Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: PROC/0000000054
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Carnaval de Torres Vedras
  • Contexto tipológico: A festa insere-se nas tradições do entrudo português, a qual está integrada nas festas de Inverno, que por sua vez reportam aos cultos de fertilidade e abundância do final do ciclo de inverno e início do ciclo produtivo da primavera (momento de viragem do ciclo agrário). O cristianismo incluiu esta festividade no calendário litúrgico associando-o à Quaresma.

    O Carnaval de Torres Vedras trata-se de uma festividade, de cariz urbano, baseada num conjunto de manifestações sociais, performativas e rituais, cujo carácter de singularidade da produção, reprodução e vivência, se evidencia dos demais carnavais.
  • Contexto social:
    Comunidade(s): todos os indivíduos da comunidade
  • Contexto territorial:
    Local: Torres Vedras
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Centro \ Oeste
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: anual
    Data(s): A data da realização da festa é móvel (realiza-se antes da Quaresma).
  • Caracterização síntese:
    O Carnaval de Torres Vedras consiste numa festividade, de cariz urbano, baseada num conjunto de manifestações sociais, performativas e rituais, que os seus detentores reconhecem como fazendo parte integrante do seu património cultural, sendo transmitida e recriada de geração em geração. O Carnaval é assim uma manifestação cultural protagonizada por toda a comunidade, independentemente da proveniência geográfica (meio urbano/rural), de género ou de idade, visto ser uma manifestação fortemente enraizada no seu referencial identitário coletivo.

    Este carnaval apresenta, por um lado, características tipicamente urbanas, proveniente de uma elite local republicana e de um grupo social emergente comercial/industrial, que no início do séc. XX introduziu o corso, os carros alegóricos e as batalhas de flores ou os reis do Carnaval (os quais remontam aos modelos carnavalescos franceses e italianos). Por outro lado, apresenta simultaneamente algumas reminiscências do entrudo rural, designadamente a queima do entrudo na quarta-feira de cinzas.

    As ruas do centro da cidade são temporariamente fechadas ao trânsito para a realização do programa festivo que se estende por cerca de seis dias, dada a importância da vivência do Carnaval para a comunidade. Entende-se que a singularidade da festa consiste nos seguintes elementos:

    1 - O rei e rainha do Carnaval e símbolos associados

    Destaca-se a tradição da seleção de dois homens da comunidade para desempenharem o papel de rei e rainha do carnaval, assim como os seus símbolos, que persistem desde o início do século XX.

    2 - A Existência de uma titulatura ou "dinastia" Régia

    Associada à tradição dos reis do Carnaval, existe uma dinastia dos títulos dos reis, os quais mudam anualmente (mesmo que o reinado dure mais tempo). Os nomes são escolhidos satirizando os assuntos mediáticos contemporâneos.

    A linhagem real teve início em 1923 (sem rainha) e a partir de 1924 (com rainha). Os primeiros representantes foram Álvaro André de Brito (rei) e Jaime Alves (rainha).

    3 - A Matrafona como fenómeno social e coletivo

    A tradição dos homens da comunidade se fantasiarem de matrafona (desde o início do séc. XX) configurando-se num fenómeno social coletivo e intergeracional que se traduz numa afirmação identitária da comunidade transmitida e veiculada de geração em geração.

    4- O Ritual de chegada dos Reis à estação ferroviária e entrega das chaves

    A Chegada dos reis/entronização, com partida na estação de caminho-de-ferro culminando na entrega das chaves aos reis pelo presidente da Câmara.

    5 - O Envolvimento e participação da comunidade

    Destaca-se o envolvimento da comunidade, na produção/reprodução da festa, quer pela forte participação das associações carnavalescas ou foliões na festa, quer pelo investimento canalizado pelos indivíduos na seleção/preparação ou aquisição da máscara/fantasia e reforço de redes de sociabilidade no seio dos grupos e comunidade.

  • Caracterização desenvolvida:
    PREPARAÇÃO DA FESTA

    A vivência da comunidade na preparação da festa expressa-se no investimento de tempo, emocional, simbólico e financeiro na seleção e preparação de máscaras/fantasias, no reforço de redes de sociabilidade no seio dos grupos e comunidade e no ambiente festivo vivido nos dias antecedentes à festa propriamente dita.

    A partilha de valores/tradição e sociabilidade entre o(s) grupo(s), nomeadamente no âmbito da seleção e confeção das máscaras/fantasias, a qual é feita coletivamente, entre amigos e familiares, nas suas casas com a máxima discrição, promove o reforço dos laços identitários da comunidade. Alguns grupos produzem manualmente os seus fatos carnavalescos, cerca de um mês antes do Carnaval, o que demonstra a importância dada à construção de uma máscara original e única, que significa um maior investimento de tempo e dinheiro.

    Por exemplo, os grupos de mascarados afirmam começar a pensar na fantasia do Carnaval, após o período do Natal e passagem de ano. Os grupos organizam-se desde os preparativos da máscara à participação no Carnaval, procurando que todos os elementos do grupo usem a máscara selecionada previamente, normalmente confecionada em segredo até à sua aparição pública. O efeito visual é tanto maior quanto mais elementos integrarem o grupo.

    Tal como referido anteriormente, a maior parte dos homens da comunidade, mascara-se de “matrafona”, a sua fantasia de eleição. E não nos esqueçamos que alguns dos homens recorrem à depilação e/ou maquilhagem, o que requer um subjacente planeamento no tratamento e cuidado corporal para a sua aparição pública.

    Os foliões vivem a componente da festa diurna e noturna em grupo. É comum a organização de jantares de grupos de amigos, levando inclusivamente à lotação dos restaurantes da cidade.

    Nas três semanas anteriores ao Carnaval, alguns foliões e elementos de associações carnavalescas, aparecem mascarados em bares e discotecas, nos chamados “assaltos” ao Carnaval, antecedendo o espírito carnavalesco.

    Todas estas manifestações definem uma atmosfera pré-festiva que culmina na participação e euforia vivida pela comunidade durante a quadra carnavalesca, revelando o valor afetivo e simbólico atribuído à festa.

    A comissão de Carnaval, responsável pela organização da festa, era de carácter amador até cerca de 1985, data em que a Câmara Municipal de Torres Vedras centraliza a gestão e organização do Carnaval. A partir de 2000, a responsabilidade da produção do Carnaval foi entregue à empresa municipal Promotorres, cabendo-lhe a função de envolver no processo as associações ou grupos que participam na festa.



    AGENTES ENVOLVIDOS NA REPRODUÇÃO DA FESTA

    Apesar do Carnaval ser vivenciado por toda a comunidade, os atores sociais desempenham e interpretam diferentes papéis na festividade.

    Real Confraria do Carnaval – É uma associação, sem fins lucrativos, criada em 2005, composta por um grupo misto de cerca de 70 membros, designados por “Confrades”. Estes podem ter a categoria de “Efectivos”, “Protectores” e “Honorários”. A sua criação teve como intuito homenagear as personalidades que desempenharam um papel relevante para o carnaval local, algumas das quais pertenciam à antiga comissão organizadora do Carnaval.

    O papel da Real Confraria consiste na preparação da chegada e encerramento do Carnaval (Entronização dos reis/enterro). A produção dos textos da entronização e do julgamento são da sua responsabilidade. A associação marca o início e a finalização do corso, fazendo uma volta apeada pelo percurso.

    Os elementos do grupo envergam um traje de confrade e símbolo próprio.

    O símbolo da associação é o brasão, que, segundo o chanceler (o presidente da associação) representa a sátira do Carnaval de Torres, uma monarquia, que foi criada por republicanos (opositores a esse regime). O brasão é composto pelo penico, sobre ele, uma coroa e, por baixo, duas piaçabas em cruz.

    A associação rege-se pelos estatutos que a definem, assim como pelo regulamento interno (livro das usanças). O “Livro das Usanças” consiste num regulamento interno de funcionamento. Foi criado na direção anterior (2013) na qual são definidos os critérios de admissão de novos membros na Real Confraria do Carnaval e descreve, em detalhe, o ritual de entronização.

    O acesso à Real Confraria é restrito. Para se propor como membro, é necessário pedir a dois Confrades da direção (composta por sete elementos) que seja seu proponente. Se a direção da Confraria, que se intitula de Cúria Régia, concordar, essa pessoa integra o grupo, estando um ano e dois Carnavais à experiência e chamando-se Projeto de Confrade.

    Durante o tempo em que está à prova não pode vestir traje, usando uma faixa onde se lê "Projeto de Confrade", e compete-lhes acompanhar os confrades para se inteirarem das tarefas.

    Após esse período enquanto projeto de confrade, será votado na Assembleia-Geral da Confraria, tendo em conta a sua conduta. Se deu provas que conhece e põe em prática o que está no “Livro das Usanças” e que será um bom impulsionador do “espírito” do Carnaval de Torres Vedras, é admitido, passando a usar o respetivo traje e tomando o nome de Confrade.

    Além da componente da organização, a associação desenvolve ações de divulgação e promoção, nomeadamente em programas televisivos e deslocam-se às escolas com o objetivo de divulgar a tradição associada ao Carnaval de Torres (normalmente um mês antes do Carnaval).



    Associação de Ministros & Matrafonas – é uma entidade, sem fins lucrativos, existe como associação desde 2013, apesar da sua pré-existência como grupo residir no início do século XX, correspondendo à comitiva de ministros que acompanhou a chegada dos reis desde 1923.

    A sua participação consiste em desfilar no corso, uns fantasiados de ministros e outros de matrafonas. Um dos membros da associação tem um papel de destaque no enterro do Entrudo ao interpretar a personagem de viúva do rei. Além disso, a associação desenvolve um programa de animação e dinamização nos lares do concelho de Torres Vedras. Estas ações de animação em lares consistem na representação de pequenas rábulas humorísticas, numa tentativa de “democratização” do espírito carnavalesco a quem não se pode deslocar até à festa.

    Nesta associação, só podem pertencer homens, não sendo permitida a entrada de mulheres, desde a sua origem, porque, segundo o presidente, por um lado, as mulheres não participavam no Carnaval de rua; por outro lado, sendo os membros da presente associação os herdeiros dos ministros da corte, reproduzem de igual modo a tradição que não contava com a presença de mulheres. Essa interdição não está definida nos estatutos por ser anticonstitucional. Na prática, o papel atribuído às damas (mulheres dos ministros) é desempenhado por homens (as matrafonas).

    A indumentária dos Ministros & Matrafonas é composta por dois trajes: o traje do ministro e o da matrafona.

    O papel atribuído ao ministro é desempenhado por homens, atualmente o vestuário parece ter sido inspirado no século XVIII, mas nos primórdios assemelhava-se ao traje militar das tropas de Napoleão.

    O papel atribuído à matrafona é desempenhado por homens, através do vestuário que, nesta associação, se caracteriza por ser um vestido comprido até aos pés como as damas usavam. Neste caso, os homens que interpretam a dama (esposa do ministro) devem assumir o papel de uma mulher “bem comportada”, em conformidade com a sua posição social de dama. O grupo procura que a sua presença em público seja em pares, alguns membros vestem-se de ministro e outros de matrafona.

    A associação prevê as seguintes categorias de sócios: sócios efetivos, auxiliares e honorários. A admissão de associados requer que qualquer pessoa com 18 ou mais anos se proponha e seja admitida pela direção. O candidato será admitido através do voto da maioria dos membros da direção.

    Inspirada na caraça desenhada por Amílcar Guerreiro, o símbolo da associação representa uma figura que é metade homem, metade mulher, indo ao encontro da imagem do grupo que interpretam no Carnaval, o homem e a mulher.



    Associação Carnavalesca Marias Cachuchas – Associação sem fins lucrativos, criada oficialmente, em 2011, composta por um grupo misto composto por cerca de 30 elementos, cujo objeto consiste em promover e divulgar o Carnaval de Torres Vedras, através da participação ativa do grupo neste evento, nomeadamente das mulheres, na medida em que, segundo as fundadoras do grupo, as mulheres são de certa forma marginalizadas do carnaval de Torres Vedras porque não se podem vestir de matrafonas (máscara atribuída aos homens) e não podem integrar associações unicamente constituídas por elementos masculinos como a “Associação de Ministros & Matrafonas”.

    As sócias fundadoras escolheram como fonte de inspiração e símbolo da associação, os cocottes e a figura da Maria Cachucha, uma torriense de nome Maria da Purificação da Silva, que viveu entre 1900 e 1960, e que revelava uma identidade marcadamente masculina por trabalhar no matadouro (um trabalho associado ao género masculino), frequentar tabernas, fumar charuto e ter bigode. A associação carnavalesca rege-se pelos estatutos que a definem, assim como pelo regulamento interno que desenvolveu. O grupo enverga um traje e símbolo próprio.

    O traje adotado pela associação foi inspirado nas roupas utilizadas pela Maria Cachucha, com base na consulta de fotografias da época, o que deu origem a uma versão modernizada da indumentária, de acordo com a seleção dos associados do grupo quanto aos elementos a manter ou excluir. Assim, o traje adotado foi um lenço na cabeça; um bigode; uma camisa, preta, branca, ou aos quadrados (como a Maria Cachucha usava); uma saia de tecido em tons escuros (que se adequasse à época que estaria a retratar); um avental, com o símbolo da Associação estampado no canto inferior direito.

    A proposta de integração de novos associados é feita através de pedido escrito à Direção em impresso próprio para o efeito. Em seguida, é escolhido uma madrinha ou padrinho e o membro fica um ano à experiência, estando obrigado a passar um Carnaval com a associação das “Marias Cachuchas”. Na assembleia-geral, seguinte ao Carnaval, o padrinho menciona qual a prestação do afilhado e os sócios efetivos votam, de acordo com o que foi relatado. No Carnaval seguinte é feita a praxe, que a direção escolheu, que será feita no corso.

    A associação distingue quatro tipos de sócios com características diferentes: as “marias-cachuchas”; as “cachuchinhas”; as “Mariazinhas” e as “honoráveis cachuchas”. Os associados distinguem-se por distintivos identificativos, consoante a sua categoria: o Cocote de cor vermelha - representa a Associação e os Associados Marias Cachuchas, os Sócios Efectivos; o Cocote de cor amarela - representa os Sócios Menores de idade, as Mariazinhas, até que atinjam a maioridade legal; o Cocote verde - representa as Cachuchinhas, os Sócios que entram à experiência para o grupo, e são apadrinhados pelos Sócios Efectivos; o Cocote azul – representa as Honoráveis Cachuchas.



    Lúmbias – Grupo carnavalesco, criado em 1998, compõem-se por cerca de 50 membros, do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 20 e 60 anos.

    “Lumia” (e não lúmbia) em calé ou calon, dialeto ibérico cigano (que deriva do romani) significa prostituta, meretriz. Pelo nome escolhido para identificar a associação, pode-se perceber como os elementos do grupo procuram representar a mulher: envergando roupas curtas e provocadora.

    A maior parte dos membros pertence à corporação dos bombeiros de Torres Vedras, e muitos deles pertenciam aos “Ministros & Matrafonas”, mas que, por divergências internas, decidiram formar a nova associação carnavalesca. As lúmbias constituíram-se como associação sem fins lucrativos, em 2005, tendo, desde esta data, estatutos e regulamento interno, e desde 1998, o intitulado juramento da Lúmbia.

    Existem quatro categorias de associados: sócios fundadores, sócios honorários, sócios de mérito e sócios efetivos.

    Apesar de inconstitucional, o regulamento interno dos Lúmbias, assume que apenas podem pertencer à associação elementos do sexo masculino. Refere ainda que os novos membros têm de ser admitidos por votação unanime em assembleia-geral.

    A fantasia da associação é selecionada anualmente com base nas propostas apresentadas através de votação em assembleia-geral. O traje eleito com mais votos é usado de sexta a terça-feira de Carnaval. Um critério obrigatório é usar cabeleira loura.

    A associação suporta os custos do tecido e acessórios da fantasia mas o custo da confeção do fato pela costureira é pago pelos seus membros, individualmente.

    O grupo acompanha a chegada dos reis desde 2013, data em que o Rei do Carnaval faz parte das Lúmbias. Tal como as outras associações carnavalescas participam no corso, apeados de 1998 a 2005, e desde 2006, na sua carrinha (com reboque). Contudo, o papel de maior destaque ocorre no cortejo do enterro desde a sua formação como grupo, em 1998.

    No âmbito da produção e reprodução da festa, ao nível da comunidade, destaca-se o papel dos Reis do Carnaval e das matrafonas.



    Reis do Carnaval

    Os Reis do Carnaval, cuja origem remonta aos anos 1920, desempenham um papel relevante na festa. Podemos afirmar que são os representantes simbólicos da comunidade durante este período, destacando-se a sua participação na entronização e no corso. De salientar que o rei e a rainha do Carnaval são oriundos da comunidade e ambos do sexo masculino. O seu reinado dura até à abdicação de um deles.

    O processo de seleção do rei e da rainha compete à Real Confraria do Carnaval. A direção propõe os candidatos e, em assembleia-geral, os seus membros elegem por votação os homens que desempenharão esse papel. Escolhem também os títulos reais, que mudam anualmente mesmo que o reinado dure mais tempo, sátiras que, muitas vezes, têm na sua raiz nominal a referência ao vinho. Segundo o chanceler da Real Confraria, são privilegiados homens com idade inferior a 45 anos para permitir reinados longos e que lhes garanta ganhar experiência acumulada em desempenhar a função. A rainha deve ser escolhida também pelas características físicas, tendo como matriz a primeira rainha, interpretada por Jaime Alves.

    A linhagem real teve início em 1923 (sem rainha) e a partir de 1924 (com rainha). Os primeiros representantes foram Álvaro André de Brito (rei) e Jaime Alves (rainha). Pelo que se pode apurar, desde o início até ao momento, existiram poucos mas longos reinados, com excepção de 1983 a 1987 (fruto de reinados instáveis). Genericamente, e se não contabilizarmos esse período, estamos a falar de seis reinados, o que parece exemplificar como o “lugar” é de acesso restrito a algumas famílias. Curiosamente, tal como na monarquia, a sucessão do Rei privilegiou a filiação com João Brandão de Melo (que reinou de 1966-1991), ao qual seguiu o seu filho, Bruno Brandão de Melo (que reinou de 1991-1996); o mesmo episódio sucede com António Miranda (que reinou de 1997-2006), cujo filho Ricardo Miranda lhe sucedeu desde 2007 até à atualidade.

    Os Reis são acompanhados pelos fidalgos, grupo composto por um grupo de amigos do Ricardo Miranda (rei) e Pedro Adam (rainha) com o objetivo de simbolizar as antigas cortes monárquicas, tendo como missão acompanhá-los durante todo o Carnaval. São substituídos quando estes põem fim ao seu reinado. O presente grupo de fidalgos foi criado em 2007, não obstante ter existido um grupo de amigos dos reis no reinado anterior. A sua principal função consiste em acompanhar os Reis na chegada à estação de caminho-de-ferro e durante o corso.

    O presente grupo é composto por 20 homens, em que a média de idades se situa entre os 35 anos.

    Quando os membros dos fidalgos se definiram, aquando da eleição dos reis, em 2007, decidiram mandar fazer uma indumentária própria que os identificasse como grupo, baseando-se para o efeito na iconografia das cortes francesas de final do século XVIII, tal como referido por um elemento do grupo.



    Matrafonas

    Durante o carnaval, a fantasia mais usual e difundida coletivamente entre os homens da comunidade, é a matrafona. A tradição dos homens se mascararem com trajes e acessórios femininos, foi sendo transmitida através das gerações, difundida e veiculada por homens, traduzindo-se numa afirmação identitária da comunidade local.

    A matrafona, cuja origem reside no típico entrudo rural, tornou-se popular em Torres Vedras, em 1926, principalmente após a eleição de uma rainha matrafona, em 1924, o que poderá ter desencadeado um efeito difusor pelos homens, no período carnavalesco, em que a transgressão de regras e a sátira imperam. Talvez, inspirado pela sua rainha (considerada rainha das matrafonas), a tradição manifesta-se como um fenómeno social coletivo e intergeracional.

    A matrafona afirma-se em Torres Vedras, no séc. XX, justificada pelas dificuldades económicas dos homens do campo, que por não terem dinheiro para comprar máscaras, recorriam ao vestuário da esposa ou da mãe, principalmente quando o acesso a máscaras era inexistente ou dispendioso. Contudo, independentemente dos argumentos enunciados, os “homens vestirem-se de mulheres” era uma fantasia frequente e recorrente, enquadrando-se na inversão de papéis entre o género masculino e feminino, testemunho da inversão e transgressão da ordem social, típica do Entrudo.

    A tradição oral diz-nos também que o homem se vestia de mulher para ridicularizar o facto destas não poderem brincar ao carnaval. Paradoxalmente, os homens ganharam o poder de representâ-las, através da matrafona, segundo uma visão hegemónica masculina.

    Assim, a figura da matrafona reveste-se duma grande complexidade, não pelo facto do homem envergar roupas femininas, na medida que, tal como referido, é um hábito que remonta ao Entrudo rural, historicamente reprimido (nomeadamente pela igreja) que exalta em si mesma a transgressão típica da quadra, mas pelas diferentes categorias de matrafonas encontradas, no Carnaval de Torres, no contexto do trabalho etnográfico.

    Pelo que se pode apurar, identifica-se a matrafona “tradicional”, que consiste num homem que se veste de mulher mas que quer parecer homem. Estamos a falar das primeiras matrafonas, referidas por Constância Bataglia, que “procuravam vestir um fato que lhe ficasse horrivelmente mal e feio”.

    Encontramos também a matrafona que denota um maior investimento por parte de muitos homens para se identificarem com um modelo de mulher mais arranjada e “sofisticada”. Recorrem, por isso, ao uso de acessórios e maquilhagem. Colocam seios postiços, usam mini-saias, meias de rede, etc.

    Por fim, a matrafona que consiste num homem que se veste de mulher mas que quer parecer mulher. É o caso das damas da associação dos Ministros & Matrafonas, sempre representadas por homens, e a rainha do Carnaval (que tem como matriz a primeira rainha do Carnaval, Jaime Alves). Para o efeito, recorre-se ao uso de maquilhagem para disfarçar qualquer característica masculina e os homens envergam sempre vestidos compridos.

    Estas tipologias expressam-se ainda em atitudes corporais e condutas comportamentais diferenciadas.

    No primeiro caso, referenciado anteriormente, como matrafona “tradicional”, a mulher é vista e representada pelo homem como uma mulher desleixada, mal vestida, alguns homens ostentam bigodes e pêlos corporais, com propósito humorístico.

    No segundo caso, o homem representa uma mulher libertina, sexuada, provocadora; muitas vezes, o homem depila-se e usa saltos para se parecer mais com uma mulher, exagera no uso da maquilhagem, talvez querendo assumir o papel de uma mulher “mal comportada”, moralmente condenada pela sociedade.

    Por fim, a matrafona que se veste de mulher mas que quer parecer mulher, está essencialmente associada ao papel que esses homens interpretam, como é o caso das damas (dos Ministros & Matrafonas) e a rainha do Carnaval.

    A imagem desta mulher, em oposição às anteriores, é de uma mulher bem-comportada e respeitadora da sua conduta social, acompanhada em público do seu marido (ministro ou rei).

    O homem não pretende assumir uma outra identidade sexual/género, mas trata-se portanto de representar a mulher, satirizando-a. Não é mais do que um jogo de poder e confronto entre “homens” e “mulheres”.

    Os homens, através da inversão do género, ganham o poder de representar a mulher, o que reflete a visão hegemónica masculina. Ora, as mulheres continuam a não ter acesso a determinadas associações carnavalescas, o que, de certa forma, revela a supremacia do poder do homem no processo. As mulheres estão também excluídas de assumir o papel de matrafona, pois a inversão é masculina. A transgressão assenta no homem se vestir de mulher e não o contrário. Assim, durante o carnaval, os homens ganham o poder de satirizar e ridicularizar a identidade, práticas e condutas associadas ao género feminino.

    Em suma, há um reforço do “lugar” e “papel” do homem na comunidade ao definir a(s) imagem(s) da mulher.

    Curiosamente, o contra-poder surgiu há poucos anos com o surgimento do grupo carnavalesco “Marias Cachuchas”, o qual adotou essa figura conhecida localmente, que é o oposto da matrafona (mulher que se assemelha a um homem), questionando a identidade de género e o lugar da mulher no espaço público festivo.



    DEFINIÇÃO E COORDENAÇÃO DO PAPEL DOS INTERVENIENTES NA FESTA

    No âmbito da organização e logística do evento, a empresa municipal, por contar com uma equipa reduzida, é apoiada pela Câmara Municipal com recursos humanos, logísticos e financeiros.

    A organização lidera o processo de envolvimento das associações ou grupos formais que integram a festa, no âmbito da definição e participação do seu papel no evento, nomeadamente: os Ministros & Matrafonas; Lúmbias; Fidalgos e Marias Cachuchas. A Real Confraria do Carnaval, assume o papel de coordenação da chegada dos Reis/ Entronização e Enterro, ainda que em co-parceria com a Promotorres.



    - Preparação da chegada dos Reis/ Entronização/ Enterro

    A Real Confraria do Carnaval é responsável pela organização da chegada/entronização dos reis e enterro do Carnaval, cabendo à Promotorres reunir com essa associação nos dois meses antecedentes ao Carnaval, com o intuito de definir as tarefas e/ou papel de cada uma das entidades, e no mês anterior, com outros intervenientes: os Ministros & Matrafonas; Lúmbias; Fidalgos e Marias Cachuchas.

    Uma das tarefas concertada entre a Promotorres e a Real Confraria tem que ver com a definição dos percursos, na entronização dos Reis e enterro do entrudo, assim como a localização das diferentes associações carnavalescas nos mesmos.

    Compete à Real Confraria endereçar um convite às associações para participarem na entronização, as quais acabam por assumir um papel de meros figurantes.

    Assim, no âmbito da chegada dos reis à estação ferroviária e entronização, destacam-se alguns grupos envolvidos na sua produção e reprodução, a Real Confraria do Carnaval (na esfera da produção) e todos os outros agentes envolvidos no ritual (na esfera da reprodução), designadamente os Reis.

    O papel do Rei e da Rainha continua a ser desempenhado por homens da comunidade, assumindo-se como os atores sociais centrais deste ritual, com destaque para os atributos (reais e simbólicos) que se têm mantido inalterados, desde o início do século XX. Na esfera da produção, destaca-se das principais funções da Real Confraria, a redação dos textos e participação na teatralização da entronização e do julgamento.

    Deve-se referir o papel que a associação protagonizou, em especial no ritual de entronização, engrandecendo a cerimónia com a bênção e coroação dos reis, o que não era formalizado com tal aparato.



    - Preparação do Corso

    O corso é organizado pela Promotorres, decorre nas ruas do centro da cidade, em recinto fechado, sujeito ao pagamento de ingresso. Várias ruas são encerradas ao acesso de viaturas por causa da realização do percurso do corso (diurno e noturno) e para controlo do acesso da zona de bilheteira.

    Incube também à organização proceder à contratação e/ou apoio financeiro dos grupos, que têm como função a animação do corso. Os cabeçudos e os Zés Pereiras, grupos tradicionais de bombos, são contratados para ritmar e animar o desfile do Carnaval de Torres, desempenhando um papel importante no ritmo e sonoridade do mesmo.

    Outros grupos são apoiados financeiramente, é o caso dos cavalinhos, os ribombar e os grupos de mascarados. Os denominados “cavalinhos” são os grupos de bandas filarmónicas do concelho, que desfilam e marcam o ritmo nos diversos corsos. São compostos por sete bandas musicais envolvendo cerca de 140 músicos: Orquestra Sinfónica da Guarda Armada (O.S.G.A); Sociedade Filarmónica Incrível Aldeia Grandense (banda da Aldeia Grande); Sociedade Filarmónica Ermegeirense; Banda da Escola de Música da Casa do Povo de Campelos; Centro Popular de Trabalhadores da Ribaldeira (banda da Ribaldeira); Juventude Musical Ponte Rolense e Escola Padre Vitor Melícias. Os Ribombar são um grupo de percussão, fundado pelo Prof. Joaquim Pinto Gonçalves da Escola Padre Vítor Melícias, com o objetivo de participar no corso, juntamente com as bandas filarmónicas e Zés Pereiras.

    Os grupos de mascarados também contribuem para a animação dos corsos diurnos e noturnos. A organização exige a sua inscrição e paga 6€ a cada elemento do grupo pela participação no corso. O número de grupos tem crescido ao longo dos anos. Estaremos a falar de cerca de 45 grupos com 2000 figurantes, que investem o seu tempo e dinheiro na conceção e realização de máscaras alusivas ao tema de cada Carnaval. Provenientes das várias freguesias do concelho, participam e integram o corso, juntamente com as associações carnavalescas, os cabeçudos, os Zés Pereiras, e os reis do Carnaval.

    Por fim, a organização reúne, no mês anterior ao carnaval, com as associações carnavalescas que irão participar nos desfiles do corso, para fazer uma coordenação com os diferentes intervenientes, e uma semana antes do Carnaval com os grupos de mascarados, que se inscrevem anualmente para animar o recinto do corso, basicamente com o objetivo de aferir o número de elementos em cada grupo. A organização dá conhecimento da escala de participação dos sete grupos de bandas filarmónicas do Concelho (intitulados cavalinhos) e do grupo Ribombar.

    Incumbe igualmente à organização, o acompanhamento do processo da produção de carros alegóricos, elementos centrais no desfile do corso.



    Carros alegóricos

    A construção dos carros alegóricos é sujeita a um processo de consulta às empresas do sector, de acordo com o tecto orçamental definido pela Promotorres, sendo posteriormente feita a seleção com base nas propostas apresentadas pelas diversas empresas. Importa referir, que no lançamento do concurso, já é definido o nº de carros (oito), a tipologia do carro, de grande, média ou pequena dimensão, definida de acordo com o chassis (estrutura base do carro), assim como o valor máximo para cada tipologia de carro. Os chassis são aproveitados de uns anos para os outros, por vezes existe o reaproveitamento de materiais, que passam a ser reutilizáveis com base numa reparação ou pintura. De acordo com a temática, são produzidas esculturas em fibra de vidro para a produção dos carros (respeitando, em geral, os projetos aprovados na fase do concurso/adjudicação).

    Aos carros alegóricos e a sua tipologia está associado um tipo de carro temático: política internacional, política nacional, desporto, local.

    O estaleiro da CMTV é cedido para a produção dos carros alegóricos, que por serem em fibra de vidro, são executados em menos tempo do que a técnica em pasta de papel, demorando cerca de três semanas a um mês.



    A FESTA

    Tal como referido anteriormente, o Carnaval é uma manifestação social, performativa e ritual, protagonizada por toda a comunidade, independentemente da proveniência geográfica, de género ou idade, que se encontra fortemente enraizada no referencial identitário coletivo, tendo sido transmitida e recriada de geração em geração.

    A festa de rua, que remonta ao início do século XX, e que se tem perpetuado e recriado ao longo de gerações (reflexo de uma festa viva) estrutura-se em três momentos-chave: 1) a chegada dos reis à estação ferroviária/ entronização; 2) os corsos e o 3) enterro do Entrudo (na quarta-feira de cinzas).



    1) CHEGADA DOS REIS/ ENTRONIZAÇÃO

    A população aguarda o momento da chegada dos reis à frente da estação ferroviária do caminho-de-ferro de Torres Vedras e vai estendendo-se pelos passeios da rua 5 de outubro.

    Defronte da estação, já se encontra a recentemente intitulada, Banda Real da Ribaldeira, que vai tocando e criando um ambiente festivo. Dois homens do grupo dos Ministros & Matrafonas dançam, envergando o seu traje, um deles interpreta a figura do ministro e o outro de matrafona. O ministro ostenta a bandeira do grupo.

    Entretanto, chegam à estação alguns elementos da Banda Ribombar (que pela sua indumentária, nos remete para o imaginário dos cortesãos medievais). Em seguida, chega ao largo da estação a Real Confraria do Carnaval (com o seu traje, a preceito), muitas matrafonas, e por fim, os cabeçudos.

    Dois cocheiros conduzem a charrete puxada por dois cavalos, que enquanto aguardam a chegada dos Reis, vão dando algumas voltas à rotunda da estação perante o olhar da audiência. Um cavaleiro noutro cavalo, na dianteira, parece indicar o caminho a seguir. Chegando à hora da partida, a charrete transporta os Reis, da entrada da estação até ao mercado municipal.

    O cortejo obedece a uma teatralização e segue uma formalidade, mais ou menos flexível, uma vez que os grupos de associações que participam neste ritual, têm o seu lugar definido no circuito e aguardam o momento de entrada no cortejo para desempenharem o seu papel, acompanhando os reis, até à chegada ao mercado municipal (onde terá lugar a entronização).

    Entretanto, é formado um corredor ordenado, por onde passarão as suas altezas, constituído por alguns elementos do Ribombar, os Fidalgos e a Real Confraria do Carnaval.

    Os bombos de Sta. Maria Jazente de Amarante e os cabeçudos abrem o cortejo, seguido pelo cavaleiro que ostenta um estandarte do Carnaval de Torres.

    Segue-se a Real Banda da Ribaldeira, alguns elementos da Banda Ribombar, que fingem tocar torpeta como que anunciar a chegada dos reis. São lançados foguetes e o cortejo parte da estação ferroviária.

    Seguem-se os elementos da Real Confraria do Carnaval, um dos elementos ostenta o estandarte identificativo da associação, e atrás de si, cinco elementos transportam os símbolos referentes à presente cerimónia, em almofadas (da mesma cor do traje da confraria), engrandecendo a sua importância: o livro com o discurso da entronização; o penico com a vassoura (para a coroação dos reis); corno; coroa (do rei); e abanico (símbolo da rainha). Atrás da Real Confraria do Carnaval, surgem os Fidalgos trajados a século XVIII (vestidos de branco, com perucas brancas e chapéu tricórnio e óculos escuros). Por fim, depois dos Fidalgos, e antecedendo a charrete dos reis, seguem-se os dois elementos provenientes da associação Ministros & Matrafonas (um ministro e uma matrafona) envergando a sua bandeira identificativa.

    O Rei e a Rainha, acenam aos seus súbditos (os populares que se encontram pelas ruas onde passa o cortejo). Partindo da estação, descem a rua 5 de outubro, onde a O.S.G.A. (banda filarmónica dos bombeiros) e os restantes elementos da associação de Ministros & Matrafonas, que os aguardavam na rua Miguel bombarda (à frente dos antigos paços do concelho) vão ao encontro da comitiva real pela rua Serpa pinto. Juntos descem a rua Paiva de Andrade, a rua José Eduardo César, descem a rua Serpa pinto, entrando na rua Miguel Bombarda, sobem a rua 9 de abril, onde se juntaram os Lúmbias (mascarados a mãe natal) e, por fim, entram na avenida Ten. Col. João Luís Moura, onde se situa o mercado municipal. Os Reis saem da sua charrete e dirigem-se a pé para o palco onde irá decorrer a sessão de Entronização.

    A população que seguia a charrete adensa-se à multidão que já se encontra no largo do mercado e vai assistindo, através de um ecrã gigante instalado no palco, à sátira e ironia de alguns episódios nacionais (como o caso judicial de Sócrates). Após o visionamento, a Real Confraria do Carnaval toma o seu lugar no palco e protagoniza o ritual de Entronização dos reis.

    Os Reis, em rigor ainda príncipes, são chamados ao palco pela Real Confraria do Carnaval que, mediante uma sátira de “entronização” e/ou ritual de bênção, coroa o Rei e a Rainha, com os seus atributos reais (coroa) e simbólicos (corno e abanico).

    O Chanceler da confraria afirma: “Habemus Reis! Habemus Reis povo folião!

    Fazei vir perante nós o servo do Carnaval de Torres que ungido pela folia será Rei deste Carnaval mais português de Portugal!” Acrescenta o Faz-Tudo (outro membro da confraria):

    “Príncipe! Prostrai-vos em genuflexão perante a grandeza do Carnaval de Torres, o mais português de Portugal!”

    Avançam quatro confrades que transportaram as almofadas com os símbolos dos reis.

    O Chanceler da Real Confraria humedece a piaçaba na água do penico, “benze” o rei, que se encontra de joelhos e que, em seguida, é coroado.

    O Chanceler profere as seguintes palavras:

    “Manifestis probatum est que sois ungidos pelos sinais da folia da nobre e mui gentil gesta do Carnaval de Torres e por isso, em nome dos súbditos passados, presentes e vindouros, vos outorgamos este privilégio de serdes Rei do Carnaval de Torres e fiel guardiã do seu espírito com o nome de DOM TINTOL AMA TROIKA JAMAIS”

    Por fim, é-lhe entregue o corno, que o Rei enverga mostrando à população, que rejubila.

    O Faz-tudo interpela:

    “Temos de arranjar Rainha para fazer este rei feliz, noite e dia, copo a copo.”

    Ao que o Chanceler responde:

    “Fazei vir perante nós o servo do Carnaval de Torres que ungido pela folia será Rainha deste Carnaval mais português de Portugal!”

    Em seguida, repete-se o ritual para a Rainha, é ungida com a piaçaba e após a coroação, recebe o abanico, que o exibe à multidão entusiasta.

    O faz-tudo afirma:

    “Princesa! Prostrai-vos em genuflexão perante a grandeza do Carnaval de Torres, o mais português de Portugal!”

    O Chanceler conclui:

    “Manifestis probatum est que sois ungidos pelos sinais da folia da nobre e mui gentil gesta do Carnaval de Torres e por isso, em nome dos súbditos passados, presentes e vindouros, vos outorgamos este privilégio de serdes Rainha do Carnaval de Torres e fiel guardiã do seu espírito com o nome de DONA ALVARINHA LOVESTORY DE TANGUINHA.”

    Segue-se o discurso do Sr. Presidente que, usualmente, culmina com a entrega das chaves da cidade.

    Por fim, o Chanceler anuncia:

    “Bom povo do Carnaval de Torres! Escutai agora as elevadas palavras de Suas Majestades DOM TINTOL AMA TROIKA JAMAIS E DONA ALVARINHA LOVESTORY DE TANGUINHA.”

    O rei conclui o ritual dando início ao período da folia. O poder está simbolicamente invertido.



    O ritual de chegada dos reis/ entronização marca o início do período carnavalesco, baseado numa inversão do(s) poder(es) sociais, seja através da leitura do discurso satírico proferido pela figura do ministro, nos seus primórdios, ou na entrega das chaves da cidade pelo Presidente da Câmara Municipal aos Reis do Carnaval de Torres.

    A receção dos reis, remonta ao início do século XX, consistia num cortejo real acompanhado pelos ministros e as suas mulheres (matrafonas) e a banda filarmónica dos bombeiros, que tinha início na estação ferroviária e seguia até ao centro histórico (com passagem obrigatória pelas associações recreativas).

    Os filmes da década de 1930 que documentam este ritual, mostram-nos ainda que os reis assistiam à leitura do discurso pela figura do primeiro-ministro, momento satírico e de inversão do poder.

    A tradição do cortejo dos reis poderá ter sido inspirada na tradição existente em lisboa desde 1904 até cerca de 1930. Não obstante, pela investigação efetuada, acreditamos que a importância dada à chegada dos reis da estação de comboio e o cortejo que se segue pela cidade terá sido inspirado num episódio histórico local, a chegada de comboio de D. Manuel II a Torres Vedras em 1908 (no âmbito da comemoração do centenário da batalha do Vimeiro), o qual terá sido replicado e encenado satiricamente no período carnavalesco.

    Recordemo-nos que o surgimento do Carnaval de rua foi impulsionado por uma elite local republicana, que aproveitara o período carnavalesco para ridicularizar e satirizar os aparatos e protocolos reais. O evento da visita de D. Manuel II foi coberto pela imprensa nacional e não passaria indiferente à população local, refere o Occidente:

    “À chegada do comboio real a Torres Vedras, cerca das 10 horas da manhã, aguardavam Sua Magestade na estação, todas as autoridades militares, eclesiásticas e civis da terra, o sr. Governador civil, administradores dos concelhos de Torres e Lourinhã, e grande quantidade de gente, em que as pessoas mais qualificadas da vila do seu concelho se confundiam com os humildes filhos do povo, todos na ancia de vêr o seu novo rei e de lhe prestarem suas carinhosas homenagens, espontâneas e sinceras, em calorosas aclamações e palmas com que o receberam” (Occidente, nº 1068, 30 de Agosto de 1908).

    Assim sendo, parece-nos que a origem deste ritual assentará numa combinação entre a reprodução de uma tradição existente em lisboa com a memória social de um evento local, tendo sido apropriada pelos atores sociais até aos dias de hoje.

    Os Reis partiam de Runa e chegavam de comboio até à estação de Torres Vedras, até cerca de 1980, altura em que os horários do comboio foram alterados, inviabilizando essa possibilidade. Após alguns anos de interrupção, o ritual voltou a ser encenado a partir da estação de caminho-de-ferro de Torres Vedras.

    O cortejo parte da estação dos caminhos-de-ferro até à praça do mercado municipal, onde se realiza, desde 2010, a entronização, cerimónia introduzida e protagonizada pela Real Confraria, cujo texto e performance ritual se encontra descrito no livro das usanças, e culmina na entrega das chaves da cidade ao Rei, prática já existente.

    O ritual da entronização traduz-se na bênção e coroação do Rei e a Rainha com os seus atributos reais (coroa) e simbólicos (corno e abanico), mediante uma sátira encenada de “entronização”. Interessa salientar a simbologia associada aos atributos escolhidos, envergados pelos reis, desde o início do séc. XX: o “corno” simboliza poder, virilidade, fertilidade, daí ser um símbolo escolhido pelo Rei que toma o poder durante a quadra carnavalesca. Popularmente, o corno simboliza traição, ou seja, a vítima de traição. Contudo, simultaneamente, e tendo em conta o período, o corno tem que ver com a sátira e crítica social; o “abanico” da rainha representa o leque usado pelas damas, também condensando uma forte crítica social associada à ostentação da monarquia ociosa do Antigo Regime.

    No acto da bênção, destacam-se dois símbolos, o penico e a vassoura ou piaçaba, cuja origem radica em razões de foro político. Ora, o penico serve para se defecar (guardar dejectos), possui uma carga simbólica no contexto do Carnaval, que, segundo algumas interpretações, representa uma crítica e sátira à monarquia (que só fazia porcaria). Os republicanos (os piassabas), limpavam essa porcaria.

    No acto da coroação, o atributo real incorporado na coroa, simboliza o poder régio, o qual é atribuído figurativamente aos reis na tomada do trono, na inversão dos papéis típicos da quadra, substituindo o poder local municipal, encabeçado na figura do presidente da Câmara.

    Após a coroação, segue-se o discurso do Sr. Presidente, legitimador da passagem de poder dos reis durante o reinado do Carnaval e que, usualmente, culmina com a entrega das chaves da cidade. Este ano, o presidente da Câmara Municipal entregou a tesoura ao Rei (numa alusão aos cortes do governo).

    Em seguida, o rei anuncia, segundo as suas palavras: a abertura oficial do Carnaval. Dá-se início ao retorno de um tempo e espaço, o da desordem e transgressão, licenciosidade e excessos (nomeadamente do álcool) que prevalece e se repete anualmente até à renovação da ordem social. Desde que se realiza a entronização, o discurso é escrito e proferido pelo presidente da Câmara, cabendo ao rei apenas anunciar o início da folia.

    Os textos inicialmente eram escritos por um elemento da comissão do Carnaval, Sr. Joaquim Paulo, e era lido pela figura do primeiro-ministro. Mais tarde, o guião ficou a cargo do Dr. Jaime Umbelino e ainda dos anteriores reis Miranda e Mima, sendo lidos aquando da entrega das chaves.



    2) CORSO

    Os corsos carnavalescos, copiados dos modelos carnavalescos urbanos de Lisboa, Porto e Coimbra, que por sua vez replicam os modelos franceses e italianos dos corsos de Nice, Paris ou de Veneza, surgem, em Torres Vedras, na década de 1930, dos grupos sociais emergentes, como resposta aos velhos padrões do Entrudo rural e popular.

    Parece-nos evidente que Torres Vedras tenha sofrido influências de Lisboa, dada a proximidade com a capital, nomeadamente na construção dos carros alegóricos ou nos enfeites de rua, paralelamente ao seu crescimento industrial e comercial, alimentado por uma elite local com gostos mais burgueses.

    A primeira batalha de flores em Lisboa terá sido realizada em 1887 e terá entrado em declínio no início da década de 1930. No ano seguinte, realizou-se, em Torres Vedras, na Av. 5 de outubro, em recinto fechado, revertendo o lucro desse ano a favor da colónia balnear infantil, na praia de Sta. Cruz.

    A organização do desfile competia a associações ou entidades da terra, cuja vertente pecuniária associada ao evento, revertia em favor da beneficência local, tal como acontecia noutras partes do país.

    Apesar de ser assumidamente um corso burguês, que aspira modernidade, o arremesso de objectos existente no entrudo permanece, substituindo-se a farinha, ovos, laranjas, por cocottes, serpentinas ou flores, mais ao gosto e requinte das classes mais abastadas. A batalha de flores é um exemplo paradigmático do jogo/luta e brincadeiras do entrudo mas expressada de uma forma sofisticada. Contudo, este novo Carnaval ostenta barreiras físicas e económicas à participação popular, estes assistem ao desfile enquanto as classes mais abastadas afirmam o seu “status quo”. Não obstante, no circuito do corso de Torres Vedras não existem barreiras físicas, entre participante e espectador, talvez, porque este Carnaval seja um sucessor de tradições entrudescas (Sardinha). De facto, ainda hoje, podemos encontrar nos desfiles do corso a intensa participação popular, as mascaradas, as partidas de rua, os homens e rapazes disfarçados de mulheres (matrafonas) referido por Sardinha. Essa espontaneidade toma conta da rua, os “foliões” não são meros agentes passivos mas participam espontaneamente nos desfiles, procurando surpreender e, nalguns casos, “provocar” os espetadores.

    Esta espontaneidade manifestada pelos foliões no Carnaval da cidade é visível: “essa circulação [das pessoas] é desejável para a animação do desfile e assim vemos os mais variados foliões nos espaços entre os carros, fazendo a sua festa, exibindo as suas máscaras e facécias, pregando as suas partidas, enquanto simples curiosos, mesmo à paisana, podem ir ao lado dos mascarados, por simples prazer, para desfrutar o ambiente e gozar os pormenores”. Sardinha (2000)

    Sendo mais procurado por turistas (oriundos fora da comunidade), o desfile do corso, é o palco, por excelência, para a exposição de uns e contemplação de outros, e simultaneamente, surge como um espaço privilegiado para a afirmação identitária e simbólica entre grupos. É pois, o momento tão aguardado pela comunidade para exibir as suas máscaras e fantasias, as suas performances e códigos, cujo papel é desempenhado pelos diferentes grupos carnavalescos.

    Existem dois elementos estruturais neste corso: os cabeçudos e os carros alegóricos (e a sua sátira política e social). Os cabeçudos acompanham os Zés Pereiras (grupo de bombos de Amarante) desde a chegada dos reis à estação à animação do corso. O grupo de cabeçudos de Torres Vedras faz a primeira aparição no corso escolar. Hoje existem 12 cabeçudos, seis cabeçudos acompanham o grupo de bombos de Figueiró e outros seis cabeçudos acompanham o grupo de bombos de Jazente. Os bonecos são feitos em fibra de vidro e atingem quase o dobro da altura de uma pessoa. A estrutura assenta numa armação em madeira, presa através de umas presilhas aos ombros e cintura do porta-cabeçudos, de forma a suportar o peso do cabeçudo. Cada cabeçudo pesa cerca de 13 kg, sendo que a figura do diabo pesa mais.

    A cabeça do cabeçudo é de grandes dimensões assim como as suas mãos, descaídas devido ao seu peso, e que balanceiam, à medida que o porta-cabeçudos, (nome dado ao homem que carrega o boneco) dança ao ritmo dos bombos.

    Originalmente, o porta-cabeçudos, estava completamente escondido debaixo do fato do cabeçudo. No entanto, hoje a sua cabeça é visível, vislumbrando-a, numa viseira de rede feita para o efeito. Os bonecos atingem quase o dobro da altura de uma pessoa, quando os homens carregam o boneco, cuja estrutura assenta numa armação em madeira, presa através de umas presilhas aos ombros e cintura, de forma a suportar o peso do cabeçudo.

    Os primeiros cabeçudos terão surgido no Carnaval de Torres, em 1937, pelas mãos de dois dos artistas que mais de destacaram na década de 1920/1930 pela construção de cabeçudos e carros alegóricos: Luís Faria (pintor artístico) e Amílcar Guerreiro (artista plástico) autor do logótipo da caraça do Carnaval de Torres.

    Francisco Porfírio (Chico da Bola) aprendeu a arte com o “mestre” Luís Faria (como o chamava) produzindo durante vários anos os gigantones e cabeçudos, recorrendo à técnica artesanal, em papelão (ou pasta de papel). Atualmente, devido à evolução dos materiais, são feitos em fibra de vidro, o que torna o boneco mais leve.

    Os cabeçudos continuam a desempenhar o seu papel marcando o ritmo e a animação no Carnaval de Torres Vedras, fazendo lembrar as ruidosas arruadas do Entrudo português.

    Outro elemento de animação e sátira são os carros alegóricos que desfilam em todos os corsos (com exceção do corso noturno) e contam com tripulação de dezenas de voluntários, destacando-se o carro dos reis do Carnaval, pela carga simbólica que encerram nesta quadra. Durante o desfile, os tripulantes dos carros vão arremessando cocotes ao público, que os vai apanhando do chão e volta a atirá-los para os remetentes.

    Durante os anos de 1930 os carros alegóricos eram de particulares ou de casas comerciais como os Hipólito ou o Chagas. As fotografias dessa época mostram-nos carros rurais feitos de madeira e puxados por juntas de bois.

    Muitos dos carros alegóricos produzidos desde a década de 1930 eram da responsabilidade da comissão de festas. Construídos pelo mestre Luís de Faria ou Amílcar Guerreiro sendo admirados pela multidão pela sua excelência artística.

    A temática dos carros estava ligada essencialmente ao contexto social local, destacando-se a publicidade das casas comerciais, o imaginário rural, ressaltando o tema do vinho, e outros temas que primam mais pela originalidade e humor do que pela sátira. Após a morte do mestre artístico Luís de Faria, em 1966, a comissão contrata para a produção dos carros, o Sr. Heitor (que fazia cenários para o teatro Maria Vitória no Parque Mayer), mais tarde, Marques Alves (ceramista das Caldas da Rainha) e Sousa Mendes.

    Assiste-se a um desenvolvimento tecnológico associado aos carros alegóricos, tanto nas técnicas utilizadas na sua produção como ao nível mecânico. Os carros passam a ser puxados por tratores, em seguida, motorizados e mais tarde, automotorizados. É durante a década de 1980 que, segundo José Pedro Sobreiro (artista plástico que realizou os projetos dos carros alegóricos entre 1981 e 1993 e ainda em 2001) se verificaram as maiores mudanças na construção dos carros alegóricos devido aos novos materiais disponíveis como a esferovite que permitia fazer mais facilmente “bonecos”. Nesta fase, poderemos dizer que a sátira política começa a surgir nos carros alegóricos, pois como afirma o nosso informador, a sátira política requer figuração. Deve-se ter em conta também, que o carro é uma exposição pública, visível, e assim sendo, só depois do 25 de Abril havia mais liberdade e espaço para a sátira e crítica social.

    Tradicionalmente, os carros eram construídos com madeira, cartão e gesso. A partir dos anos 1980, ocorre uma mudança de técnicas na construção dos carros alegóricos, recorrendo-se à esferovite. O uso desse material vai permitir uma maior mobilidade e facilidade em termos de execução, possibilitando a construção de trabalhos mais volumosos, isto é, “escultóricos”. A evolução dos materiais, tal como a esferovite, liberta tempo para a criação de figuras, favorecendo-se a crítica social e política.

    É também nesta altura que os carros têm por base o chassis (estrutura base do carro), transformando-se em viaturas automotorizadas, que chegaram até aos dias de hoje. Na altura contava-se com 12 carros alegóricos, que pelo recurso à esferovite permitia que o trabalho fosse mais uniformizado. Até aí, o maior investimento de tempo era dedicado ao carro dos reis. Nos finais da década de 1990, ocorre outra modernização das técnicas, introduzindo-se a fibra de vidro, as resinas sintéticas, os polietilenos, que dão mais durabilidade e resistência às peças. As primeiras empresas que trabalharam com estes novos materiais foram a “Guliver” e a “Vértice”. Destaca-se o nome de Bruno Melo (neto de Luís Brandão de Melo).

    A fibra de vidro é o material de eleição das empresas locais contratadas, desde a década de 1990. O processo da técnica da construção dos carros alegóricos é semelhante à produção de esculturas em fibra de vidro (ver anexo – produção de cabeçudos em fibra de vidro).



    Corsos diurnos

    Os corsos diurnos, ocorrem no domingo e terça-feira, pelas 14:30h, e evidenciam características similares. Assiste-se ao desfile pedonal de grupos de mascarados, associações carnavalescas (Real Confraria; Ministros & Matrafonas; Lumbias; Marias Cachuchas), cabeçudos, Zés Pereiras, bandas de música (cavalinhos), foliões espontâneos e matrafonas.

    Abrem o corso, os Zés Pereiras (com os seus bombos) e os cabeçudos, em seguida, os grupos de mascarados desfilam, intercalados com os carros alegóricos e as bandas de música (banda de música de campelos, banda de ponte de rol, S.F.I Aldeia Grandense, O.S.G.A, Ribombar). Os bombos de Sta. Maria Jazente, originários de Amarante, e Santiago de Figueiró, originários de Adrede, participam no Carnaval (desde a década de 1960), fazendo ecoar os seus bombos pelas ruas da cidade, de forma frenética, tendo como função abrir corsos e acompanhar os cabeçudos.

    Atravessam o corso ainda alguns foliões mascarados e matrafonas que se exibem pelas ruas. Os Ministros & Matrafonas desfilam alegremente, em pares, como manda a tradição. A associação das Marias Cachuchas também marca presença no desfile. A Real Confraria e os Fidalgos precedem o carro real, onde se encontram os Reis do Carnaval, que vão acenando à multidão. No final dos corsos, surge o To’ Candar, que percorre as ruas da cidade, atraindo os jovens a segui-lo, dançando e cantando ao ritmo das músicas.

    O To’ candar (trio eléctrico), criado em 2000, Consiste numa importação do trio elétrico originário do Carnaval da Baía, adaptado em Torres Vedras por um autocarro de dois andares, intitulado “To’ Candar”. Este autocarro está adaptado com aparelhos de sonorização para difusão de música brasileira, através de alto-falantes.

    Atualmente, além do corso diurno tradicional, existem outras tipologias, o corso noturno e trapalhão, que se revestem de características diferenciadoras, tanto quanto aos agentes participantes como relativamente à audiência ou ao público que assiste.



    Corso noturno

    O primeiro corso decorre às 21:00h de sábado, consiste num desfile pedonal em que os grupos de mascarados são os protagonistas e exibem as suas fantasias, pela primeira vez, visando a participação no concurso dos mascarados, o qual é promovido pela organização. Conta principalmente com a participação e envolvimento dos foliões locais, que provêm das diversas freguesias do concelho.

    Os grupos de mascarados, consistem em grupos de amigos, informalmente organizados, que se reúnem com meses de antecedência em casas de uns e outros, para conceberem máscaras e adereços, de forma a participarem no concurso que premiará os melhores grupos.

    Os grupos de mascarados procuram produzir as suas próprias máscaras/fantasias, de acordo com a temática anual, visando a originalidade do resultado final, o qual é exibido e votado durante o desfile do corso. Um dos prémios atribuídos aos grupos de mascarados é entregue pela Confraria, que faz parte da equipa dos júris nos concursos do desfile de Carnaval.

    Os materiais mais usados são a esferovite (leve e versátil), a madeira, o plástico, e os têxteis. Associada à construção das máscaras gera-se uma dinamização da economia local, destacando-se as lojas de tecidos, cuja faturação aumenta exponencialmente nessa altura do ano.

    Não obstante, outros grupos, já adquirem fatos carnavalescos em lojas da especialidade assim como recorrem à internet para comprar acessórios.

    Deve-se referir que existe um secretismo associado à mascara/fantasia e uma competição entre os vários grupos de mascarados, que culmina na participação do concurso de mascarados. Estamos a falar de grupos que participam anualmente no desfile do corso, não obstante a entrada de novos grupos, o que segundo informação da organização, se tem registado, o que parece revelar que os indivíduos anseiam ter um papel ativo no corso.

    Além dos grupos de mascarados, nessa noite só é permitida a presença dos Cabeçudos, Zés Pereiras, que abrem o corso, a banda da Ermegeira, o carro alegórico dos reis e o To’ candar (trio eletrico), que encerra sempre os desfiles.

    Participaram, no ano de 2015, 45 grupos de mascarados (2000 figurantes).



    Corso trapalhão

    O corso trapalhão decorre na segunda-feira pelas 21:00h. Este formato de corso está vocacionado para os foliões espontâneos, que não estão enquadrados em nenhum grupo formal mas que gostam de mostrar as suas máscaras e fantasias. Estas manifestações fazem-nos recordar as representações e exibições teatrais, oriundas das cegadas e/ou contradanças, que existiam em todo o país, durante o Entrudo, que Sardinha (2000) descreve persistir no Carnaval de Torres: “assim vemos um equilibrista montando uma bicicleta do princípio do século, um mascarado passeando uma cabra, um médico e um enfermeiro trazendo o doente numa maca e fazendo pequenas representações em que o «doente» lhes prega as mais variadas partidas, assim vemos as figuras mais populares de todo o Carnaval, as «matrafonas», rapazes e homens disfarçados de mulheres, que em grupo se passeiam, exibindo os seus dotes de feminilidade e provocando toda a gente…”

    O corso vive do envolvimento de todos os participantes e assume-se como um espaço de afirmação identitária inter-grupal dos torrienses e dos agentes que produzem ou reproduzem a festividade como as associações carnavalescas, os reis, ou os foliões espontâneos e matrafonas que se exibem perante os olhares da audiência, e afirmação intra-grupal entre os vários agentes, em especial, os grupos de mascarados, que mediante o concurso de mascarados competem entre si, reforçando simultaneamente os laços sociais dos grupos.



    3) QUEIMA OU ENTERRO DO ENTRUDO

    Designa-se de Entrudo, ao boneco, símbolo da quadra, tradicionalmente feito de palha, que é queimado anualmente na quarta-feira de cinzas, após o julgamento e a leitura do testamento.

    A queima ou enterro do entrudo encerra os folguedos do Carnaval, encontrando-se presente no Entrudo dito rural ou tradicional, prática que sobreviveu no Carnaval urbano de Torres Vedras.

    Em muitos locais, o enterro do Entrudo, que se realiza de acordo com a tradição na noite de quarta-feira de cinzas, toma designações variadas, como João, na zona limítrofe do Porto, ou Carlos também na zona norte de Portugal. Na região saloia há quem lhe chame Enterro do Bacalhau ou simplesmente Enterro do Carnaval.

    Esta prática ritual, designadamente o julgamento e a queima do entrudo, visavam, na sua origem, a punição dos pecados, expurgação e purificação da comunidade/sociedade.

    O ritual do enterro inicia-se com o cortejo fúnebre, que parte do centro histórico até ao largo frontal do tribunal, sendo composto pelo julgamento e testamento (aos quais subjaz o momento de crítica política e social), culminando com a condenação do rei à morte e a queima do boneco que o personifica (queima do Entrudo).

    No que diz respeito ao julgamento e enterro do Carnaval, destaca-se a participação da Real Confraria que organiza o espetáculo, em cooperação com a Promotorres (esfera da produção) e os atores sociais envolvidos na teatralização do cortejo e julgamento, designadamente a associação “Lúmbias” e os “Ministros & Matrafonas” (no âmbito da reprodução). Marca presença ainda a banda filarmónica da Ermegeira, responsável pela sonoridade fúnebre durante o cortejo.

    A personagem central do condenado é interpretada pelo Rei (que tradicionalmente incorpora os males da comunidade). Não menos importante, o carrasco, membro da associação Lúmbias, que o acompanha durante o cortejo até ao tribunal, e após o julgamento, até ao local onde simbolicamente será queimado.

    A viúva, interpretado por um homem da associação de “Ministros & Matrafonas” lamenta-se e grita, acompanhada por carpideiras, cujo papel está a cargo das Lúmbias, durante o percurso do cortejo até ao tribunal, onde decorrerá o julgamento.

    A produção do boneco do entrudo foi executado por Chico da Bola, em pasta de papel, até ao seu falecimento após o carnaval de 2015.



    Cortejo fúnebre

    Pelas 21:00h, de quarta-feira de cinzas, a multidão concentra-se na praça da república (onde se localiza o monumento), aguardando a chegada do rei (condenado).

    A carrinha das Lúmbias abre o cortejo fúnebre, em seguida, avistam-se os membros da Real Confraria, e, por fim, surge uma carroça, puxada por um burro, que transporta o rei, a viúva e o carrasco.

    A personagem central é o condenado, interpretada pelo rei do Carnaval, que faz a sua aparição de túnica branca comprida e com barrete na cabeça da mesma cor, com uma forca à volta do seu pescoço. O carrasco que o detém, com ar sisudo e de respeito, segura a corda e acompanha-o até ser simbolicamente queimado.

    A personagem da viúva é interpretada há vários anos por um dos membros da associação “Ministros & Matrafonas”, o “corneta”, que tem um papel de destaque no cortejo do enterro. Compete a essa “personagem” a teatralização pelo destino que irá ter o seu rei, chorando e gritando. Os membros dos Lúmbias, vestidos de preto, completam/complementam o ambiente de luto, carregando os archotes acessos e lamuriando-se.

    Os elementos da Real confraria, acompanham o cortejo em silêncio e transportam velas acesas. Não usam o traje oficial mas identificam-se por ter um blusão laranja.

    O cortejo fúnebre, parte do largo de S. Pedro, sobe a R. Serpa Pinto, passa pela praça da República, onde a maior parte das pessoas está reunida e acompanha a restante procissão, que desce pela R. António Batalha Reis até ao largo do Tribunal da cidade, onde já centenas de pessoas escolheram o melhor lugar para assistir ao julgamento.



    Julgamento

    O carrasco, envergando uma capa preta, leva o rei até ao palco, onde se procederá ao seu julgamento, perante uma representação cénica de um julgamento, simbolicamente localizado defronte do verdadeiro tribunal da cidade.

    A cerimónia é uma sátira de um julgamento, presidido por um juiz, condenado e testemunhas, onde os acontecimentos que tiveram maior destaque, no âmbito local, nacional e internacional, serão alvo de crítica social e política.

    A crítica local visa essencialmente enunciar e humorizar os temas mais fraturantes e/ou que foram mais sujeitos a crítica social. Não são feitas críticas individualizadas a pessoas da comunidade, a não ser que, no âmbito das suas funções, este tenha algum poder como é o caso do edil ou a instituição que o representa, a câmara municipal.

    A representação cénica do julgamento simula uma sala de tribunal. Perante a mesa do juiz, no lado direito, encontra-se o rei condenado (junto ao carrasco) e, no lado esquerdo, existe outra mesa, onde estão as três testemunhas. As viúvas estão sentadas entre o juiz e as testemunhas.

    As viúvas são protagonizadas por homens, a rainha do Carnaval e “o corneta”, que envergam o luto com longas roupagens pretas, tendo inclusivamente um chapéu com rede que lhes cobre o rosto.

    O juiz usa toga e cabeleira loura, dá início à audiência, em seguida, cada uma das testemunhas, encarna uma personagem caricaturada, e compete-lhes ler o guião denunciando em público a crítica social e política, o que faz rir a audiência.

    A matriz do julgamento e testamento radicam no tradicional entrudo português. “As «pulhas» de carnaval, ou de entrudo, consistem em provocar uma pergunta em jeito de brincadeira (quase sempre indiscreta ou maliciosa), a que se dá uma resposta já preparada no mesmo tom de gracejo”, refere-nos Barros e Costa (2002). A crítica social local funcionava como uma catarse coletiva, na qual se fazia referência aos comportamentos ou condutas, consideradas menos próprias.

    Hoje em dia, em Torres Vedras, o julgamento (em anexo) mantém a componente de crítica social mas não incide na conduta moral dos indivíduos como no passado terá feito.



    Leitura do testamento

    O juiz anuncia que o rei será condenado devido ao mau comportamento e por isso irá ser queimado na fogueira, resta-lhe ler o seu testamento.

    O testamento consistia tradicionalmente numa crítica social local, que deixava recados para toda a vila, a pessoas particulares ou autoridades locais, o qual era lido duma forma irónica e jocosa. Os versos começavam sempre “Deixo a …” como se pode ler nos testamentos, de 1937 a 1995, publicados por Jaime Umbelino.

    A estrutura formal do conteúdo do testamento de 2015, é uma estrofe composta por quatro versos com rima alternada/cruzada, à exceção da primeira quadra.

    Personalidades como Jaime Umbelino, Manuela Roque, Maria João Rodrigues, António Cruz, Luís Alberto Passos Novas e, mais recentemente, Carlos Miguel (presidente da Câmara Municipal de 2003-2015) foram alguns dos autores de testamentos lidos no enterro.

    Segundo pudemos apurar, atualmente, a autora do discurso do enterro é uma mulher mas a sua identidade não é revelada, mantendo-se um mistério.

    Transcrição do testamento lido pelo Rei:

    Nada mais me resta do que deixar o meu testamento:

    Deixo-vos o BES e as continhas para pagar,

    O Ricardo a sacar,

    Os submarinos a afundar,

    As luvas a voar e muita gente a mamar

    Sei que haviam outros lambões

    que queriam ser contemplados,

    em futuras doações,

    quem sabe serão lembrados?!



    Espero assim morrer em paz,

    pois tudo o que tinha, dei!

    Penso que fui um bom rapaz,

    mas enquanto pude, bebi, saltei e ferrei…



    Se alguém ficou zangado ou chateado

    Não se queixe a este tribunal,

    E se alguém não foi lembrado,

    Paciência…é Carnaval.



    Bem-Hajam,

    Viva ao Carnaval de Torres!



    Queima do Entrudo

    O rei será julgado, em nome dos pecados da comunidade e, após a leitura do testamento, será simbolicamente executado através do fogo (símbolo da purificação).

    O boneco é uma efígie humana que representa simbolicamente o rei condenado.

    Van Gennep recorda que o suplício do fogo era aquele que frequentemente se aplicava às bruxas. Contudo, a fogueira onde se queima o Carnaval, nada tem de ritual, tendo apenas uma função judiciária.

    O primeiro boneco do Entrudo foi construído pelo Sr. Francisco Porfírio (mais conhecido por Chico da Bola) em 1944. O boneco chegou a ser feito em palha (como os bonecos tradicionais). Nessa altura, iam ao Ti Gregório e à Casa Gonçalo, na praça da batata, buscar a palha para encher o boneco. Em seguida, apesar de ser difícil, era inserido o rastilho com bombas, e depois, o boneco era vestido. Os fatos eram cozidos com linha e agulha.

    Atualmente, a cabeça do boneco continua a ser feita em pasta de papel, mas a há cerca de 17 anos (1998) que é feita uma armação de ferro (verguinha), no qual se coloca o rastilho com bombas.

    Após a leitura do testamento, o carrasco acompanha o rei até à praça da Liberdade, onde irá decorrer a queima do entrudo.

    Sobre dois paus verticais assenta um barrote de madeira horizontal, no qual o boneco é pendurado pelo pescoço, por uma corda, simulando um enforcado.

    O boneco, armadilhado com material pirotécnico, é incendiado, fazendo rebentar as bombas no seu interior, ecoando-se sucessivos e barulhentos estrondos até à sua destruição total pelo fogo.

    A festa conclui-se com fogo-de-artifício.

    O local do enterro foi durante muitos anos no largo de S. Pedro e largo da Graça. Pela informação que dispomos, pelo menos desde o início do século XX, que o enterro do entrudo se realizava na cidade de Torres Vedras, paralelamente ao programa de festejos. Uma notícia de época faz referência ao enterro de 1908: “Na quarta feira ainda se realisou o enterro do entrudo no qual tomou parte um numerosos grupo que percorreu desde as 8 da noite até cerca das 10 horas as principaes ruas da villa acompanhando de uma música que tocava uma marcha fúnebre em passo cadenciado e levando n’um esquife a figura do Carnaval que terminou os seus dias de 1908, n’uma fogueira acesa no largo da Graça. A esta romaria fúnebre não faltou grande número de devotos que em magotes o acompanhou (…)” (“Folha de Torres Vedras” de 8 de Março de 1908).

    Concluindo, como tentámos demonstrar o processo de produção e reprodução do carnaval de Torres Vedras, ao qual está associado uma forte componente identitária e simbólica expressa na vivência e envolvimento da comunidade, relaciona-se com várias dimensões da sociedade: ritual/performativa; institucional/política; mediática/turística; económica/financeira, social/identitária e simbólica.

    Desde cedo, a organização dos festejos mobilizou a sociedade civil, algumas personalidades ilustres encabeçaram as comitivas de festas, cuja receita angariada revertia para a beneficência local. A componente técnica e artística inerente à construção de carros alegóricos envolvia também a participação voluntária de artífices, pintores e/ou artistas locais. A festa de rua reinventou-se com nova vitalidade após o período da segunda guerra mundial considerando-se, já na altura, que o Carnaval possuía características especiais e constituía uma fonte económica e turística importante para a região, querendo já afirmar-se com um modelo mais profissionalizado. Pela primeira vez a organização de caracter amador fora questionada devido aos encargos financeiros que o evento acarretava passando, em 1985, a uma estrutura de cariz mais profissional, a cargo da Câmara Municipal de Torres Vedras e, em 2000, da empresa municipal Promotorres. O Carnaval institucionaliza-se.

    Até então os agentes que produziam o Carnaval eram os mesmos que participavam na festa, os quais acarretaram inclusivamente prejuízos financeiros mudando-se o paradigma para uma organização de um evento, gerido pela Autarquia, pelos serviços de Cultura e Turismo, ainda que com a participação da comissão de festas. Os carros alegóricos começaram também a ser executados por empresas especializadas.

    Esta institucionalização atinge a sua maior expressão com a gestão do evento pela Empresa Municipal, que não só possui um orçamento para a sua execução como visa a obtenção de receitas provenientes nomeadamente dos ingressos vendidos no corso e o merchandising da marca oficial do Carnaval, entretanto criada.

    Além da institucionalização da festa, o evento ganhou uma dimensão que fez desaparecer outras manifestações carnavalescas residuais que ocorriam nas freguesias em redor da cidade de Torres.

    A imagem do Carnaval é promovida pelo Município de Torres Vedras, reafirmando-se como um dos eventos mais importantes do Concelho, em termos económicos e turísticos, e com maior projeção mediática a nível nacional.

    Contudo, Logo já no início do séc. XX, o Carnaval de Torres Vedras tinha adquirido projeção nacional, graças ao marketing poderoso da década de 1930. Este evento foi considerado cartaz turístico da região e desde cedo apoiado pela Comissão de Turismo. A estratégia de comunicação e marketing foi sempre crescendo, ao longo dos anos, desde os filmes do Carnaval da década de 1930, aos folhetos distribuídos ilegalmente em lisboa pelas comitivas organizadoras, à sua difusão através dos jornais, rádio e televisão, ou mais recentemente, até à criação da marca oficial do Carnaval pela Promotorres.

    Sob o slogan “o Carnaval mais português de Portugal”, o evento ganhou uma grande atratividade atingindo milhares de visitantes todos os anos, motivado pela proximidade geográfica e características diferenciadoras do mesmo (segundo os motivos de escolha pelos inquiridos no estudo do impacto económico do IPL, em 2013), enquanto a noite é procurada, essencialmente por jovens que procuram diversão.

    Todos os anos são realizadas comitivas a Lisboa, cerca de uma semana antes do Carnaval, que contam com a presença dos Reis, todos os grupos carnavalescos e alguns elementos dos grupos de mascarados. Contudo, a promoção do Carnaval de Torres Vedras em Lisboa não é um fenómeno recente. As precedentes comitivas do Carnaval já se deslocavam à capital promovendo o evento. A monumentalidade dos elementos carnavalescos como os carros alegóricos com a sua carga satírica, as matrafonas, considerada imagem de marca do Carnaval, ou o “monumento” na praça central, cuja inauguração atrai o interesse dos órgãos televisivos, remete para a dimensão mediática do evento, um produto televisionado (como refere Raposo) apetecível na sociedade atual devido à dimensão de espetáculo e mediatização que o evento alcançou, o qual é indissociável da dimensão turística e económica. Nos últimos anos, a Promotorres tem demonstrado preocupações com o impacto económico do Carnaval na comunidade, tendo sido encomendado um estudo, em 2013, ao Instituto Politécnico de Leiria. O estudo visava, por um lado, justificar o investimento feito no evento, financiado pelo Município, e por outro, perceber, através da aplicação de um inquérito, o modelo de previsão de crescimento do Carnaval.

    Segundo o estudo supramencionado, o Carnaval tem um impacto económico direto (gastos efetuados durante o evento público e pelos figurantes) na economia local de Torres Vedras de cerca 9 milhões de euros, concluindo que o Carnaval é um bom investimento para o concelho.

    Analisando o investimento feito no carnaval de 2010 a 2016 (anexo) verifica-se que, em termos gerais, o investimento no Carnaval aparentemente sofreu com a crise financeira nacional, com uma quebra em 2011 face ao ano anterior, que se agudizou nos anos de 2012 e 2013, subindo paulatinamente de 2014 a 2016.

    Genericamente, as despesas dizem respeito à produção do evento (grupos de mascarados, carros e monumento, transporte de crianças para o corso escolar, grupos de animação, equipamento de som, licenças SPA e Passmusic); logística inerente ao evento (vigilância e bilheteiros, polícia e segurança publica, contentores de wc e bilheteiras, limpeza, refeições e honorários) promoção/publicidade. Não se encontram descritas todas as rubricas, por exemplo, a linha de merchandising que tem aumentado, estará contabilizada na rubrica outros. No entanto, é evidente que o maior investimento é canalizado para a construção de carros alegóricos e do monumento, registados nos anos de 2010 a 2016.

    Deve-se ter em consideração que o montante financeiro canalizado para o Carnaval constitui um bom meio de avaliar a sua importância e poder simbólico que justifica a produção e reprodução da festa ao longo de gerações.

    Esse poder simbólico do Carnaval exige a participação de toda a sociedade, o que parece refletir-se nas inúmeras associações e grupos carnavalescos que não param de surgir. O Carnaval afirma-se assim como a festa mais importante no referencial identitário da comunidade, visível no capital económico, social e simbólico associado à sua (re)produção, tendo atraído sempre pessoas envolventes da sociedade local, e continuando a ser palco de protagonismos, solidariedades e tensões sociais.

  • Manifestações associadas:
    Atualmente, durante esta época festiva, existe a tradição dos foliões passarem por uma antiga mercearia da cidade, designada de "Caravela" e beberem um “cup”, uma das suas especialidades.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: Apesar de todos os indivíduos da comunidade poderem ser considerados agentes de transmissão da tradição; destaca-se o papel dos homens da comunidade que continuam a reproduzir a tradição de se vestirem de matrafona, cujo papel foi sendo instituído e incentivado entre o grupo de foliões do sexo masculino, veiculando-se essa tradição como uma prática grupal entre homens e inter-geracional. Os Reis do Carnaval, cujos códigos e comportamentos no desempenho das suas funções são transmitidos e apreendidos pelos indivíduos que ocuparam o lugar anteriormente. Sendo um dos papéis com maior visibilidade externa (mediatização) e carga simbólica na afirmação da tradição do Carnaval pela comunidade, aspetos como a sua aparência física (potenciado pela maquilhagem), o saber andar, acenar, beber ou comunicar são valorizados. O testemunho passado pelos anteriores reis é consumado na transmissão dos atributos reais (coroas) e simbólicos (corno e abanico). Em suma, existe uma incorporação de um “habitus” associado ao papel dos reis, que tenta assegurar a continuidade e preservação da sua imagem.
    Data: 2016-02-05
    Modo de transmissão oral
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Todos os indivíduos da comunidade podem ser considerados agentes de transmissão da tradição.
  • Origem / Historial:
    O popular entrudo português, das ruidosas e sujas manifestações de rua, assaltos e cegadas, vai dar lugar a um Carnaval burguês, que emerge no final do século XIX, de uma elite comercial e industrial, que procura afirmar o seu “status quo” através do requinte e bom gosto. Torres Vedras não é alheio a este fenómeno, importando modelos e influências exteriores do novo Carnaval ao mesmo tempo que persiste o tradicional entrudo rural.

    A primeira referência conhecida dos festejos do Entrudo em Torres Vedras, data de 1574, trata-se de uma queixa apresentada por Jerónimo de Miranda, morador na então vila de Torres Vedras, contra uns jovens que corriam o galo dia de entrudo trazemdo rodelas, espadas, paus, como testemunha um documento da Chancelaria de D. Sebastião:

    “Dom Sebastyam, etc. faço saber que Jeronimo de Miranda, morador em villa de Torres Vedras me enviou dizer per sua petyção que andando os moços folgando com hum gualo dya d’emtrudo que ora oasou de LXXiiijº, trazemdo rodellas, espadas, paaos como costumão o tall dya os moços para matarem o guallo amdamdo Johão, irmãao delle suplicante na volta por não ter outra cousa que levar se não hua bestynha de pelouro, a levava e por não ter pelouro lhe posera huu torrão de call na corda e imdo todos com gramde matynada de folguar pasamdo pela porta do mestre de gramatyca homde o dito Joham, seu irmão, hapremdya cheguarão outros moços d’outra escolla he aly se hajuntarão huus com outros homde tyverão os seus pasatempos e brimcos de brigas sobre o guallo comosempre ouve e temdo o dito Johão a besta na mãao armada elle lhe dise que trase ao gualo e em lhe dizendo isto em zombaria e por rirem tomou a besta ao dito Johão seu irmão que tynha o dito torrão na corda e por desastre tyramdo ao guallo hacertara de dar com elle em huu moço per nome Johão, criado de Jurdão Luis, barbeyro, morador na dita villa em hum beiço, etc. Dado em Almeirim a XXIX de Março de jbc LXXIIIjº. (ANTT – Chancelaria Régia. D. Sebastião e D. Henrique: Legitimações. Liv. 16, fl. 168)

    Contudo, importa referir que o hábito de “correr o galo” era comum em outras regiões do país e, além disso, não se pode afirmar que o Carnaval contemporâneo vivido em Torres Vedras tenha origem e/ou remonte nesta tradição do Entrudo.

    Durante o séc. XIX, até cerca de 1920, o Carnaval era celebrado em casa de particulares e nas sociedades recreativas, cujos programas carnavalescos consistiam em bailes, teatro e récitas. Assim, à exceção de um ou outro folião mascarado, não haviam festejos de rua no Carnaval.

    Existem, inclusivamente registos jornalísticos que evidenciam o contraste entre a pouca animação de rua e a animação e os divertimentos dos grémios e salões de coletividades.

    “Prometti na minha ultima chronica descrever o nosso Carnaval, não é verdade? Pouco trabalho terei. A pacatez de aldeia não desmanchou nada o nosso aquilibrio moral de província, nem me consta até hoje, que dos bailes no Grémio resultasse algum duello (…) pois muito bem; o nosso Carnaval foi nas ruas simplesmente detestável, faltando-lhe mascaras e…espírito (…) à direcção do Grémio de Torres Vedras devo a gentileza de me fazer passar três noites divertidíssimas. Dançou-se muito e riu-se demasiado talvez!” Martinho Torres, in “Neophito”, nº 5 de 15 de Março de 1892

    Contudo, é interessante ressalvar que algumas brincadeiras de Carnaval como lançar “pulhas”, não eram bem vistas pelas autoridades e opinião pública, e por isso, parecem não merecer a atenção dos jornais da época, como se comprova no Edital, mandado afixar pelo então administrador do concelho, António Joaquim Gonçalves Rosa:

    “Constando-se que em diversos logares d’este concelho alguns indivíduos mal intencionados têm por uso e costume lançar pulhas, empregando expressões injuriosas e offensivas da moral publica; faço saber que prohibo expressamente o referido abuso e que os transgressores do disposto n’este edital serão presos, autuados e remettidos ao poder judicial, para serem punidos como desobedientes aos mandados da auctoridade”. Edital de 24 de Janeiro de 1900 Torres Vedras (mandado afixar pelo então administrador do concelho, António Joaquim Gonçalves Rosa)

    Apesar de se estipular o “nascimento” do Carnaval de rua, em 1923, evidenciaram-se dois momentos anteriores a essa data (1908 e 1912), em que as festividades de rua tiveram grande expressividade, fenómeno que parece estar associado à elite republicana local, que aproveita o Carnaval, período favorável à crítica e sátira, para fazer uma caricatura ao contexto político-social nacional e local. O assassinato de D. Carlos, em 1908, é um episódio marcante na vivência do Carnaval de rua em Torres Vedras, como evidenciam as notícias do jornal local “Folha de Torres Vedras” desse ano em contraste com as do ano anterior.

    Em 1907, lê-se na folha de Torres que o “Carnaval das ruas sensaborão como de há muitos anos …” deveria acabar “em proveito dos divertimentos dos clubes e theatro, em que se resumirão as festas carnavalescas” (17 de Fevereiro de 1907) enquanto em 1908, lê-se: “Sahindo da costumada insipidez em que tem jazido há muitos annos n’esta villa, o Carnaval lá se mostrou este anno menos carrancudo, apresentando-nos algumas mascaradas que, parodiando grupos políticos e assumptos typicamente locaes, vieram encher o ventre de riso ao torreense pacato e desacostumado a passar horas de franca alegria e hilaridade na época de Entrudo.” (8 de Março de 1908).

    Se em 1908, um grupo de mascarados satirizaram os franquistas, em 1912, parodiavam as tropas contra-revolucionárias de Paiva Couceiro. Esta última manifestação mereceu destaque na “ilustração Portuguesa”, cuja legenda referia: “Em Torres Vedras: Paródia carnavalesca «Invasão dos Paivantes» o exército afuguentado pelo «Zé Povinho», que lhes atira uma bomba de 5 reis”.

    Influenciados pelos cortejos que os estudantes faziam em Lisboa, por volta da década de 1920, grupos de rapazes, já organizados numa comissão, puseram em marcha os cortejos e burricadas de rua: “umas escassas duas dúzias de cavaleiros de cara pintada a vermelhão e grandes bigodes feitos a pó de sapato, montando velhos burros e alguns novos cavalos precedendo um desconjuntado trem onde um barbado rei, de piaçaba em punho, espargia a multidão que gargalhava a sua passagem” (“A Hora”, jornal ilustrado português republicano independente, nº 43, Lisboa, Janeiro de 1937).

    “Até aos anos 20, o Carnaval torriense consistia em dispersas, variadas e espontâneas actividades: enfarinhar o cabelo das raparigas; atirar saquinhos de grainha, tremoço seco e farinha; “assaltos” em grupo a casas particulares; alguns grupos de rapazes percorrendo as ruas em trens abertos, carroças e galeras (de tracção animal); umas burricadas e a visitas a colectividades locais” Festas do Carnaval – subsídios para a sua história” in Badaladas (10-02-1984)

    O Carnaval de rua ganha outro protagonismo no ano de 1923, em que se realizou a primeira receção ao Rei do Carnaval, na estação de caminho-de-ferro, seguindo-se um cortejo carnavalesco pela vila, com paragem em cada coletividade. No ano seguinte, associar-se-ia ao Rei a Rainha do Carnaval, figuração levada a cabo também por um homem, interpretada por Jaime Alves, reconhecidamente um dos grandes animadores dos primeiros tempos do Carnaval de Torres Vedras organizado. Seguindo a rainha, um séquito, um conjunto de ‘ministros’ acompanhados por um ‘cardeal’, um ‘bispo’, um ‘cónego’ e um ‘acólito’. Estes últimos desapareceriam no ano seguinte, devido a pressão política.

    Os festejos são filmados por Otto Liebell (técnico alemão responsável pela instalação pública da luz elétrica em Torres Vedras).

    Apesar do crescimento da importância do Carnaval de rua, as coletividades não perdem o seu “lugar” e denota-se a importância desta quadra dentro das outras celebrações, como assinala Célia Reis (1993): “O Carnaval ocupava um lugar importante dentro das quatro festividades, quase ritualizadas, nestas sociedades: as celebrações prolongavam-se mais do que as do Ano Novo, Páscoa e Natal, apesar dos elementos serem semelhantes: bailes e teatro, de acordo com as características de cada casa”.

    O Casino e o Grémio Artístico Comercial surgiram no início do século, destacando-se a primeira por ter uma clientela mais seleta, depois surge a Tuna Comercial Torreense (inicialmente ligada aos empregados do comércio mas mais tarde frequentada por todas as classes). Posteriormente, inaugura-se na cidade salas de cinema como o animatógrafo e o Teatro-Cine Ferreira da Silva, os quais também desenvolvem programas especiais para esta quadra.

    O Carnaval vai assumindo a sua importância refletindo-se, nomeadamente, em 1925 e 1926, quando aparecem anúncios ao Carnaval na imprensa.

    Entre 1926 e 1928 surgem as primeiras matrafonas (homens mascarados de mulher), que, segundo alguns, teve a sua origem nas dificuldades económicas dos homens do campo, que por não terem dinheiro para comprar máscaras, recorriam ao vestuário da esposa ou da mãe.

    “O costume dos homens se mascararem de mulheres já existia nalgumas aldeias do concelho, onde os homens do campo, com poucas posses, recorriam às roupas velhas das mulheres e a caraças feitas de caixas de sapato para se mascararem, de forma barata, durante o Entrudo.” Matos (2000)

    A implantação da ditadura militar, em 1926, e consequente censura, levou ao abrandamento da crítica social, e mesmo, ao cancelamento dos festejos em algumas ocasiões (1927, 1928 e 1929). Durante esse período, os festejos do Carnaval foram desviados das ruas para as coletividades e casas particulares.

    O Carnaval urbano afirma-se como um recurso económico e turístico da região, nomeadamente a partir da década de 1930, onde se evidencia claramente um investimento na chamada “propaganda”, contribuindo para que este adquira prestígio e fama. Aliás, visível desde logo na cobertura jornalística que desvia o seu interesse dos programas nas associações recreativas, para destacar a festa de rua (chegada dos reis, corso, carros alegóricos, batalha das flores).

    “Torres Vedras desde há seis anos que é uma das terras da província onde melhor e mais se tem festejado o Carnaval (…) Este ano, nas ruas estão-se empenhando os maiores e melhores esforços para que os festejos a S. M. D. Carnaval VII sejam mais pomposos do que os dos anos anteriores.

    De ano para ano tem aumentado a visita de forasteiros e, este ano, já nos consta que muitos e muitos mais virão para observar o cortejo carnavalesco que tem um vasto e bem elaborado programa” (…) “Por isso, não só a mocidade torreense mas sim todos os toreenses, devem prestar todo o auxilio e o melhor esforço possível para que as festas a S. M. D. Carnaval VII e que se realizam na segunda-feira “gorda”, sejam revestidas do maior brilhantismo o que muito virá a contribuir para que Torres Vedras continue marcando o seu lugar de destaque!” O Jornal de Torres Vedras (7 de Fevereiro de 1932), 3, nº 133, p.4.

    No auge do que Venerando de Matos (1998) chama de «época de ouro» do Carnaval, Torres Vedras almeja afirmar-se e posicionar-se como a terra de província onde “melhor e mais se tem festejado o Carnaval”, procurando atrair forasteiros numa altura em que declina a importância do Carnaval de Lisboa e se dá a emergência do Carnaval da periferia como o de Estoril, Torres Vedras e Loures. Acabando por ser assumido, num jornal local, pela primeira vez, em 1933, o título: “O Carnaval em Torres Vedras é o melhor do paiz!” (Alta Estremadura, 10 de Fevereiro de 1933).

    Mas, porventura, o que mais contribuiu para a propaganda terão sido as inúmeras produtoras de filmes que se deslocaram à cidade, nessa década, como a Torres Filme, a Sonoro Filme e a Lisboa Filme, para captar, em movimento os cortejos carnavalescos, que seriam posteriormente exibidos nas salas de cinema da capital.

    “O modelo de aproximação cinematográfico é o do documentário de actualidades e o corso é filmado também como objecto de um certo investimento artístico modernista. Os artistas envolvidos nesta primeira fase – Amílcar Guerreiro, Luís Faria, Celestino Munõz, entre outros – são profissionais do ramo artístico e sofreram as influências da estética dominante na realização de eventos desta natureza – o decor cenográfico, algum excesso ornamental e um cuidado com os pormenores figurativos remetam esta estética dos carros alegóricos deste período para uma representação teatralizada” Raposo (2000).

    A par do registo visual das festas, são elucidativos os esforços empreendidos pelos organizadores em divulgar o cartaz dos festejos do Carnaval de Torres, seja através de reclames luminosos, na distribuição de milhares de programas através de um avião no distrito de Lisboa e Leiria, ou na sua promoção em Lisboa através do carro régio de 1933 (o “elefante”) até à sua divulgação na rádio e imprensa nacional.

    Enfim, podemos afirmar que a campanha de marketing do Carnaval como ex libris da cidade (Reis 1993) iniciada nos anos 20, assume o seu esplendor em 1930.

    “Ousadamente, sem receio de contradita, dizem os grandes reclames colocados nos largos mais centrais da vila; os programas artísticos que vão ser espalhados aos milhares; os reclames luminosos que num rasgo de modernismo foram postos nas duas principais entradas da nossa terra: O CARNAVAL EM TORRES VEDRAS É O MELHOR DO PAIZ!”

    “É evidente e natural que o reclame, ou por outra, a quantidade e qualidade do reclame, aumenta progressivamente de festa para festa, o que quer dizer que este ano vamos ter, e até já temos, melhor e maior propaganda:

    Distribuição de muitos milhares de programas artísticos e populares, a qual será feita, por intermédio dum avião, gentilmente pilotado pelo aviador civil de Torres Vedras, José Augusto Mendes, por várias terras dos distritos de Lisboa e Leiria.

    Afixação de grandes cartazes artísticos e de reclames luminosos, nos principais centros da vila.

    Ida a Lisboa e mais terras do distrito, do grandioso Elefante que no ano passado serviu de carro régio, como meio importante de difusão de programas.

    Descrição das festas, já prometida, por intermédio de alguns postos importantes de T.S.F..

    Descrição dos festejos, já assegurada e iniciada, por intermédio dos principais jornais de Lisboa, do Porto e da região. Filmagem das festas por um dos melhores operadores de Lisboa.” Alta Estremadura (1934).

    Até 1940, os festejos carnavalescos, como cartaz turístico, atraem cada vez mais forasteiros de todo o país, ganhando uma projeção a nível nacional e desempenhando um papel cada vez mais importante na economia local.

    “Torres, hoje, precisa já do seu Carnaval, e não estará longe o dia em que precisará dele tal como hoje carece de vender o vinho da sua região (…) E o próprio paiz que pode vir a ter em Torres o seu Carnaval – O Carnaval de Portugal!” In Linhas de Torres, 1935 Contudo, as décadas de 40 e 50, do séc. XX, vieram a revelar-se um período muito conturbado, a fase de propaganda (Matos 2000) chegava ao fim.

    Entre 1941 e 1945, não houve Carnaval devido à 2ª guerra mundial. Voltou a realizar-se em 1946, mas sofreu interrupções em 1953 e 1954 e entre 1956 e 1960. As proibições na realização dos “folguedos de Entrudo”, fizeram com que estas fossem remetidas novamente para as colectividades, apesar de, em 1942, as pressões pela interrupção se estenderem inclusivamente às sociedades recreativas (“A voz do Concelho” de 29 de Jan. de 1942).

    Destaca-se o ano de 1948, pela intenção no “ressurgimento” da vitalidade do Carnaval de Torres, ao seu tempo áureo precedente, estimulado pela comissão de festas no envolvimento da comunidade.

    O jornal local “O Torreense” coloca na íntegra o ofício enviado pela comissão de festas, presidida por um conjunto de pessoas da terra: Luís Brandão Pereira de Melo, Anselmo Alves, António Augusto Baptista, Joaquim Alfredo Gomes dos Reis, José Gregório Lourenço Júnior, incentivando os interessados a participar na festa de Carnaval através de uma cotização, de forma a poder realizar as festas “como antigamente”, o que tinha sido interrompido durante a 2ª guerra mundial. (“O Torreense”, de 22 de Fev. de 1948).

    Segundo parece, surge também, nesse ano, a “pandilha”, um grupo de teatro que percorria as coletividades locais durante a quadra, fazendo crítica social e política, na senda do tradicional Entrudo rural, o que se pode traduzir noutro sinal de vitalidade.

    “A pandilha (…) que retomará alguma da componente crítica e transgressora do antigo Entrudo rural, sendo até algumas vezes “intimidada” pelas autoridades locais. De algum modo, este grupo de foliões espontâneos percorria as colectividades apresentando números próximos do modelo das tradicionais cegadas” Raposo (2000).

    Ao longo da década de 1950, só nos anos de 1950, 1951, 1952 e 1955 se realizou o Carnaval nas artérias da cidade. Entre 1956-1960 as festas são mais uma vez remetidas para as coletividades.

    Em 1955, Umbelino, redige um artigo no local jornal Badaladas, no qual realça a importância de revitalizar o Carnaval, tendo em conta a sua antiga tradição e o seu caráter benemérito:

    “Não pretendemos fazer a apologia do Carnaval. Pretendemos apenas lembrar aos nossos conterrâneos que a sua ressurreição não será apenas a realização de um capricho de meia dúzia de foliões que pretendem divertir-se. Nada disso! A sua ressurreição, embora com dificuldades, não tem para eles mais que estes dois fins: fazer reviver uma já longa e antiga tradição, que a última guerra veio interromper; angariar fundos para a manutenção de uma obra que merece o nosso carinho e que, tendo sido criada, tendo sido posta de pé, à custa de muito trabalho e sacrifício, precisa agora de meios necessários para a sua continuidade (…) Mas, prezados conterrâneos, por que não havemos de trocar o pretérito pelo futuro, um futuro muito próximo já, e não havemos de dizer, cheios de confiança: o Carnaval de Torres será tudo aquilo que já foi e mais o que, com a nossa boa vontade, com o nosso esforço, com os nossos sacrifícios, nós quisermos que seja!” (Umbelino, 1955).

    Denota-se um novo impulso por fazer “renascer” o espírito carnavalesco do passado, a 4 de Março de 1959, quando um “grupo de amigos do Carnaval” convoca uma sessão no teatro-cine com o objetivo de reanimação do Carnaval.

    Foram exibidos três documentários cinematográficos dos tradicionais festejos carnavalescos, realizados nos anos de 1934, 1935 e 1936, apelando ao saudosismo da plateia; no palco estiveram presentes os Srs. Augusto Rafael da Silva Miranda, na qualidade de vereador e presidente da comissão de turismo, Francisco Boaventura Alves da Silva, presidente da Associação de Educação Física, Luís Brandão Pereira de Melo e Francisco Duarte Paulo, membros das antigas comissões e ainda Francisco Vieira Jerónimo. Nessa assembleia “o orador [Luís Brandão Pereira de Melo] apresentou as principais bases em que devem assentar as futuras organizações, entre as quais considerava indispensáveis, o amparo das entidades oficiais, a quotização voluntária de todos os torrienses, o patrocínio das firmas comerciais e industriais, com apresentação dos seus carros de reclamo, a colaboração das Associações locais, da imprensa (…)”. Lembrou que o Carnaval de Torres, considerado no seu tempo o melhor do País, podia voltar a sê-lo “pois era diferente de tudo quanto se fazia e tinha características especiais”. Por fim, foi escolhida a comissão para organizar o Carnaval de 1960.

    “(…) este segundo momento de ouro (1959-1974) foi clara e paradoxalmente um período muito mais inventivo, mais amador, menos organizado, mais espontâneo, permeável às lutas de poder e de afirmação deste ou daquele grupo ou personalidade”. Raposo (2009).

    Após o arranque das festas, em 1960, ocorre uma interrupção dos festejos, em 1962, devido ao início da guerra colonial. Em 1965, deu-se o arranque definitivo, ano em que a “Física” tomou à sua responsabilidade a organização desta festa, tendo à frente uma comissão de cerca de 20 pessoas, presididas por António Maria de Sousa, e na qual se destacavam nomes como os de António Leal d’ Ascensão, João Carlos, António Hipólito Júnior e José António Marques.”

    É neste período que surgem, pela primeira vez, os Zés-Pereiras (1960), homens que se deslocam anualmente de Amarante, tocando bombos e tambores para ritmar e animar o desfile do Carnaval de Torres. Realiza-se o primeiro concurso público de desenhos de carros alegóricos (1966), o primeiro passeio auto-trapalhão (1971) onde os participantes tinham de ir mascarados e, no âmbito da comemoração do 50º aniversário do Carnaval, promove-se o primeiro concurso fotográfico (1972). Dá-se o regresso da “pandilha”, que percorria as coletividades locais, nas noites das segundas-feiras de Carnaval, onde se realizavam os bailes. O grupo manteve-se em atividade até cerca de 1990.

    Kropotkine Vicente dos Santos foi o grande dinamizador da “pandilha”, destacando-se do grupo algumas personalidades: Jucelino Batalha, Stélio Justino Batalha (conhecido por se mascarar de polícia sinaleiro), Francisco Porfírio (conhecido por “Chico da Bola”), Fernando Leiria, Augusto Cândido, Carlos Alberto Miranda, Jorge Ferraz, Pedro Calado e Luís Manuel Correia (conhecido por “corneta”, que personifica a viúva no enterro do Carnaval).

    O “rejuvenescimento” e “dinamismo” do Carnaval torreense, fruto da sua reanimação em 1959, é notório em 1968, como atesta Venerando de Matos, no seu artigo publicado no jornal O Século:

    “A construção e organização de cerca de duas dezenas de carros alegóricos e outros divertimentos decorre em ritmo acelerado e entusiástico, nas oficinas gerais da Fonte Nova, desta vila, sob a direcção técnica do mestre Heitor e do construtor sr. José Moleiro, que estão dando aos carros notável nível artístico e folclórico. Haverá carros representativos dos costumes da vila e concelho, carros regionais, de figuras típicas, de motivos orientais e muitas surpresas (…) Um numerosos exército de operários e construtores está confeccionando cabeçudos, gigantones e outras figuras típicas da corte do “Rei Mono”, bem como mais de 10 toneladas de “confetti”, saquinhos e outros motivos, para as duas grandiosas batalhas de flores (…) Numerosas costureiras e outros artífices estão confeccionando os trajos e adereços costumados (…) As orquestras, bandas, bandinhas, ranchos e pandilhas e Zés-pereiras estão ensaiando os seus infernais números e marchas ruidosas. As Colectividades estão a enfeitar os seus salões para as cerimónias carnavalescas e para os bailes de máscaras e outros folguedos”. Venerando Ferreira de Matos, “O Entrudo em Torres Vedras – trabalha-se na preparação dos festejos carnavalescos” in O Século de 6 de Fevereiro de 1968.

    Segundo Matos (2007) o Carnaval foi-se assumindo, cada vez mais, como um Carnaval popular e de massas, comparando com outros Carnavais urbanos da época, “mais burgueses e menos irreverentes como acontecia então com o do Estoril.”

    Devido à revolução de 25 de Abril de 1974, os festejos carnavalescos de rua não se realizam nos três anos seguintes, voltando a ser celebrado em 1978.

    De 1978 a 1983, o Carnaval foi organizado por uma comissão com o apoio da Câmara Municipal e os lucros desses festejos reverteram a favor do Asilo de São José. Em 1984, o Carnaval não foi festejado devido às grandes cheias que provocaram danos e prejuízos no concelho.

    Em 1985, o então vereador da cultura António Carneiro (de 1983-1997), propõe que seja a Câmara Municipal a organizar o Carnaval, com o apoio do turismo da região Oeste. Com o modelo centralizado e gerido pela organização municipal, este ganha um carácter mais profissionalizado de gestão, orientado para a promoção de um evento turístico e económico, perdendo-se o carácter amador que as comissões de organização possuíam. Simultaneamente, o Carnaval sofre uma nova “revitalização”, destacando-se nesse processo duas personalidades: Carlos Cunha e José Pedro Sobreiro.

    “Claramente, o acento é colocado na realização de um evento espectacular, que deverá envolver uma forte componente promocional, deverá sustentar-se a si próprio (i.e., pelo menos não dar prejuízo) e que importará profissionalizar, no entender dos seus organizadores. O limite deste modelo é atingido com a criação recente da empresa Promotorres para gerir o Carnaval, entre outros eventos locais.” Raposo (2000).

    A partir de 1988, por sugestão de José Pedro Sobreiro (artista plástico que realizou os projetos dos carros alegóricos entre 1981 e 1993 e ainda em 2001) o Carnaval começou a obedecer a um tema anual, relacionado com algum acontecimento nacional ou internacional. Em 1989, o Carnaval de Torres Vedras é, pela primeira vez, mediatizado, sendo transmitido em direto pela televisão, na altura, o único Carnaval português que teve esse privilégio.

    Os criativos José Pedro Sobreiro, António Travanca, Olga Moreira e António Trindade estavam envolvidos na construção dos carros alegóricos e na produção da sátira política.

    A década de 1990, é frutífera na introdução de “inovações” ao evento, as quais se mantêm até aos dias de hoje, destacando-se, nomeadamente, o corso escolar (1990), a realização do corso noturno no sábado (até então este só se realizava ao domingo e à terça-feira à tarde) e a realização do Carnaval de Verão em Santa Cruz (1995); ou a invenção do “monumento” (1999), estrutura feita em fibra de vidro, colocada na zona central da cidade, subordinada ao tema anual, que se tornou um dos símbolos do Carnaval na cidade, alvo de mediatização, também pela sua dimensão de espetáculo.

    De facto, a estética altera-se com a introdução da modernização das técnicas usadas, os elementos carnavalescos, de aparência tosca e rudimentar, fabricados pelos “artistas” e “artífices”, vão dar lugar a figurações com novas linguagens e plasticidades, devido ao uso dos novos materiais, levado a cabo pelas empresas locais. De 1997 a 2005, ocorrem inovações no programa como a introdução dos “cavalinhos” musicais nos corsos, Concurso de Grupos de Mascarados, Corso Trapalhão, Chegada dos Reis na sexta-feira à noite (2004), Tó’ candar - Trio elétrico (2000).

    A par da nova estética, envereda-se por uma nova sonoridade, com a introdução das bandas filarmónicas no corso (“os cavalinhos”) e os autofalantes com música carnavalesca espalhados pelas ruas, além do rufar dos bombos dos Zés Pereiras, que marcaram o seu “lugar” desde a década de 1960. Aposta-se claramente na noite, quer pela extensão do programa carnavalesco para a noite, na entronização dos reis (sexta-feira) ou no corso noturno (sábado) quer, pela adjudicação, pela autarquia/promotorres, de quiosques de bebidas em bloco na cidade, com o objetivo de dinamizarem a noite, em paralelo com os bares e discotecas. A animação noturna procurava direcionar-se à camada mais jovem.

    O Carnaval assume-se como um produto cultural, que se enquadra no âmbito de uma sociedade do espetáculo. A monumentalidade dos elementos carnavalescos como os carros alegóricos com a sua carga satírica, as matrafonas, considerada imagem de marca, ou o “monumento” na praça central, que na sua inauguração atrai o interesse dos órgãos televisivos, enquadra-se num produto televisionado, como refere Raposo (2000), apetecível na sociedade atual devido à dimensão de espetáculo e mediatização que o evento alcançou, que é indissociável da dimensão turística e económica do mesmo.

    Resta-nos referir as referências encontradas relativas ao entrudo no Concelho de Torres Vedras. Paralelamente à ascensão do Carnaval urbano na cidade, durante a década de 1920, persistiu o entrudo rural nas aldeias.

    Segundo Ana Margarida Santos (2000), o Entrudo rural de carácter grosseiro e violento persistia e era praticado nalgumas aldeias do concelho como, por exemplo as pulhas, encenação ou declamação de textos de tom insultuoso e de crítica social, que expunha publicamente a moral e os comportamentos de vizinhos que não seguissem o cânone social estabelecido. Venerando de Matos (1998) afirma que ainda nos anos de 1920, as pulhas seriam a principal brincadeira de Carnaval na zona rural do concelho.

    Uma das descrições mais pormenorizadas do Entrudo rural foi presenciada por Rodney Gallop, na Cadriceira, em 1932, que documentou aquilo que intitulou de cegada, uma teatralização em que homens cantavam e dançavam, e culminava com uma mulher a “encenar” uma representação de um parto.

    Esta manifestação, como afirma o autor: “The magic birth of ancient ritual had been accomplished in mine, and by this sympathetic magic the fertility of the village and all that went to its sustenance had been assured for the coming year”.

    Sabe-se que apesar do grupo ter atuado na Cadriceira (concelho de Torres Vedras), os elementos eram provenientes de Vila Franca do Rosário (concelho limítrofe de Mafra). A manifestação de cegadas, lançamento de pulhas, teatralização espontânea, danças e/ou contradanças entre aldeias vizinhas, era uma prática habitual no Entrudo rural.

    “Todas as aldeias da região estavam sempre à espera dos muitos grupos que as visitavam, nos dias mais ou menos certos de cada um deles, que eram constantes de uns anos para os outros. Quando chegava um grupo, deitavam-se foguetes e os habitantes da aldeia acorriam logo ao largo onde era costume terem lugar as representações” Sardinha (2000).

    Sardinha define «cegada» como “(…) representações populares que percorriam as ruas por alturas do Entrudo (nalguns casos todos os domingos desde os Reis a Domingo Magro e depois em Domingo Gordo e Terça-Feira de Entrudo), devidamente ensaiadas, com uma certa coerência teatral e musical, mas mesmo assim de estrutura flexível e variável, com o fito de divertirem a assistência que se juntava nos principais largos das povoações e dela obterem uma compensação pecuniária pelo espectáculo oferecido”. Sardinha (2000).

    Esta designação advém porque no final do espetáculo, o grupo obtinha uma compensação pecuniária, cantando e pedindo esmola à «imitação dos cegos».

    O autor refere que o termo cegada generalizou-se depois a qualquer manifestação entrudesca, meio trapalhona, habitualmente com mascarados, tivessem agora ou não o objetivo pecuniário como contradanças e/ou marchas de Entrudo. Temos registos de diferentes manifestações até final da década de 1980, do Entrudo da Colaria e de Póvoa de Penafirme, como nos testemunha o trabalho elaborado por Sardinha (2000) “Tradições Musicais da Estremadura”:

    “Na povoação próxima de Colaria, já do concelho de Torres Vedras, ainda agora (1986) o flautista, tio Alberto Ribeiro, comanda ao toque da sua flauta de cana, grupos de mascarados que com ele correm a aldeia em ruidosa arruada, bebendo, gritando, cantando e pregando partidas. Antigamente, porém, era muito mais completo o cortejo da colaria: juntava-se numeroso grupo de rapazes encaraçados e vestidos à trapalhona, comandados pelo flautista e o tambor, que não iam mascarados. No domingo gordo percorriam as aldeias circunvizinhas, em arruada festiva comendo e bebendo aqui e ali (sobretudo bebendo), e armando bailaricos onde havia moças para dançar. Na terça-feira, o grupo reservava-se à própria Colaria, tocando e cantando pelas ruas, até terminar tudo no baile tradição.” (…) Na Póvoa de Penafirme, do mesmo concelho de Torres Vedras, outro tanto acontecia com o «tio Cota», de sua graça António Alves, tocador de flauta que igualmente participava nas cegadas e que tinha, escolhida para essas alturas, uma marcha de certa pompa, de muito provável origem nas bandas filarmónicas, que levava o nome de «marcha do Entrudo». Sardinha (2000).

    Tanto no registo do Entrudo da Colaria como de Póvoa de Penafirme, o flautista desempenhava um papel importante na animação e dinamização do grupo “o tocador é sempre o centro nevrálgico destes cortejos, pois é à sua volta e da sua música que a rapaziada se junta e se organiza em grupo ambulatório”. Sardinha (2000).

    Sardinha (2000) fez uma descrição exaustiva do Baile de Entrudo do Casalinho das Oliveiras, ritual que estava ativo ainda em 1999, que consistia num cortejo composto por um grupo de músicos e um grupo de “dançadores”, vestidos com trajes carnavalescos que atuavam, no Domingo Magro e Domingo Gordo, no Casalinho das Oliveiras e na vizinha Ribeira de Palheiros, e na Terça-feira de Entrudo, em Casal da Giesta, Campelos, Casais do Rijo, Ribeira de Palheiros e regresso ao Casalinho das Oliveiras.

    “O cortejo é fundamentalmente constituído por um numeroso grupo instrumental e um mais numeroso grupo de dançadores trajados carnavalescamente. Os instrumentos musicais que compõem aquele grupo são os seguintes: duas concertinas, uma gaita-de-foles, dois acordeões, caixas, «bumbas» (bombos), ferrinhos, «serrilha» (o conhecido reque-reque), tracanholas (aqui chamadas castanholas de pau).

    O baile de Entrudo «sai» pela primeira vez em Domingo Magro, porém só se exibindo no próprio Casalinho das Oliveiras e na vizinha Ribeira de Palheiros. O mesmo acontece em Domingo Gordo. A festa rija, a grande exibição, está reservada para Terça-feira de Entrudo, dia em que o grupo faz o seguinte circuito: Casal da Giesta, Campelos, Casais do Rijo, Ribeira de Palheiros e regresso ao Casalinho das Oliveiras”.

    O autor descreve igualmente o cortejo em Campelos (concelho de Torres Vedras): “O cortejo pára nos largos de Campelos, em frente aos cafés, onde há geralmente mais gente reunida. Os tocadores reúnem-se ao centro para permitir que os dançadores evoluam à sua volta. E ao som da música os dançadores circulam, bailam, rodopiam, passam por baixo dos arcos, fazem rodas, exibem-se perante o agrado e a satisfação da assistência. Os gritos do pregoeiro, persistentes e álacres, sobrepondo-se à música, ajudam ao ambiente geral de frenesim e animação. Findas duas ou três modas de dança, o gaiteiro pega no funil do pregoeiro e deita duas ou três «pulhas» dando vivas ao Carnaval do Casalinho e anunciando a retirada, após o que se forma novamente o cortejo ao som da contradança. Dirige-se agora, sempre ao toque dos instrumentos musicais, para os Casais do Rijo. É visível a alegria das pessoas que acorrem às janelas e às portas para ver passar o baile dos Casalinhos. Alguns são familiares ou simples amigos dos foliões e cumprimentam-nos efusivamente. (…) Chegado ao largo principal dos Casais do Rijo, o baile organiza-se novamente com os tocadores ao centro e os dançadores em volta destes, executando as mais variadas evoluções coreográficas. Terminada esta exibição, seguem para a Ribeira de Palheiros, agora transportados em carrinhas de caixa aberta. (…)” Sardinha (2000).

    O modelo rural das pulhas, cegadas e outras manifestações, como o arremesso do grão, do feijão da farinha, da água suja ou dejetos, foi fortemente criticado pela imprensa da época, desde o final do século XIX e início do século XX, e foi alvo de repressão e proibição policial e municipal, devido aos novos modelos de celebração do Carnaval. Além disso, como refere Reis (2000) “as aldeias que se situavam perto da vila parecem, porém, ter começado a perder as suas caraterísticas, com o aumento dos folguedos em Torres Vedras”.

    De facto, o carnaval da cidade ao ganhar protagonismo fez desaparecer os vestígios de entrudo das aldeias em seu redor mas paradoxalmente vê subsistir alguns elementos rurais que visavam, na sua origem, a expurgação e purificação das comunidades como o julgamento e a queima do entrudo (marcadamente de influência rural) ou a figura da matrafona, que parece ser mais um exemplo de transgressão das regras sociais, através da inversão dos papéis de género masculino e feminino, que radica igualmente no entrudo.
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    direito consetudinárioO direito sobre esse património é consetudinário pois a definição do modo específico como a tradição se realiza pertence à comunidade, em particular, aos grupos e indivíduos que protagonizam a festa. Desde 1985 a organização do evento compete à Câmara Municipal de Torres Vedras, e desde 2000, a empresa municipal Promotorres é responsável pela sua produção. comunidade de Torres Vedras
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Ana Margarida de Carvalho Miranda Almeida
    Função: técnico superior de antropologia (Câmara Municipal de Torres Vedras)
    Data: 2016-11-15
    Curriculum Vitae
    Declaração de compromisso
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
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