das suas exibições.

    Não obstante esta dimensão simbólica que a manufatura de palitos assume no quadro da cultura tradicional de matriz popular do município de Penacova, há muito atribuída quer a partir do seu exterior, quer, como evidencia a importância que lhe dedicam os ranchos folclóricos locais, a nível endógeno, esta produção de carácter tradicional reveste-se ainda, na atualidade, de uma grande relevância no tecido produtivo de várias das comunidades locais do concelho de Penacova, em íntima articulação com a atividade industrial local, de que é fornecedora.

    Atualmente o volume de negócios relacionado com a embalagem dos palitos, só na freguesia de Lorvão, ronda os 4 milhões de euros. No concelho de Penacova mais de 1000 pessoas (com idade superior a 40 anos) ainda sabem fazer palitos, estes fazem-se em pequenas quantidades, pois são poucos os compradores e não é permitida a sua venda, por motivos higiénicos, nas grandes superfícies comerciais. A legislação portuguesa atual não permite a venda de palitos manufaturados nas superfícies comerciais. Contudo existem ainda alguns restaurantes do país que preferem este tipo de palitos para acompanhar algumas iguarias, nomeadamente as entradas e as francesinhas. Praticamente todo o mercado nacional é abastecido por palitos embalados em Lorvão. As máquinas das fábricas de Lorvão, já não produzem palitos. Embora permanecendo alguns resistentes paliteiros, a globalização ditou que a especialidade é o embalamento de palitos. Dado que fica mais barato importar a matéria-prima já pronta, vêm caixas de palitos da China, que são analisados em Lorvão, verificado o controlo de qualidade e se estiverem em conformidade, passam pelas mãos das funcionárias das várias fábricas, ou em casa de algumas mulheres de Lorvão que tentam aumentar o seu rendimento mensal e os revestem a papel, ou os colocam em caixas ou paliteiros. Estes palitos são feitos com madeira de bétula ou vidoeiro branco.

    Atualmente em Lorvão, em média, os poucos paliteiros que ainda se dedicam à manufatura dos palitos, fazem-no à noite e reservam-lhe o correspondente a um dia por semana, para consumo próprio ou venda a outras pessoas que ainda os preferem. Este tipo de palitos não pode ser vendido pelos fabricantes, dadas as regras higiénicas impostas. Quanto aos palitos de flor, dado que só uma minoria é que os sabe fazer, toda a produção é absorvida pelas fábricas. Este tipo de palitos ainda se consegue encontrar à venda nas grandes superfícies comerciais. E se mais houvesse quem os fizesse mais se vendiam. A embalagem de palitos ocupa cerca de dois dias de trabalho, envolve pessoas de várias faixas etárias, principalmente idosos, que sem grande esforço físico, encontram aqui uma possibilidade de aumentar o rendimento do agregado familiar. Atualmente em Lorvão tem mais peso na economia doméstica o tempo dedicado à embalagem dos palitos, do que a manufatura.
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Direito Consuetudinario LocalUso imemorial, primeira referencia surgiu no seculo XVII Freguesia de Lorvão
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Paula Cristina Ferreira da Silva
    Função: Técnica Superior área de Biblioteca e Documentação) do mapa de pessoal do Município de Penacova
    Data: 2015-02-02
    Curriculum Vitae
    Declaração de compromisso
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
Logo Por Lisboa Logo QREN Logo FEDER