Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2021_002
  • Domínio: Expressões artísticas e manifestações de carácter performativo
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Pintar e Cantar dos Reis
  • Outras denominações: Cantar dos Reses, Cantar dos Reis
  • Contexto tipológico: O Pintar e Cantar dos Reis tem em Portugal a sua maior expressão no concelho de Alenquer e inclui numa só prática diversos elementos: a festa, a linguagem escrita (hieroglífica e silábica do Pintar dos Reis), os ritos (naturalísticos, religiosos, de sociabilidade e de puberdade), os cantares (épicos, religiosos e petitórios) e os cultos (astrais, dos mortos e religiosos, como a Encomendação das Almas ou a Bênção das Casas).
  • Contexto social:
    Comunidade(s): Habitantes de Catém, Casal Monteiro, Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo, Paúla, Cabanas de Torres, Ota e Abrigada.
  • Contexto territorial:
    Local: As povoações onde se realiza o Pintar e Cantar dos Reis são: Catém, Casal Monteiro, Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo, Paúla, Cabanas de Torres, Ota e Abrigada.
    Concelho: Alenquer
    Distrito: Lisboa
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Centro \ Oeste
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: O Pintar e Cantar dos Reis é realizado com regularidade anual em cada comunidade.
    Data(s): Realiza-se na Noite de Reis - de 5 para 6 de janeiro.
  • Caracterização síntese:
    Sendo conhecida apenas como “Cantar dos Reis” ou “Cantar dos Reses” a manifestação celebrada no concelho de Alenquer implica a participação quer dos cantores-reiseiros quer dos pintores-reiseiros e, resumindo as características comuns da expressão cultural nas diferentes povoações, o ritual começa pela constituição dos grupos que anualmente, na noite de 5 para 6 de janeiro, se reúnem para Pintar e Cantar os Reis nas suas localidades. Sem ensaios ou combinações elaboradas, o grupo junta-se espontaneamente e parte pelas ruas da povoação. Os membros que vão pintar seguem à frente e, em silêncio, munidos das tintas, pincéis e lanternas pintam as fachadas, os muros e as entradas das casas com os tradicionais desenhos dos Reis. Mais atrás seguem, em maior número, os cantores – o coro liderado pelo apontador.

    Durante toda a noite alguns elementos do grupo desenham diferentes símbolos nas fachadas junto às portas, na entrada das casas - o desenho de vasos e corações com flores alusivos à composição do agregado familiar; os desenhos representativos das profissões e doutras atividades dos habitantes; o desenho da “Estrela do Oriente”; as inscrições alusivas aos Reis e a "Era" (o ano da celebração). As cores tradicionalmente utilizadas no ritual são o vermelho almagre e o azul de anilina.

    (Esta caracterização reproduz textos do livro O Pintar e Cantar dos Reis no Concelho de Alenquer, da autoria de Filomena Sousa e José Barbieri, edição de Memória Imaterial CRL, produção da Câmara Municipal de Alenquer, 2016).

  • Caracterização desenvolvida:
    Introdução

    No jornal A Verdade de Alenquer, em 1970, António de Oliveira Melo descreveu o Pintar e Cantar dos Reis no concelho de Alenquer como uma prática que cruza a celebração da luz e da sombra, da vida e da morte, da exteriorização e do segredo. O autor referia-se ao modo como o Pintar e Cantar dos Reis inclui numa só prática diversos elementos: a festa, a linguagem escrita (hieroglífica e silábica do Pintar dos Reis), os ritos (naturalísticos, religiosos, de sociabilidade e de puberdade), os cantares (épicos, religiosos e petitórios) e os cultos (astrais, dos mortos e religiosos, como a Encomendação das Almas ou a Bênção das Casas). Uma celebração intimista acompanhada pela saudação e o desejo de felicidades renovado anualmente através do Cantar e do Pintar dos Reis. Uma tradição sujeita a alterações, mas que ainda hoje se mantém em várias localidades deste concelho.

    Se é bem conhecida a tradição de se formarem grupos de pessoas para, durante a noite de 5 para 6 de janeiro, cantarem os Reis pelas ruas das cidades, vilas e aldeias em diversas regiões de Portugal e noutros países da Europa, o mesmo não acontece com a tradição do “Pintar dos Reis”. Esta prática, menos conhecida, tem em Portugal a sua maior expressão no concelho de Alenquer. Em 2016 a celebração realizou-se com variantes em 9 povoações do alto concelho e do sopé da Serra de Montejunto: Catém, Casal Monteiro, Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo, Paúla, Cabanas de Torres, Ota e Abrigada. Em algumas destas localidades a Noite de Reis tinha e ainda mantém um significado mais marcante do que a Noite da Passagem de Ano (por exemplo, em Catém e em Ota). No mesmo concelho há registos de que também se cantava e pintava os Reis em mais 14 localidades: Espiçandeira, Bairro, Pocariça, Penedos, Canados; Bogarréus, Fiandal, Valverde; Calçada; Estribeiros; Atouguia, Montegil, Porto da Luz e Cabanas do Chão. Nesta última localidade continuam a cantar, mas não pintam, nos outros locais a tradição não se realiza há vários anos (C.M, 1962; Melo, 1970; Melo, Guapo e Martins, 1991a e 1991b; Sardinha, 2000).

    Com diferentes atributos a tradição também se mantém no concelho do Cadaval, mas apenas em duas povoações (Pereiro e Avenal) e no concelho de Sobral de Monte Agraço o costume perdeu expressão no início dos anos 70. Contudo ainda hoje, em algumas aldeias do concelho do Sobral, festeja-se os “Santos Reis” desenhando a Cruz dos Santos Reis nas fachadas das casas (cruz com a sigla “SR” e o ano da celebração) e leiloando o cargo decorado com bolos de perna e laranjas (como ainda acontece, por exemplo, na Chã) (Cunha, 2009).



    A constituição dos grupos

    Sendo conhecida apenas como “Cantar dos Reis” ou “Cantar dos Reses” a manifestação celebrada no concelho de Alenquer implica a participação quer dos cantores-reiseiros quer dos pintores-reiseiros e, resumindo as características comuns da expressão cultural nas diferentes povoações, o ritual começa pela constituição dos grupos que anualmente, na noite de 5 para 6 de janeiro, se reúnem para Pintar e Cantar os Reis nas suas localidades. Os membros do grupo juntam-se num local habitual, no Largo da povoação, na adega de um dos elementos ou noutro lugar de referência, convocados por algum dos membros que os lembra no dia anterior que “amanhã é dia de Cantar os Reis”, isto caso se encontrem pelas ruas ou cafés da povoação, senão telefonam ou enviam uma mensagem pelo telemóvel. O número de praticantes varia de ano para ano - há os que se juntam ao grupo pela primeira vez, os “que aparecem sempre” e os que não aparecem naquele ano. Sem ensaios ou combinações elaboradas, o grupo encontra-se de forma espontânea e rapidamente definem as funções de cada um. Depois partem pelas ruas da povoação. Os membros que vão pintar seguem à frente e, em silêncio, munidos das tintas, pincéis e lanternas pintam as fachadas, os muros e as entradas das casas com os tradicionais desenhos dos Reis. Mais atrás seguem, em maior número, os cantores sem qualquer acompanhamento musical – o coro liderado pelo apontador. Nalgumas povoações pinta-se e canta-se porta a porta (Catém, Casal Monteiro, Mata e Penafirme da Mata), noutras pinta-se e canta-se em locais estratégicos e nos Largos principais para várias casas (Abrigada, Cabanas de Torres, Paúla e Ota) e noutras pintam porta a porta, mas cantam em pontos estratégicos (Olhalvo). A maioria dos grupos inicia o ritual pelos Casais mais afastados da povoação entre as 22h e as 23h terminando entre as 2h e as 4h da madrugada no Largo principal ou num local de referência (como, por exemplo, junto às Portas do Sol em Penafirme da Mata ou no Largo dos Reis em Catém).

    Segundo testemunhos e estudos realizados sobre a prática, há algumas décadas, a tradição só envolvia grupos masculinos, em alguns casos compostos apenas por rapazes solteiros “antes de ir às sortes”, ou seja, antes de irem à inspeção militar e à tropa (na época considerado como um dos principais momentos de passagem para a vida adulta). Jovens que eram iniciados neste ritual por um elemento mais velho e já casado, usualmente o apontador. As ruas deviam estar vazias e as casas às escuras, em silêncio, à espera da chegada dos que traziam “a mensagem dos Reis”, a chegada do “segredo” cantado à “fechadura da porta”, a chegada “da bênção e da luz”. As portas não se abriam e deixava-se junto da entrada um pedaço de bolo, uma garrafa de água-pé, aguardente ou outra bebida alcoólica para o grupo se servir e para “aquecer a noite fria”. Só se viam os desenhos na manhã seguinte, altura em que os mais velhos criticavam a sua qualidade e as raparigas tentavam perceber se os seus pretendentes tinham participado na celebração (C.M, 1962; Melo, 1970; Melo, Guapo e Martins, 1991a e 1991b; Costa, 1999; Sardinha, 2000).

    Hoje tenta-se manter o ambiente silencioso e intimista de veneração durante o ritual, mas não de forma rigorosa como acontecia há algumas décadas onde ninguém andava na rua exceto o grupo de reiseiros. Atualmente alguns visitantes dirigem-se a estas localidades para ver o ritual. Os grupos de reiseiros tentam, contudo, que os novos praticantes e os visitantes respeitem o silêncio e o recato da manifestação. Em muitas destas localidades se o dono da casa abre a porta para ouvir o cantar ou ver a pintura, o grupo pede para voltar para dentro de casa e só sair depois da cantiga terminar. Usualmente os habitantes só abrem a porta depois do cantar para servirem uma mesa de iguarias natalícias composta de propósito para receber os cantores e pintores e onde não falta o bolo-rei, as filhoses e o vinho do Porto.

    Nalgumas povoações os grupos continuam a ser constituídos apenas por homens (casados e solteiros de diferentes idades) - Catém, Casal Monteiro; Penafirme da Mata e Ota - noutras, a partir dos anos 80 e 90 do século XX, as mulheres começaram a participar apenas como pintoras – em Olhalvo – ou como cantoras e/ou pintoras – na Abrigada, em Cabanas de Torres, na Mata e na Paúla. Esta alteração é justificada pela falta de participação masculina que, em alguns casos, a certa altura, colocou em perigo a continuidade da manifestação. O outro motivo invocado é a mudança das estruturas sociais e a alteração do papel e das funções desempenhadas pela mulher, agora com mais presença nas atividades da esfera pública. Existindo uns grupos mais envelhecidos que outros, as idades dos membros de cantores e pintores variam entre os 15-20 anos e os 70-80 anos, encontrando-se a média de idades entre os 40 e os 50 anos.

    Os pintores - os símbolos, as cores e as tintas



    Durante toda a noite alguns elementos do grupo, usualmente juntos dois a dois ou três a três, seguem à frente dos cantores e desenham diferentes símbolos nas fachadas junto às portas, na entrada das casas. Dependendo das povoações formam-se dois, três ou mais pares ou trios de pintores. Levam consigo as latas das tintas com as cores tradicionalmente utilizadas no ritual – o vermelho almagre e o azul de anilina – e uma luz para iluminar a execução das pinturas. Há 50, 60 anos, em certas localidades, os jovens rapazes quando tinham autorização para integrar no grupo, aos 12 ou 13 anos quando saíam da escola, não podiam cantar nem pintar, a única função que podiam desempenhar era carregar o petromax e alumiar as paredes onde o pintor ia desenhar. Só deixavam essa função quando entrasse no grupo um novo membro e, nessa altura, começavam a cantar (Catém e Casal Monteiro). Nos dias de hoje há grupos que ainda usam o antigo petromax ou versões mais modernas do mesmo (Ota e Casal Monteiro), os outros usam lanternas. As inscrições e desenhos são pintados com as duas cores e, usualmente, dois pintores participam na execução de um mesmo desenho, um faz a parte vermelha e o outro termina com a tinta azul, ou vice-versa. Esta prática facilita a tarefa dos pintores não se misturando pincéis ou cores. Os pintores andam assim numa “dança cruzada” iniciando e completando as inscrições e desenhos do outro. Durante toda a noite, conforme a localidade, desenham diferentes símbolos:

    a) Os corações e vasos com ramos floridos que representam a felicidade do lar e cujas variações, dependendo da localidade, representam diferentes composições do agregado familiar dos vizinhos: se o casal é recém-casado, se nasceu um bebé, se o casal tem um ou mais filhos, se tem filhas “casadoiras”, se tem filho varão, se vivem sós ou alguém está de luto (Catém, Casal Monteiro; Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo, Paúla, Cabanas de Torres);

    b) Os desenhos que representam as profissões dos moradores, serviços e atividades recreativas, religiosas e comerciais - por exemplo, no café uma chávena, na mercearia uma balança, na adega uma pipa de vinho ou um par de músicos junto da Sociedade Filarmónica (Catém, Casal Monteiro, Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo). Alguns destes desenhos revestem-se de humor e sátira social;

    c) A “Estrela do Oriente” ou diferentes símbolos que a representam: a estrela que guiou os Reis Magos desenhada a compasso com seis pontas, isto é, um hexagrama inscrito num círculo e com o rasto da cauda representada por pontos (Ota). Uma estrela de várias pontas, um asterisco ou um pequeno pentagrama entre a sigla BR (Bons Reis) e o ano (Olhalvo). Uma cruz dentro de um pequeno círculo, conjunto a que chamam de “cruz dos Reis Magos” (Mata) ou “a Estrela dos Reis” também colocada entre as inscrições e o ano (Penafirme da Mata);

    d) As inscrições e siglas – “BR” – Bons Reis em Penafirme da Mata e em Olhalvo; a inscrição “Bons Reis” junto à sigla “V.R.” – Viva os Reis ou Viva a República em Catém e no Casal Monteiro; a sigla “BF” – Boas Festas na Abrigada, Paúla e Ota; a conjugação da sigla “B.F.” com a sigla “B.R.” na Mata onde também escrevem “Boa Venda” junto dos desenhos de alguns estabelecimentos comerciais e a sigla “BRM” – Bons Reis Magos (ou Magnos) em Cabanas de Torres. Todas as localidades colocam na composição do desenho, junto das inscrições, o ano da celebração;

    e) O losango dentro do vaso, símbolo do ouro que nuns casos representa o filho varão (Olhalvo), noutros casos significa que os filhos (independentemente do sexo) já saíram de casa (Catém); noutros ainda é apresentado como um elemento meramente decorativo (Casal Monteiro);

    f) As 5 quinas - as 5 chagas de cristo15 - dentro dos vasos e corações (Mata e Olhalvo) ou dentro do círculo com a cruz no meio (a “estrela”) (Penafirme da Mata);

    g) Nalguns casos o desenho ou a sigla com o ano são “rematados” com pontos. Segundo os pintores esses pontos servem para “embelezar” e “emoldurar”, “fechar” o desenho (Catém, Casal Monteiro, Penafirme da Mata, Mata e Olhalvo). “Fecha-se” porque “não é um desenho que se queira fazer desaparecer (…) é um desenho que se materializa ali, que se mete dentro de uma moldura (…) para ser preservada” (Guapo, 2015). Muitas fachadas mantêm os desenhos de vários anos. Mesmo que os donos pintem as casas preservam os desenhos. Os pintores de Catém assinam com o nome da aldeia os desenhos que fazem nas casas e Casais que ficam no limite da povoação;

    h) Em Catém, Casal Monteiro e Mata no final da noite pinta-se o Vaso do Grupo com o ramo de flores e as iniciais do primeiro e último nome de cada um dos membros do grupo (os que participaram naquele ano da celebração). Esse vaso é usualmente pintado no Largo principal da povoação. Em Penafirme da Mata o desenho final, pintado nas Portas do Sol inclui a inscrição dos votos de um Bom Ano a toda a população da aldeia.

    A cor vermelha significa vida e alegria enquanto o azul simboliza a tristeza e a morte. As duas cores são utilizadas nos desenhos, exceto se a casa “estiver de luto”, se recentemente faleceu algum membro da família ou se a pessoa que lá vive é um viúvo ou uma viúva. Nesse caso podem não cantar, mas desenham um coração ou um vaso com ramos com a cor azul, sem o vermelho. Nos últimos anos têm sido introduzidas outras cores para pintar a sigla e o ano, por exemplo o verde e o amarelo nos locais onde já não se desenham os outros símbolos (na Abrigada) ou onde também se faz o vaso com ramos simples, mas sem variações dependentes da constituição do agregado familiar e só em alguns locais estratégicos (em Cabanas de Torres e na Paúla).

    Em relação ao tipo de tintas usadas Catém e Casal Monteiro ainda continuam a utilizar os pigmentos que depois são diluídos em água junto com um pouco de cal para engrossar e aderir melhor à parede – o azul de anilina e almagre vermelho. Nas outras localidades estes pigmentos foram substituídos pelas tintas de água e na Abrigada e Cabanas de Torres usam a tinta pulverizável em spray para a sigla e o ano da celebração. Estas duas povoações usam moldes para executar as inscrições. Paúla e Mata usam moldes em folha de flandres para executarem os desenhos.



    Os cantores - o apontador, o coro, as letras e a melodia

    Num tempo de mediatização, onde “tudo deve ser mostrado”, no concelho de Alenquer ainda se celebra o Pintar e Cantar dos Reis numa performance relativamente discreta e intimista. Nas ruas vazias e para casas fechadas, as vozes entoam no silêncio da noite uma melodia antiga que acompanha a história cantada - a viajem dos Reis Magos até Belém. Acordam os que já dormem, surpreendem-se os desprevenidos ou alegram-se os que esperam ouvir o grupo de reiseiros (Guapo, 2015).

    O apontador é o solista que inicia o cantar lançando versos ao coro. O coro responde em uníssono repetindo o apontador ou cantando os versos que se seguem. Conhecedor do ritual, o apontador é usualmente o elemento que assume o papel de porta-voz do grupo e partilha com o pintor mais velho e com os elementos mais dedicados ao grupo a responsabilidade de manter a prática transmitindo-a às novas gerações.

    Conforme os anos e os elementos que aparecem para formar o grupo, podem existir 1, 2 ou até 3 apontadores, estes revezam-se a apontar na mesma cantiga ou em diferentes momentos da noite, um canta a uma porta, outro canta na porta seguinte. Segundo relatos registados em Cabanas de Torres e na Abrigada, há quem se lembre de assistir naquelas localidades ao início do ritual com o apontador a cantar sozinho e o grupo a formar-se ao longo da noite junto das tabernas e adegas da povoação.

    Dependendo das povoações a letra da cantiga descreve com mais ou menos pormenor o episódio bíblico enunciado pelo apóstolo S. Mateus no 2.º capítulo do 1.º livro do Novo Testamento. As versões mais curtas são cantadas em Casal Monteiro e em Catém (12 versos), a versão mais longa é cantada na Abrigada (42 versos).

    Segundo o relato de S. Mateus, os Reis Magos souberam que o “o Rei dos judeus” tinha nascido em Belém da Judeia e seguiram viagem para visitar e adorar o Salvador Divino. No decorrer dessa viagem encontraram-se com o Rei de Israel – Herodes – que sentiu o seu poder ameaçado pelo nascimento do messias e, tentando enganar os Reis Magos, pediu-lhes para, assim que encontrassem Jesus, enviassem informações sobre o seu paradeiro para que também ele pudesse ir prestar homenagem ao bebé. Os Reis Magos concordaram e, seguindo um sinal divino sob a forma de estrela, encontraram o caminho até à manjedoura onde Jesus estaria abrigado. Aí adoraram-no e ofereceram como dádivas ouro, incenso e mirra. Entretanto, em sonhos, os Reis Magos foram avisados de que Herodes queria aniquilar Jesus e por isso não cumpriram a sua promessa. Quando Herodes percebeu que os Reis Magos não voltariam tomou medidas drásticas e mandou matar todos os primogénitos das famílias de Belém que tivessem menos de dois anos. Um anjo terá avisado José que escapou à ira de Herodes ao fugir para o Egito com Maria e Jesus.

    Algumas destas cantigas, que incluem sempre sentimentos de oração e devoção, têm origem nas várias versões do longo romance de carácter religioso do século XVII e XVIII – “Os Três Reis”. Romances longos que, na época, eram entoados num misto de canto épico, cantiga narrativa ou vilhancico, cantados pelo apontador dístico a dístico (dois em dois versos, como um verso longo) e repetidos pelo coro (Galhoz, 1997).

    Estes romances, são alterações e reduções do “Auto dos Reis” representado pela primeira vez no exterior da Igreja pelos Frades Mendicantes no século XIV. Algumas das cantigas cruzam ainda o romance “Os Três Reis” com o romance “Noite de Natal” baseado no episódio bíblico descrito por S. Lucas sobre o nascimento de Jesus na manjedoura. Este último romance destaca o facto de Jesus ter nascido entre animais, entre o boi bondoso que aquece Jesus com o seu “bafejar” e a mula teimosa “a resmungar”. Um episódio que já era associado ao Natal na literatura apócrifa - os textos escritos nos primeiros séculos do cristianismo que não foram incluídos no Cânone do Novo Testamento. No romance “Noite de Natal” e nas cantigas da Mata, de Penafirme e do Olhalvo a mula por ter tão mau feitio é castigada com a maldição da infertilidade e se por acaso “Alguma coisa tiveres/Dela não tenhas fortuna”. Esta maldição está na origem da crença popular de que se um dia uma mula tiver uma cria que sobreviva isso será sinal de que Jesus terá voltado à Terra. Sobre a estrutura das letras interessa ainda mencionar as cantigas que invocam as Almas na primeira quadra, revelando vestígios do culto da Encomendação das Almas (Olhalvo, Mata e Penafirme), as que terminam com votos de “graças à Virgem e ao Menino” (Cabanas de Torres e Paúla) e as que terminam com votos de Boas Festas e versos petitórios (Catém, Casal Monteiro, Cabanas de Torres, Ota e Abrigada) (Leite de Vasconcelos, org. Guerreiro, 1982; Galhoz, 1997; Sardinha, 2000).

    De referir que durante todo o século XVII promoveu-se em Portugal um grande interesse pelos vilhancicos, composições cantadas em solenidades religiosas, principalmente pelo Natal e pelos Reis, de cunho essencialmente popular, mas que também chegaram a ouvir-se em festas palacianas, na Capela Real (durante os reinados de D. Pedro II e de D. João V). Com muitos elementos idênticos aos que compõem as atuais letras das cantigas de Cabanas de Torres, da Ota, da Paúla e da Abrigada o Vilhancico IV da Capella Real nas Matinas da Festa dos Reys do anno de 1647 já incluía, por exemplo, a confusão produzida devido à denominação toponímica igual de Belém da Judeia e Belém de Lisboa, confusão que, por assimilação regional, coloca a cena bíblica da chegada dos Reis Magos na entrada marítima de Lisboa e não no Oriente sendo recebidos pelo Rei de Portugal e não pelo Rei Herodes. Nos últimos anos, alguns dos atuais grupos resolveram “corrigir” essa “aparente gralha” para “acertar” os planos históricos e as respetivas referências geográficas, mas na verdade essa narrativa que confunde o mundo do Oriente com a Barra do Tejo já remonta, pelo menos, ao século XVII e foi assumida na forma escrita e tocada nas cortes reais. Essa confusão tendo sido produzida pela inventiva popular - o que Leite de Vasconcelos (org. Guerreiro, 1982) considerou ser um estratagema dos cantores de rua para aproximar os ouvintes da história e com isso conseguir melhores receitas nos peditórios - é aceite e reproduzida durante pelo menos três séculos entre as diversas classes sociais. De referir ainda as letras das cantigas de Penafirme da Mata, Mata e Olhalvo que colocam os Reis a embarcar no “Grilo”, zona portuária de Lisboa perto do atual Convento do Beato (Galhoz, 1997; Leite de Vasconcelos, org. Guerreiro, 1982; Sardinha, 2000; Soares 1984; Vilhancico da Capela Real, 1697).

    Em relação às cantigas da celebração dos Reis no concelho de Alenquer é possível “vislumbrar a mesma raiz melódica”, “uma mesma base rítmica (…) com estrutura modal que revela arcaísmo”. Existe, assim, uma “identidade melódica”, mas com “diferenças de pormenor” entre as diversas localidades (às vezes simplificada ou alterada no processo de transmissão oral) (Sardinha, 2000:15).

    Considerando a prática de cada uma das povoações do concelho, a forma como o grupo se posiciona (apontador e coro) e o modo como cantam é possível identificar três diferentes formas de atuar (Guapo, 2015):



    a) Cantar “o segredo” de porta em porta (Catém e Casal Monteiro).

    Neste caso o grupo desloca-se à entrada das casas, junto à “fechadura” da porta, e posiciona-se numa roda apertada. O apontador recita em voz muito baixa, “o segredo” para ser ouvido apenas pelos membros do coro - a cantiga que anuncia a viagem dos Reis Magos para “visitar o Deus Nascido”. Quando termina a primeira quadra o coro repete em alta voz, lançando num grito as primeiras sílabas do primeiro verso.

    Também as outras duas quadras da cantiga são primeiro sussurradas pelo apontador junto à porta das casas e cantadas depois em voz alta pelo coro. A terceira e última quadra anuncia os votos de Boas Festas e termina com dois versos petitórios: “Também temos o cuidado/de aceitar, ai, o que nos deis”. O grupo canta porta a porta as três quadras da cantiga e no final acrescenta “Pràs Almas!”. Segundo aos registos realizados nos anos 70, nessa altura as palavras do apontador eram ditas em segredo “em tom rezado e cheio de intenções” enquanto o mesmo colocava “as mãos em concha sobre a fechadura da porta” (Melo, Guapo e Martins, 1991a:39).

    Segundo testemunhos orais, em Catém e no Casal Monteiro, há mais de 50, 60 anos, os cantores “para que a voz não se espalhasse” e para se protegerem das intempéries usavam uma manta sobre as cabeças (Duarte Carvalho, que em 2016 tinha 69 anos e que cantou em Catém dos 13 aos 50 anos, lembra-se de aos 8, 9 anos, espreitar à janela e ver a manta sobre as cabeças dos cantores).

    Também existe a memória de, há cerca de 50, 60 anos, homens do Casal Monteiro, de Catém e de Meca formarem um só grupo que ia às três localidades. Hoje, os grupos atuam sempre separados nas suas povoações. Casal Monteiro vai cantar e pintar a Meca e Catém vai a algumas casas e Casais que ficam no limite da povoação, no alto de Meca.

    b) O cantar junto às portas sem ser em segredo (Mata e Penafirme da Mata).

    Aqui o apontador canta sempre em voz alta junto à porta das casas e o coro responde um pouco mais afastado. O apontador canta a primeira quadra mencionando as Almas Santas e a chegada dos Três Reis ao Oriente, quando termina o coro não repete, canta a quadra que se segue sobre a viagem dos Magos. A seguir o apontador canta um dístico continuando a aventura dos Reis e o coro responde com outra quadra; continuam com o apontador a cantar um segundo dístico que convida os pastores a visitarem a manjedoura e o coro canta uma oitava referente ao romance da “Noite de Natal”, sobre o nascimento de Jesus na manjedoura com “o boi a bafejar” e a “mula a resmungar”, amaldiçoando a mula. O grupo vai de porta a porta e executa sempre a cantiga completa.

    c) O cantar em pontos estratégicos da povoação (Abrigada, Cabanas de Torres, Paúla, Olhalvo e Ota).

    Nestes locais o grupo não canta porta a porta, junta-se em Largos e Praças e canta em voz alta para várias casas. As posições do apontador e do coro diferem de grupo para grupo. Em Olhalvo, na Ota e em Cabanas de Torres o apontador está junto do coro em círculo ou semicírculo. Em Paúla o grupo e o apontador ficam um pouco afastados e na Abrigada o apontador canta a vários metros de distância do coro.

    No caso do Olhalvo o apontador inicia lançando um dístico e o coro responde um dístico diferente, os quatro versos invocam as Almas. A seguir o apontador canta um dístico que inicia o relato da viagem dos Três Reis e o coro responde com um dístico sobre o mesmo tema. O apontador continua com dois versos e o coro responde com uma quintilha. O apontador canta um dístico alusivo aos pastores que entram na manjedoura a que o coro responde também com dois versos. Para terminar o apontador entoa um dístico sobre a presença do boi e da mula na manjedoura e o coro responde com uma quadra a amaldiçoar a mula. O grupo executa sempre a cantiga completa.

    Em Ota, na Abrigada, em Cabanas de Torres e na Paúla executam a cantiga completa em três ou quatro locais privilegiados (entre 32 a 42 versos sobre os Reis Magos), durante o resto da noite cantam só partes da cantiga, não faltando os votos de felicidades e/ou os versos petitórios no final (4 versos). Na Ota, na Abrigada e em Cabanas de Torres o apontador lança a cantiga de dois em dois versos e o coro repete, na Paúla o apontador canta em quadras, também repetidas pelo coro.

    Na Ota, para “segurar a voz”, primeiro usava-se “não uma manta, mas um paneiro”, o toldo que se punha à volta das oliveiras para varejar e depois apanhar a azeitona. Mais tarde o paneiro teria sido substituído por uma manta, mas nenhum dos atuais membros do grupo se lembra ou assistiu a isso (Lúcio Carvalho, 2015).



    O peditório, a missa e o almoço

    Em 5 dos 9 locais onde se cantou e pintou os Reis em 2016 (Catém, Casal Monteiro, Olhalvo, Mata e Penafirme da Mata) realizou-se no fim-de-semana seguinte ou no segundo fim-de-semana depois da celebração o Peditório dos Reis pelas casas das povoações. O resultado desse peditório serviu, em alguns casos, para mandar rezar uma Missa pelas Almas do Purgatório e para organizar um almoço para todos os elementos do grupo (Catém e Casal Monteiro – missa celebrada na Igreja de Meca; Mata – missa celebrada na Igreja de Aldeia Gavinha). Em Penafirme da Mata o resultado do peditório foi usado para organizar um almoço de porco no espeto no Largo da Igreja e no caso do Olhalvo a verba reverteu a favor do Rancho Folclórico Etnográfico da Sociedade Filarmónica Olhalvense que promove o ritual e ao qual pertencem os membros do grupo. Na Abrigada e na Paúla não se realiza peditório, mas em alguns anos os praticantes juntam-se para um almoço ou jantar partilhando as despesas. Na Ota e em Cabanas de Torres o grupo não se volta a juntar para qualquer evento relacionado com os Reis a não ser no ano seguinte, na noite de 5 para 6 de janeiro para novamente cantarem e pintarem os Reis.

    (Esta caracterização reproduz textos do livro O Pintar e Cantar dos Reis no Concelho de Alenquer, da autoria de Filomena Sousa e José Barbieri, edição de Memória Imaterial CRL, produção da Câmara Municipal de Alenquer, 2016).

  • Manifestações associadas:
    Em 5 dos 9 locais onde se cantou e pintou os Reis em 2016 (Catém, Casal Monteiro, Olhalvo, Mata e Penafirme da Mata) realizou-se no fim-de-semana seguinte ou no segundo fim-de-semana depois da celebração o Peditório dos Reis pelas casas das povoações. O resultado desse peditório serviu, em alguns casos, para mandar rezar uma Missa pelas Almas do Purgatório e para organizar um almoço para todos os elementos do grupo (Catém e Casal Monteiro – missa celebrada na Igreja de Meca; Mata – missa celebrada na Igreja de Aldeia Gavinha). Na Abrigada e na Paúla não se realiza o peditório, mas em alguns anos os praticantes juntam-se para um almoço ou jantar partilhando as despesas.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: Há algumas décadas, a tradição só envolvia grupos masculinos, em alguns casos compostos apenas por rapazes solteiros “antes de ir às sortes”, ou seja, antes de irem à inspeção militar e à tropa (na época considerado como um dos principais momentos de passagem para a vida adulta). Jovens que eram iniciados neste ritual por um elemento mais velho e já casado, usualmente o apontador.

    Nalgumas povoações os grupos continuam a ser constituídos apenas por homens (casados e solteiros de diferentes idades) - Catém, Casal Monteiro; Penafirme da Mata e Ota - noutras, a partir dos anos 80 e 90 do século XX, as mulheres começaram a participar apenas como pintoras – em Olhalvo – ou como cantoras e/ou pintoras – na Abrigada, em Cabanas de Torres, na Mata e na Paúla. Esta alteração é justificada pela falta de participação masculina que, em alguns casos, a certa altura, colocou em perigo a continuidade da manifestação. O outro motivo invocado é a mudança das estruturas sociais e a alteração do papel e das funções desempenhadas pela mulher, agora com mais presença nas atividades da esfera pública. Existindo uns grupos mais envelhecidos que outros, as idades dos membros de cantores e pintores variam entre os 15-20 anos e os 70-80 anos, encontrando-se a média de idades entre os 40 e os 50 anos.
    Data: 2016-01-06
    Modo de transmissão oral e escrita
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Apontador, pintor mais velho.
  • Origem / Historial:
    No século IV as celebrações da Epifania do Oriente chegam à Europa. Na Igreja do Ocidente o auto dos Magos difunde-se massivamente, auto esse que ao longo dos tempos sofre várias modificações dando origem a outro tipo de manifestações: práticas realizadas usualmente no espaço público, dirigidas por populares e que incluíam desfiles pelas ruas, peditórios acompanhados por bênçãos e versões resumidas e musicadas do auto – por exemplo o Cantar dos Reis em Portugal, os Vilhancicos em Espanha e o Cantar da Estrela na Alemanha (Coelho, org. Leal, 1993; Peixoto, 1995; Weiser, 1952).

    Associada à cerebração da Epifania está a tradicional Bênção do Giz (descrita no antigo Ritual Romano) - uma cerimónia que utiliza um giz abençoado para, no dia 6 de janeiro, se inscreverem as iniciais CMB (“Christus Mansionem Benedicat”) e o ano nas portas. Ritual de onde pode provir o costume de, na Noite dos Reis, se pintarem votos de felicidades à entrada das casas.

    Na Península Ibérica o Dia de Reis começa a ser celebrado devido à chegada dos Frades Franciscanos e Dominicanos a este território. Este facto permite sublinhar a importância de Alenquer no processo de difusão desta celebração. Em Portugal, foi na região do concelho de Alenquer que estas Ordens foram primeiramente acolhidas – entre 1212 e 1218 Frei Zacarias chega a Alenquer para fundar um convento Franciscano e Frei Soeiro Gomes, primeiro provincial dominicano da Península Ibérica (1221-1223) funda, no termo do concelho de Alenquer, no alto da Serra de Montejunto, o primeiro convento Dominicano português.

    (Texto do livro O Pintar e Cantar dos Reis no Concelho de Alenquer, da autoria de Filomena Sousa e José Barbieri, edição de Memória Imaterial CRL, produção da Câmara Municipal de Alenquer, 2016).

  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Os direitos coletivos são de tipo consuetudinário - comunidade local. Comunidades das seguintes povoações do concelho de Alenquer: Catém, Casal Monteiro, Mata, Penafirme da Mata, Olhalvo, Paúla, Cabanas de Torres, Ota e Abrigada.
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Filipe Soares Rogeiro
    Função: Técnico Superior - Câmara Municipal de Alenquer
    Data: 2017-02-02
    Curriculum Vitae
    Declaração de compromisso
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
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