Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2021_008
  • Domínio: Competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais
  • Categoria: Atividades extractivas
  • Denominação: Tiragem da cortiça no concelho de Coruche
  • Outras denominações: Tirada da cortiça, descortiçamento ou despela
  • Contexto tipológico: Trata-se da atividade florestal que pressupõe a extração da cortiça do sobreiro e cuja particularidade assenta no facto de permanecer praticamente inalterada no seu modo de execução desde tempos ancestrais até aos nossos dias. A extração é realizada por um grupo de homens especializados, os tiradores e singularizada pela utilização de um único instrumento, a machada corticeira, que serve apenas esta função. A transmissão do conhecimento é feita de forma oral, atravessando gerações e a aprendizagem é fundamentalmente empírica.
  • Contexto social:
    Grupo(s): A tiragem da cortiça é uma atividade que envolve grupos organizados de trabalhadores aos quais se atribui a designação de “rancho”.
    Indivíduo(s): A figura do tirador de cortiça é a que mais se destaca nesta atividade.
  • Contexto territorial:
    Local: Coruche
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Alentejo \ Lezíria do Tejo
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: Atividade sazonal. Decorre fundamentalmente entre maio e agosto. O início da época é definido pelas condições atmosféricas. A preparação da campanha desenrola-se a partir do princípio do ano.
    Data(s): Não aplicável.
  • Caracterização síntese:
    A tiragem da cortiça ou descortiçamento é a operação que permite a extração da cortiça do sobreiro. É o saber-fazer associado à separação da camada de cortiça que acompanha o ciclo de crescimento do sobreiro - sem ter consequências na vitalidade da árvore e permitindo a sua regeneração cíclica e integral - que caracteriza a atividade do tirador e lhe confere grande responsabilidade e um elevado grau de especialização incomparável a qualquer outra atividade florestal, agrícola ou pecuária que igualmente se desenvolve no montado. Trata-se de uma atividade sazonal que se realiza fundamentalmente entre os meses de maio e agosto durante a fase mais ativa do crescimento vegetativo da árvore.
  • Caracterização desenvolvida:
    Sistema de uso agro-silvo-pastoril


    A título de introdução referir que a tiragem da cortiça é uma atividade florestal que não pode ser dissociada ou descontextualizada de todo um processo, ou de uma cadeia mais alargada que se inicia com a exploração do montado e termina com a utilização da cortiça como matéria-prima ao serviço da indústria, fundamentalmente para o fabrico de rolhas, sendo cada vez mais utilizada noutro tipo de aplicações que vão desde a construção, ao design, ao fabrico de joias e calçado, até às áreas da saúde, cosmética e produção de energia.

    A montante desta cadeia encontra-se efetivamente o montado, um ecossistema muito particular e delicado, considerado dos mais ricos do mundo, constituído por florestas de sobreiros que se distribuem pela zona ocidental da região Mediterrânica, sobretudo Portugal e Espanha, mas também Marrocos, Argélia e Tunísia. Existe também no sul de França e na costa ocidental de Itália, bem como nas ilhas Sicília, Córsega e Sardenha. A área total que atualmente ocupa é de cerca de 1,44 milhões de hectares na Europa e 0,70 milhões de hectares no Norte de África. Mais de metade da área encontra-se na Península Ibérica sendo que Portugal concentra 34% da área mundial, o correspondente a 736 mil hectares e 23% da floresta nacional (apcor.pt). Os montados formam paisagens-culturais na medida em que são sistemas que resultam da ação humana por aproveitamento de recursos diversos. São sistemas que associam uma utilização florestal do solo com outra utilização de natureza agrícola e/ou pastoril pelo que são considerados sistemas agro-silvo-pastoris.


    «São várias as definições de Montado que se encontram na bibliografia. Originalmente classificado como um sistema agro-silvo-pastoril, e descrito como um sistema multifuncional onde se equilibram e conjugam as actividades agrícola, pecuária e florestal, devido ao decréscimo de importância das culturas sob-coberto o Montado tende actualmente a ser considerado como um sistema silvo-pastoril. As espécies florestais dominantes são o sobreiro (Quercus suber), a azinheira (Quercus rotundifolia) e os carvalhos cerquinho (Quercus faginea) e negral (Quercus pyrenaica). Estas espécies de quercíneas encontram-se em povoamentos puros ou mistos, que no caso do sobreiro se associam ao pinheiro manso e ao pinheiro bravo» (Pinto-Correia et al., 2013: 9).


    Na confluência com o Alentejo, o concelho de Coruche marca o limite a sul da região do Ribatejo sagrando-se o mais extenso concelho do distrito de Santarém e o décimo maior de Portugal. Cerca de 50% do concelho é floresta, num montado misto, de sobreiro e pinheiro. O povoamento florestal misto, de sobreiro com pinheiro manso permite aos proprietários do concelho e a outros agentes intermediários a obtenção de rendimentos provenientes da cortiça, do pinhão e da madeira. Contudo e tratando-se de um sistema multifuncional permite outro tipo de exploração e, consequentemente, de rendimentos extra.


    Lenha e Carvão


    A lenha e a produção carvão constituem um dos aproveitamentos mais antigos do montado, sendo a madeira de sobreiro muito valorizada no passado. Por ser muito densa, resistente à compressão, ao impacto e ao atrito, bem como por se revelar bastante durável, foi muito procurada para fins de utilização na construção naval (Pinto-Correia et al., 2013). As imposições legais ao abate de sobreiros, associado ao aumento exponencial da valorização da cortiça, contribuíram para uma acentuada diminuição da exploração de madeira de sobreiro. A sua utilização nos dias de hoje passa fundamentalmente pela lenha através do aproveitamento (i) dos produtos (ramos) da poda, que se realiza com o objetivo de melhorar o estado sanitário e produtivo das árvores, (ii) dos troncos e ramos provenientes de abates sanitários ou em fim de exploração. Esta madeira é usada fundamentalmente para fins energéticos pelo seu elevado poder calorífero.

    Trata-se de uma atividade com uma dinâmica bastante relevante no concelho de Coruche, sobretudo na freguesia de Santana do Mato onde se encontram instaladas algumas pequenas empresas que se dedicam à produção de carvão vegetal decorrente do aproveitamento da lenha produzida nos montados (cf. n.º 7.3 anexo I). O carvão vegetal é utilizado como principal fonte de combustível natural (aquecedores, lareiras, churrasqueiras, etc.) sendo utilizado também para abastecer vários setores industriais, como a siderurgia. É igualmente usado pela medicina para fins terapêuticos.


    Pecuária e Agricultura


    O aproveitamento pecuário do montado é praticado em regime extensivo ou semiextensivo, através do pastoreio livre. Os animais alimentam-se dos pastos, bolotas, folhas e pequenos ramos das árvores. Trata-se sobretudo de gado suíno, ovino, bovino ou caprino, sendo comum a presença de várias espécies em simultâneo na mesma exploração. Destaca-se a qualidade dos produtos lácteos bem como da carne e seus derivados.

    Quanto à agricultura no montado esta é, fundamentalmente, uma atividade secundária e baseia-se principalmente no cultivo de cereais como a cevada e a aveia e algumas culturas de leguminosas. Por norma, estas culturas destinam-se à alimentação do gado.


    Apicultura /Mel


    A apicultura é outro dos aproveitamentos complementares do montado sendo que tem, no concelho de Coruche uma expressão relativamente residual. A abundância de flora melífera nos montados - como a esteva, as madressilvas, o rosmaninho, os tojos e as urzes - proporciona este tipo de prática da qual se obtém uma grande variedade de produtos, sendo o mel o mais conhecido e apreciado. Sendo uma atividade económica é também uma atividade imprescindível à manutenção dos ecossistemas naturais e da biodiversidade. De referir que a Câmara Municipal de Coruche tem vindo a promover, desde 2016, Encontros Apículas com o objetivo de discutir a importância da apicultura para a sustentabilidade do mundo rural (cf. n.º 4. II do anexo II).


    Plantas aromáticas e medicinais


    Em termos de diversidade vegetal, os montados apresentam uma elevada riqueza florística, com particular abundância de plantas aromáticas, medicinais ou de uso culinário. De acordo com Pinto-Correia et al. (2013), mais de uma centena de aromáticas se podem encontrar nos montados, bem como mais de duas centenas de plantas com propriedades medicinais muitas das quais ligadas à cultura local e utilizadas na medicina tradicional, como o funcho (Foeniculum vulgare), a malva (Malva spp.), a murta (Myrtus communis), a esteva (Cistus ladanifer), a aroeira (Pistacia lentiscus) ou o medronheiro (Arbutus unedo). A diversidade aumenta em montados com presença de linhas de água, como sucede em Coruche com a influência do rio Sorria, podendo-se acrescentar o poejo (Mentha pulegium), o mentrasto (Mentha suaveolens) ou a hortelã-da-ribeira (Mentha cervina). Destaca-se, ainda, a presença de algumas plantas com interesse alimentar, sobretudo de espargos silvestres que são muitos recolhidos para alimentação por parte das comunidades locais.

    A mesma fonte indica que apesar de bem adaptadas ao clima mediterrânico e às condições dos sistemas de montado, algumas destas plantas estão atualmente em declínio ou são mesmo raras em áreas caracterizadas por erosão e desertificação crescentes, devido à pressão humana, quer através do abandono, quer da intensificação do uso do solo e da mecanização. Por se considerar que, na generalidade, o seu valor comercial é reduzido, comparativamente com o dos principais produtos do montado, muitas destas plantas estão subutilizadas. As plantas aromáticas características do montado podem ainda desempenhar um papel importante como indicadoras do estado de conservação do ecossistema, funcionando como um instrumento para a sua monitorização.


    Cogumelos


    Trata-se de outro dos subprodutos do montado que tem sido valorizado dado o seu elevado valor gastronómico. A sua produção e colheita são fortemente influenciados pelas condições meteorológicas, dependendo em grande medida das temperaturas e precipitação em cada estação. Podemos encontrar nos montados uma grande diversidade de espécies de cogumelos e trufas que frutificam maioritariamente no Outono e Primavera.

    No concelho de Coruche constitui um recurso natural ainda pouco explorado e uma potencial fonte de rendimento. Crê-se que a falta de conhecimento poderá estar na base desta situação, pelo que importa informar os proprietários e gestores florestais sobre o valor dos recursos micológicos e as práticas de gestão que favorecem a coprodução de cogumelos silvestres. Na procura deste intento, e tal como sucede com a apicultura, o município de Coruche promove, desde 2016, Encontros Micológicos (cf. n.º 4. II do anexo II) com o objetivo de aprofundar os conhecimentos sobre cogumelos, tendo em conta o crescente interesse por este recurso e o facto de se constituir como uma nova fonte de rendimento para os produtores florestais e populações locais.


    Caça


    A caça tem sido uma atividade praticada pelo Homem ao longo da história, quer para a obtenção de alimento quer como atividade de lazer. Atualmente, tem uma finalidade fundamentalmente desportiva sendo que se tornou num dos recursos geradores de emprego e riqueza em muitas áreas do montado. Pratica-se em terrenos demarcados e é regulada por um conjunto de leis e normas de cumprimento obrigatório. É permitida apenas para espécies consideradas cinegéticas, ao nível da caça miúda como, por exemplo, o coelho-bravo, a lebre, a perdiz-vermelha e o pombo-torcaz e ao nível da caça grossa, as mais importantes o javali e o veado (Reis; Calafate, 2013). Note-se que a atividade cinegética sendo bastante popular suscita, em alguns, reações adversas pelo facto de implicar o abate de fauna selvagem para fins lúdicos. Contudo, consideram os especialistas (idem; PEREIRA et. al, 2015) que quando é bem regulamentada, monitorizada e fiscalizada, não é destrutiva para o ecossistema. As associações cinegéticas fiscalizam as zonas de caça, controlando as atividades dos caçadores, e tomando medidas que favorecem as populações de animais selvagens o que, para além de garantir que estas populações se mantem, beneficia igualmente as espécies predadoras, que têm assim assegurado importantes fontes de alimento (ibidem).


    Turismo e Lazer


    O turismo é atualmente um dos sectores mais importantes da economia portuguesa sendo que a vertente rural ou do agroturismo é uma das modalidades que tem conhecido um crescimento nos últimos anos. A procura do contato direto e genuíno com a natureza e com o mundo rural torna o montado, pelos seus valores paisagísticos, sociais e culturais altamente propício à prática deste tipo de turismo e ao qual não são alheios, cada vez mais, os princípios do turismo sustentável. A este propósito note-se que no ano de 2017 a Câmara Municipal de Coruche organizou a IX Edição da FICOR – Feira Internacional da Cortiça com o tema “O Montado de Sobro e a Cortiça – Património nacional, universal e sustentável” no âmbito do Ano Internacional do Turismo Sustentável, declarado pela Organização Mundial do Turismo.

    À tiragem da cortiça os agentes turísticos têm vindo a dar especial atenção, ao conduzirem grupos organizados até ao montado para observarem in loco a atividade. O tipo de programas varia, tal como o tipo de público, contudo são recorrentes as visitas que incluem um guia especializado, transporte e frequentemente prova dos «sabores do montado», como o mel ou a aguardente de medronho (note-se que o montado contribui igualmente para o turismo gastronómico, ao fornecer produtos regionais e ingredientes de elevada qualidade à restauração). Estas visitas dependem, naturalmente, da sazonalidade da atividade e são fonte de rendimento para os proprietários.


    Cortiça


    É inquestionável que, de todos, a cortiça é o principal recurso do montado. Toma especial relevância nos dias de hoje o seu elevado valor económico, bem como o papel que o nosso país desempenha no quadro mundial da sua produção e transformação. Segundo dados da APCOR – Associação Portuguesa de Cortiça, Portugal é o maior produtor de cortiça, o que equivale a cerca de 49% da produção mundial; 34% da área mundial do montado de sobro localiza-se em Portugal o que equivale a 23% da floresta nacional; 72% dos produtos de cortiça têm como destino a indústria vinícola sendo que 40 milhões rolhas (dia) são produzidas, em média, em todo o país. Em Coruche são produzidos 5 milhões de rolhas diariamente. No concelho que detém a maior área de sobreiro a nível nacional, daqui se extrai cerca de 7% da cortiça de Portugal, pelo esta foi eleita como imagem de marca de Coruche não apenas por uma questão promocional mas porque efetivamente a cortiça é um produto local em torno do qual gira toda uma economia secular.

    O ciclo de vida da cortiça, enquanto matéria-prima, começa com a extração da casca aos sobreiros. A tiragem da cortiça, descortiçamento ou despela constitui-se como objeto do presente pedido de inventariação por se tratar de um processo ancestral cuja particularidade assenta no facto de permanecer praticamente inalterado no seu modo de execução até aos nossos dias.


    Tiragem ou tirada da Cortiça, descortiçamento ou despela


    «(…) o descortiçamento modela a paisagem portuguesa, principalmente nos montados do sul, sem paralelo com as explorações florestais de outras espécies.» (Costa; Pereira, 2007)


    Trata-se da operação que permite a extração da cortiça do sobreiro. Esta árvore possui uma característica singular que assenta no facto de possuir uma casca grossa que se autorregenera após cada extração. Depois de descortiçada a espécie reconhece-se facilmente pela aparência lisa e de cor avermelhada do seu tronco.

    A relevância desta atividade traduz a importância do montado de sobro em Portugal, predominantemente no sul do país, e o facto de o sobreiro (Quercus Suber L.) ser umas das mais importantes espécies da floresta portuguesa considerada, desde 2011, a «árvore nacional de Portugal». A produção de cortiça enquanto matéria-prima, a sua sustentabilidade, rentabilidade económica, os seus usos e as suas especificidades concorrem para que a tiragem da cortiça se mantenha uma atividade nobre e de cariz tradicional, executada manualmente por tiradores especializados cujos conhecimentos zelam, em última instância, pela proteção da árvore.

    Portugal é líder mundial na produção e exportação de cortiça e o concelho de Coruche assume-se como o maior produtor nacional sendo que a sua área de montado representa, como referido, cerca de 7% da área nacional. Por este motivo, a tiragem da cortiça sagra-se como uma das mais importantes atividades do concelho que não sofre, ainda, da concorrência da mecanização apesar de se registarem algumas experiências que por enquanto não têm qualquer expressão prática.

    A produção de cortiça é uma atividade económica que se desenvolve a longo prazo e a função do tirador acompanha essa especificidade. Desde logo, notar que o primeiro descortiçamento ocorre, por norma, após um período de vinte a vinte e cinco anos e, regra geral, com uma periodicidade de nove em nove anos - mínimo legal estabelecido por lei. No (longo) ciclo de vida do sobreiro, a primeira cortiça extraída (cortiça virgem) possui um valor económico reduzido, assim como a segunda cortiça produzida (cortiça secundeira). É após o terceiro descortiçamento que a cortiça (amadia) se torna apta às exigências do processo industrial, cerca de quarenta anos após o início do ciclo de vida da árvore. Ao longo da vida, o sobreiro pode ser descortiçado entre quinze a dezoito vezes.

    É precisamente o saber-fazer associado à separação da camada de cortiça que acompanha o ciclo de crescimento do sobreiro - sem ter consequências na vitalidade da árvore e permitindo a sua regeneração cíclica e integral - que caracteriza a atividade do tirador e lhe confere grande responsabilidade e um elevado grau de especialização incomparável a qualquer outra atividade florestal, agrícola ou pecuária que igualmente se desenvolve em montados puros ou multifuncionais.

    Trata-se de uma atividade sazonal que se realiza entre os meses de maio e agosto durante a fase mais ativa do crescimento vegetativo da árvore. Dependendo das condições climatéricas os testes anunciam a altura em que a “cortiça dá” - o que significa que a cortiça despega com facilidade do entrecasco - marcando o início da temporada anual da extração. Forçar ou precipitar o início da extração, sem que o sobreiro se encontre em plenas condições vegetativas pode representar danos gravosos para a árvore, condicionando a sua regeneração e prestação futura. Os danos podem advir igualmente, e indesejavelmente, da ação do tirador, o que para além de fragilizar a árvore, pode provocar efeitos negativos ao nível da desvalorização industrial. Danos provocados por extrações mal executadas tendem a reduzir a superfície produtiva do sobreiro podendo igualmente favorecer a penetração de pragas e doenças.

    A extração da cortiça é uma atividade peculiar, ancestral, que se reveste de condicionalismos naturais e humanos dos quais depende a sua sustentabilidade. Condicionantes legais que regulamentam, por exemplo, a periodicidade do descortiçamento ou o regime de desbastes, não se sobrepõem porquanto, aos conhecimentos empíricos que modelam, estruturam e singularizam a tiragem da cortiça e a função do tirador que permanece como uma das funções mais duras mas igualmente mais bem remuneradas de entre todos os trabalhos agrícolas. Todavia e como daremos conta, o processo não se resume apenas à função do tirador e ao ato de descolar a cortiça do entrecasco.


    Preparação da Campanha


    A época da tiragem da cortiça começa a ser programada no início do ano e estende-se até abril/maio, consoante o início da campanha. Nesta fase, o proprietário ou subericultor, avalia as condições do montado e decide como pretende que o trabalho seja executado. É a altura em que toma decisões, por exemplo, se opta por proceder à extração e em que moldes, ou se decide adiar um ano ou mais. Neste período o empreiteiro assume a responsabilidade de dar resposta às solicitações do(s) proprietário(s) negociando as condições da extração. O negócio assume variações, que podem incluir o carregamento e empilhamento da cortiça ou não.

    Consideram-se essencialmente duas modalidades de negócio: por empreitada, em que se pré-define um valor por arroba (o equivalente a 15kg); ou por prestação de serviços à jorna, sem acordo prévio do valor por arroba, o que pressupõe o acerto de contas no final. Para cada uma das modalidades considera-se que existem vantagens e desvantagens: na modalidade de pagamento à jorna a remuneração está diretamente associada ao tempo real em que a mesma é executada, contudo, implica uma maior exigência na contratação e maior risco de aumento dos custos. Na aquisição de serviços por empreitada a perceção dos custos é maior e menor o risco económico, contudo, considera-se mais propício ao descuido no ato da extração e, consequentemente, ao aumento indesejável dos riscos de danos no montado.

    Paralelamente a estas negociações, que envolvem proprietários e empreiteiros, decorrem as negociações entre empreiteiros e o rancho, ou seja, tiradores de cortiça bem como homens e mulheres que desempenham outras atividades no processo. Note-se que no concelho de Coruche as situações variam, verificando-se a existência de empreiteiros que trabalham apenas com um racho e um capataz (ou manajeiro) a comandá-lo, e outros empreiteiros que por terem maior volume de trabalho necessitam organizar mais que um rancho, e consequentemente, contratar mais que um capataz.

    A escolha do rancho, tiradores e outros trabalhadores, decorre nesta fase preparatória e é feita sobretudo em função de relações de confiança e proximidade. O empreiteiro escolhe para trabalhar consigo os tiradores com quem já estabeleceu tais relações em anos anteriores. O capataz é, por norma, um antigo tirador de cortiça, muito experiente, sagrando-se homem de confiança do empreiteiro. É ele que no montado orienta os trabalhos e que dá indicações que são fundamentais para a boa prossecução da extração.


    Início da temporada


    É entre o fim da primavera e o início do verão que se inicia a tiragem da cortiça e, por norma, estende-se durante três a quatro meses. O início depende, fundamentalmente, das condições climatéricas. Neste período considera-se que a “casca” está menos agarrada ao tronco da árvore, e essa é condição fundamental para a extração. Até então a cortiça está bem agarrada e qualquer antecipação ou precipitação do descortiçamento pode ser prejudicial.

    Sendo que a extração da cortiça decorre, no mínimo, de nove em nove anos tal significa que a cada ano um rancho trabalha em diferentes locais. Significa também que na extração anterior o rancho pode, ou não, ter sido o mesmo sendo que é comum o tirador recordar-se de ter efetuado extração numa árvore específica e tornar a efetuá-la no ciclo seguinte.

    O início do trabalho numa propriedade é pré-acordado entre o subericultor e o empreiteiro e depois entre este e o rancho. Varia de grupo para grupo e consoante a negociação, o modo como tiradores e restantes trabalhadores se deslocam para a propriedade onde a extração irá decorrer. Se por um lado, há empreiteiros que se responsabilizam pela deslocação do rancho desde um local combinado até ao local de trabalho, outros não garantem a deslocação e cada qual chega ao local por meios próprios.

    A copa é o nome atribuído ao local onde se instala o rancho. Pode ser no monte ou mais frequentemente num local pré-definido no campo. É aqui que todos se reúnem no início e no fim do trabalho e é aqui que almoçam. A copa funciona como um local de convívio e descanso. Quando é instalada no campo, o local é definido estrategicamente pelo proprietário e empreiteiro, em conjunto com o capataz pelo facto de ser também o local a partir do qual se define o percurso da extração. Por esse motivo funciona como o ponto de referência em torno do qual o rancho se movimenta. O local da copa mantém-se durante todo o período em que o rancho opera numa determinada propriedade ou pode ser transferido consoante a necessidade imposta pela dimensão da propriedade e pelo avanço do trabalho.

    O tempo que demora a extração em cada propriedade é definido pelo número e dimensão dos sobreiros, pelo relevo da propriedade e por condicionantes que podem derivar da vegetação natural existente. Tais fatores jogam com o número de parelhas (conjunto de dois tiradores) que ali laboram, pelo que essa questão é previamente acordada entre o proprietário e o empreiteiro durante o período de preparação da campanha.

    Igualmente variável é o horário de trabalho, o qual é igualmente pré acordado entre empreiteiro e trabalhadores com o conhecimento do proprietário. Sendo que o descortiçamento se desenvolve, amiúde, em períodos de elevadas temperaturas e considerando a dureza do trabalho do tirador e dos restantes trabalhadores, a jornada inicia-se, por norma, ainda de madrugada e termina a meio da tarde. Quando as temperaturas são demasiado elevadas, como é frequente nos meses de verão, o trabalho pode iniciar-se mais cedo e terminar pela hora do almoço. As opções relativas ao horário de trabalho variam de rancho para rancho e podem ser alteradas no decurso da campanha, caso se verifiquem situações que possam conduzir a reajustes. Se por um lado o horário pode ser antecipado, prescindindo-se das tardes, sempre que as elevadas temperaturas tornam cada gesto e cada movimento mais difícil de executar, por outro lado, a extração pode ser comprometida também em caso de chuva ou vento suão (quente e seco) e sempre que estes ameacem a continuidade do trabalho. Nestes casos e quando se justifica, o trabalho é interrompido, como sucedeu na campanha de 2017, e retomado logo que o tempo o permita.

    A reunião do rancho decorre, como referido, ao início da manhã junto à copa. Neste local e antes de iniciarem a extração, os trabalhadores tomam a primeira refeição do dia ou reforçam uma refeição previamente tomada. A ocasião serve igualmente para preparar a antecipação do trabalho, nomeadamente para que os tiradores afiem as machadas, trabalho que cada um desenvolve individualmente.

    O início decorre à hora programada e à voz do capataz: “pessoal vamos à ferra”, por exemplo. Note-se que no campo, e para além dos trabalhadores, é obrigatória a presença do capataz. Nem sempre o empreiteiro está presente, sobretudo quando à sua responsabilidade tem mais que um rancho a trabalhar em simultâneo em diferentes propriedades, contudo, a presença do proprietário ou de um representante, é comum para vigiar e acompanhar a extração.

    Assim, e às ordens do capataz, o rancho inicia o trabalho. Cada um dos homens sabe perfeitamente o que tem de fazer daí que se espalham pelo montado sem grandes conversas e sem hesitações. Por esta ocasião, as parelhas de tiradores estão formadas, “sempre que podemos escolhemos o nosso camarada, como se costuma dizer em que equipa que ganha não se mexe”. A coordenação é fundamental, pelo que é frequente que os homens se organizem em parelha consoante relações de proximidade e confiança. Por vezes, inclusive, de relações familiares, nomeadamente, pais e filhos. Em ranchos de trabalhadores que têm um caracter mais fixo e duradouro, é frequente os homens trabalharem com a mesma parelha ao longo dos anos e desse modo estabelecem a relação de confiança e cumplicidade que é desejável e frutífera nesta atividade que se quer rentável e bem-sucedida. Estima-se que cada homem extraia, por dia, cerca de 60 arrobas de cortiça o que equivale a 900 quilos. A escolha do camarada, ou colega de parelha, vai mais além do rendimento funcionando como uma espécie de garantia de sobrevivência, isto porque o trabalho é arriscado e qualquer movimento em falso pode ser bastante prejudicial ao tirador.

    O trabalho é, de facto, arriscado e duro tanto quanto metódico e delicado. Exige mestria e conhecimentos altamente especializados, bem como o máximo rigor. Em causa está o cuidado da árvore e a minimização de danos indesejáveis, considerando que qualquer golpe mal calculado pode ser fatal. A extração da cortiça é acompanhada da conversa entre a parelha de tiradores. Ao mesmo tempo que movem e cravam a machada, os homens falam entre sim, sem nunca se distraírem, e vão combinando a melhor estratégia para a remoção. Note-se que a cortiça é retirada em grandes pranchas, abauladas, muito leves e ainda húmidas da seiva da árvore. As investidas tornam-se tão violentas quanto melódicas. O “cantar da cortiça” é, aos nossos ouvidos, a melodia e os trabalhadores são, aos nossos olhos, a orquestra. É impossível ficar indiferente ao cenário que de tão desalinhado se vai organizando à medida que as árvores se despem. A luz da manhã romantiza o ambiente tanto quanto, pouco tempo depois, o calor abrasador o inferniza. Ao seu lado os homens não dispensam o recipiente da água, um por parelha, o qual a cada passada é transportado por um dos homens. O outro transporta a escada. Acabada uma árvore passa-se à seguinte e assim sucessivamente.

    Quando a árvore é alta, um dos elementos trepa para remover a cortiça enquanto o outro se mantém ao nível do solo. Se a árvore é grande juntam-se duas parelhas. Vão sempre conversando entre si sendo que os temas variam entre múltiplas conversas banais, entrecortadas por indicações e recomendações sobre como progredir na extração.


    Fases ou etapas do descortiçamento


    Traçar – operação que consiste na utilização da lâmina da machada na casca do sobreiro, desenhando cortes que definem o tamanho da prancha a sair. Esta operação é propícia à realização de danos no entrecasco pelo que a destreza e habilidade do tirador é fundamental de modo a atingir esta zona sem danificar;

    Abrir - movimento que o tirador executa com a ajuda do cabo na incisão feita pela machada ao mesmo tempo que torce o gume, fazendo ligeira pressão, de modo a separar a prancha do entrecasco. Nesta fase é possível aferir o grau de dificuldade da extração com base na sensibilidade transmitida pelo machado e no consequente som do rasgamento. Quando a cortiça “dá bem” o som é oco e melódico, quando a cortiça “dá mal” o som é curto e seco. Uns no topo da árvore e outros no chão desferem golpes sequenciais e certeiros desde o fuste às pernadas. Note-se que quando a árvore é alta, é necessário que um dos elementos trepe e efetue a extração a partir do tronco, enquanto o outro se mantém no solo. Contudo e pela sua dimensão, certas árvores exigem que dois ou mais homens trabalhem no cimo;

    Separar e extrair – introduzindo o gume da machada entre a barriga da prancha e o entrecasco, o tirador executa um movimento de torção sob a parcela de cortiça que pretende separar. Em seguida, com as mãos e imprimindo força, o tirador retira cuidadosamente, prancha por prancha, indo aos poucos libertando e despindo o tronco da árvore. Quanto maiores forem as pranchas e mais perfeitos forem os canudos (e consequentemente menores os “bocados”), maior será o seu valor comercial pelo que a perícia do tirador de cortiça pode fazer toda a diferença nesta operação;

    Remover ou descalçar – o tirador termina a extração de um sobreiro removendo os fragmentos de cortiça junto ao solo com a ajuda do olho da machada. Para além do valor económico, esta operação assume-se como medida de precaução sanitária com o objetivo de aniquilar possíveis parasitas que existam nos calços do sobreiro;

    Rematar/Redonda – operação que consiste em efetuar um acerto na zona de união entre a cortiça virgem e a cortiça secundeira ou amadia. A realização de um “bom remate” da extremidade superior do descortiçamento denuncia a habilidade e o preceito do tirador;

    Marcar – operação final que pode ser realizada pelo tirador de cortiça ou por outro elemento do rancho, por exemplo, o capataz ou ainda pelo proprietário ou alguém que o represente. Consiste no ato de inscrever no sobreiro descortiçado o algarismo das unidades do ano em que foi realizada a extração. Para tal utiliza-se tinta branca indelével que deve ser aplicada de forma visível sobre a superfície explorada do sobreiro;

    Uma especial atenção é dada pelos tiradores aos sobreiros virgens. A legislação em vigor define que o primeiro descortiçamento a que um sobreiro é submetido, designado por desbóia, só é permitido em sobreiros cujo perímetro do tronco, medido sobre a cortiça a 1,30 m do solo, seja superior ou igual a 70 cm. A desbóia, da qual se obtém uma cortiça de estrutura muito irregular, é previamente combinada com o proprietário que decide quando estão reunidas as condições para a efetuar. Se entre cortiça amadia surge um sobreiro virgem, nesse caso a decisão de descortiçar é tomada pelo tirador naquele momento, sob a orientação do capataz. Nesta primeira tiragem a altura do descortiçamento não é excessiva, sendo que vai acompanhando o crescimento da árvore na tiragem secundeira e depois gradualmente na amadia pelo que a sensibilidade e a experiência do tirador, nestes casos, é também fundamental. Note-se que só a partir terceiro descortiçamento e daí por diante se obtém a matéria-prima com as propriedades consideradas plenamente adequadas, nomeadamente para a produção de rolhas de qualidade sendo este o mais famoso e mais produzido (também mais exportado) produto da indústria da cortiça. A cortiça resultante da desbóia começa desde logo a ser comercializada, tal como a secundeira, contudo, por um valor substancialmente inferior à cortiça amadia. A seleção é feita por ocasião do empilhamento no estaleiro sendo estas comercializadas para outros fins, por exemplo, ao nível da construção civil para a execução de pavimentos ou isolamentos ou para a execução de objetos decorativos.

    Ao contrário da cortiça virgem ou secundeira, a cortiça amadia já apresenta uma estrutura regular com costas e barriga lisas que serve, em pleno, as exigências da indústria corticeira/rolheira.


    Funções / Atividades paralelas


    É frequente ouvir-se entre os tiradores a expressão “isto é coisa de homens” aludindo ao facto de o seu trabalho exigir uma condição física e uma robustez que, no seu entender, não está ao alcance das mulheres. Note-se que uma machadada exige precisão, mas centenas delas por dia exigem um esforço físico desmesurado. Todavia, o trabalho do tirador é completado por atividades que decorrem paralelamente no montado e as quais são desempenhadas por outros elementos que compõe o rancho. Se em Coruche podemos afirmar que a extração é um trabalho exclusivamente masculino, estes trabalhos paralelos são, muitas vezes, desempenhados por mulheres.

    A elas está reservada a função de juntar as pranchas de cortiça que os tiradores deixam no local da extração, em locais acessíveis à passagem do trator. Chamam-lhes “ajuntadeiras”, ou “molheiras”, sendo que outros homens, que não tiradores, podem igualmente sê-lo.

    Os carregadores, por norma homens, transportam manualmente as pranchas desse local para cima do reboque fazendo uma carrada que obedece a determinada orientação de modo a acondicionar a cortiça e evitar queda(s) de carga na deslocação desde o local da extração até ao estaleiro - o local onde se procede ao empilhamento. Os carregadores alternam entre o trabalho no chão e em cima do reboque. Por vezes são auxiliados pelo tratorista.

    O tratorista é outro elemento do rancho. Pode auxiliar, ou não, na carrada sendo que a sua principal responsabilidade é conduzir o trator, no campo, junto ao local da extração e daí até ao local da pilha, quando a carrada fica completa. A sua experiência revela-se de enorme importância na condução do trator em terrenos por vezes sinuosos dentro das propriedades, precavendo a queda da cortiça nestes trajetos.

    No estaleiro, ou local da pilha, um homem - designado como mestre empilhador - tem a responsabilidade de construir a pilha (de pranchas de cortiça), à medida que as carradas vão chegando do montado. Depois da função do tirador é provavelmente a atividade do processo de extração que requer maior sapiência daí que desejavelmente seja conduzida por um mestre bastante experiente.


    Empilhamento


    O negócio de venda da cortiça é definido pelo proprietário durante a fase de preparação da temporada e assume algumas variações. Entre elas pode incluir, ou não, o carregamento e empilhamento pós extração. Nos casos em que não inclui, o negócio pressupõe que ambas as atividades – carregamento e empilhamento – sejam da responsabilidade da indústria corticeira que encaminha os seus profissionais para a realização destas duas tarefas, ainda no montado.

    Quando o negócio inclui carregamento e empilhamento, o empreiteiro é responsável pela boa condução das tarefas que se revelam, tanto quanto a extração, exigentes, sobretudo no que diz respeito ao empilhamento da cortiça no estaleiro. Note-se que mais uma vez em função do tipo de negócio, a cortiça pode estar previamente vendida e neste caso o comprador exige que o empilhamento seja o mais adequado de modo a servir em perfeitas condições as exigências da indústria. Contudo, o negócio pode pressupor que a cortiça seja comercializada apenas após a fase de empilhamento e, nesse caso, a pilha funciona como uma “montra” onde a matéria-prima é exposta aos olhos do comprador, pelo que o nível de exigência nesta função acentua-se. O objetivo do empilhamento é a demonstração da cortiça extraída e a estabilização e maturação da matéria-prima.

    O local da pilha, ou estaleiro, é previamente definido pelo proprietário e, sempre que possível, deve ser próximo do local da extração. Tenta-se que seja um local facilmente acessível, mais ou menos movimentado e facilmente vigiável de modo a evitar tentativas de furto que acontecem amiúde.

    A própria construção da pilha é considera uma “arte” e obedece a determinados princípios e preceitos. Considerando que se trata de uma construção provisória e efémera, pode ser decisiva para o sucesso e valor da comercialização da cortiça quando o negócio é feito no local e envolve proprietários e compradores.

    No local da pilha uma pequena equipa assume a responsabilidade da tarefa que após o seu início se vai desenvolvendo gradualmente, à medida que a extração do montado decorre. O empilhador é considerado o capataz, ou mestre, desta equipa e todo o trabalho decorre às suas ordens. Com o auxílio de uma fita métrica e esquadro de grandes dimensões começa por traçar um retângulo num terreno vago, previamente selecionado, e que deve obedecer a algumas exigências - como ser um terreno amplo, plano, um local seco e bem drenado. As dimensões variam consoante o número de arrobas calculadas e situam-se, em média, entre os 6 a 10 metros de largura para uma altura de cerca de 2.20m de altura.

    À chegada ao estaleiro, a cortiça amadia é separada de toda a matéria-prima de inferior qualidade com a qual se constrói um empilhamento mais despretensioso e que coloquialmente toma a designação de “pilha de bocados”. Inclui pedaços de cortiça inferiores a um palmo quadrado, cortiça virgem, refugos e calços. Esta cortiça, a qual não se presta à produção de rolhas, é vendida, como referido, para outros fins e por valores substancialmente inferiores. Note-se que a percentagem de “bocados” resultante de uma tirada de cortiça é um dos fatores que pode contribuir para a sua desvalorização.

    A escolha das pranchas de cortiça amadia e o seu empilhamento é conduzida pelo mestre o qual vai construindo e organizando a pilha principal de acordo com algumas regras. A necessidade de efetuar “paredes” exteriores resistentes é uma das mais importantes. Todo o empilhamento pressupõe que as pranchas fiquem viradas de “barriga” para baixo à exceção do “assento” ou primeira camada para permitir que a casca da cortiça, sendo mais resistente, fique em contacto com a terra. Os procedimentos definem que um bom empilhamento deve ficar compacto, sem buracos visíveis.

    As “travadeiras” são pranchas de cortiça planas, de comprimento considerável que são dispostas na perpendicular relativamente à disposição geral da pilha e que atuam como travão, ou seja, evitando desmoronamentos.

    Tradicionalmente a mesma estrutura das paredes exteriores era reproduzida no interior da pilha, contudo, essa forma de execução caiu em desuso pelo que o empilhamento é aleatório no interior da edificação.

    Por fim, é importante sublinhar que a pilha de cortiça, depois de concluída deve ficar cerca de vinte e um dias no local onde foi erigida, considerando-se o tempo necessário para que a cortiça seque e perca a humidade, podendo assim compactar. Esta consideração explica a razão pela qual a pilha é efetuada com 2.20m de altura, ou seja, com o objetivo de diminuir para os 2m após esses dias. Contudo e dependendo do modo como o negócio da venda é acordado, a cortiça pode ser vendida e carregada antes de perfazer os vinte dias sendo que nesses casos é pesada e ajustado o desconto referente à humidade. Atualmente o sistema de pesagem da cortiça é feito por cálculo, de modo a que a medida do volume permita encontrar o peso não havendo necessidade de pesar a cortiça para negociar a sua venda. Como referido, a cortiça continua a ser negociada em arrobas, sendo que uma arroba equivale a 15 kg.


    Ferramentas e utensílios de trabalho


    A machada (ou machado corticeiro) é o principal utensílio de trabalho do tirador de cortiça. É um instrumento de trabalho único que pela sua singularidade e ancestralidade, confere à tiragem da cortiça o seu caráter tradicional. Podemos considerar que funciona como uma extensão do braço do tirador. Por norma são objetos personalizados, ou seja, cada tirador manda executar o seu próprio utensílio de trabalho consoante as suas pretensões. Este tipo de machado caracteriza-se pela sua lâmina em meia-lua, de corte muito fino que permite minorar os cortes e feridas no tronco da árvore e cabo biselado na extremidade que funciona como alavanca na “despela”. Serve exclusivamente a operação de descortiçamento. Toda a machada possui um protetor de lâmina que pode também ser um acessório personalizado, que toma várias designações como “boquilha” ou “borsal”. Alguns são feitos em cortiça, outros em cabedal e se em alguns casos o tirador opta por efetuar artesanalmente o seu protetor, noutros casos ele é adquirido juntamente com a machada no ato da compra. A pedra de afiar, acompanha todo o tirador durante todo o período de extração. O ato de afiar, ou amolar a lâmina faz parte do ritual que precede o início do trabalho, por norma ainda no local da copa, contudo pode ocorrer durante a jornada, sempre que o tirador considera necessário.

    Começa a ser igualmente recorrente o uso de desinfetante na machada como medida preventiva a fim de evitar a dispersão de agentes patogénicos e atuar no controlo de pragas.

    O uso de machado era comum noutras atividades por exemplo nas podas dos sobreiros ou na lenha, contudo mantém-se apenas para fins exclusivos do descortiçamento uma vez que nas outras operações foi gradualmente sendo substituído pela mecanização, nomeadamente o uso de motosserras.

    Para além da machada, a parelha de tiradores faz-se acompanhar de uma escada, tradicionalmente em madeira tendo sido substituída por escada de alumínio. Cada parelha transporta, como referido, a sua geleira térmica com água que veio substituir as tradicionais bilhas de barro que conservavam a água fresca e que hoje em dia definitivamente já não se veem nos campos.

    No local da pilha o mestre empilhador e o(s) seu(s) ajudante(s) trabalham fundamentalmente com três objetos: um maço de madeira, uma vara e escada ou escadote. O maço de madeira é utilizado para alinhar as pranchas de cortiça à medida que vai sendo construída a parede exterior da pilha. Como por vezes sucede que algumas pranchas ficam fora do alinhamento pretendido, o empilhador procede à retificação utilizando o maço para batê-las de modo a ficar em linha, sempre de forma cautelosa para não causar danos. Ao escadote recorre para colocar as pranchas no topo da pilha, chegando à altura pretendida e permitindo o seu encaixe. A vara é um utensílio que serve como medida de referência para demarcar a altura da pilha e por isso é usada durante toda a fase da sua construção.


    Final da Campanha – Adiafa


    Como muitos outros trabalhos agrícolas, a campanha de extração da cortiça termina simbolicamente com um momento de convívio que reúne todos os agentes envolvidos no processo – trabalhadores, proprietários e empreiteiros (e, nalguns casos, as respetivas famílias). A festa que marca o encerramento dos trabalhos no montado continua a ser designada por Adiafa, expressão popular que remonta ao tempo em que decorria no campo, por norma, no último dia de trabalho e tinha como grande objetivo festejar o final das colheitas e/ou agraciar o ano agrícola. Atualmente a festa assume outros contornos pese embora mantenha a mesma designação e o mesmo objetivo de confraternização associado à conclusão dos trabalhos do campo, após o ciclo agrícola. O anfitrião da Adiafa é, por norma, o empreiteiro o qual define o dia, a hora e o local em que o almoço ou jantar decorrerá e se encarrega do pagamento de todas as despesas. A festa deixou de se fazer no campo com o argumento de que «estamos todos fartos do campo, do calor e das formigas». Assim, opta-se por reunir o grupo num espaço de restauração, devidamente climatizado, no centro da Vila. O convite é dirigido a todos os trabalhadores, sem exceção e junta capataz, tiradores de cortiça, ajuntadores ou molheiros, carregadores, tratoristas e o pessoal da pilha, mestre e seus ajudantes. São convidados também para participarem da festa os proprietários. Em 2017 assistimos à Adiafa de um grupo de tiradores da freguesia da Lamarosa, que foi organizada pelo empreiteiro num dos restaurantes mais conceituados de Coruche. Este empreiteiro trabalha para diversos proprietários com apenas um rancho e um capataz e admite que o almoço serve como recompensa pela dureza do trabalho que envolve a extração da cortiça e que, por esse motivo, deixou de ser feito no campo o que, apesar de ser mais “tradicional”, decorre com menos comodidade. Os trabalhadores partilham da mesma opinião pelo que agradecem a refeição que lhes é oferecida num espaço de restauração. Neste caso, o empreiteiro proporcionou um transporte coletivo para trazer o grupo desde a freguesia até à vila, o mesmo transporte que levou o grupo de volta no final do almoço.

    No almoço marcou presença uma das proprietárias que sendo convocada para um breve discurso, lembrou as agruras da atividade e algumas das suas singularidades. “Conto convosco para daqui a cinco anos” foi a expressão de despedida da proprietária demonstrando o interesse em manter a colaboração com este grupo num próximo ciclo de descortiçamento. O empreiteiro proferiu igualmente um discurso que ovacionou os trabalhadores, a sua prestação fazendo em retrospetiva o balanço da campanha.

    A Adiafa marca o momento em que o grupo se despede entre si. Os que são mais próximos ficarão com contacto, inclusive poderão trabalhar juntos noutras atividades, os outros encontrar-se-ão, se o empreiteiro assim o entender, na próxima campanha, a partir de maio do ano seguinte.


    Sociabilidades, sazonalidade e desafios


    A tiragem da cortiça manifesta-se como uma atividade singular que preserva o seu carácter tradicional e manual. No concelho de Coruche mantém-se também como uma atividade exclusivamente masculina, com tendência para o progressivo envelhecimento daqueles que a praticam dado que as idades estão compreendidas, em média, entre os 50 e os 65 anos. Com efeito, o facto de ser uma atividade sazonal e altamente especializada, dificulta a contratação de mão-de-obra. Ainda que se manifeste tendencialmente atrativa por ser bem remunerada, torna-se proporcionalmente repulsiva não apenas pela dureza que lhe é imputada, mas porque garante, no máximo, quatro meses de trabalho.

    A escassez de mão de obra nos montados é encarada, como nos foi confirmado por alguns empreiteiros e proprietários locais como sendo uma das principais preocupações que, gradualmente, tem sido contornada com o recurso à contratação de emigrantes, embora ainda em número pouco significativo neste concelho. É para alguns empreiteiros a única alternativa que se vislumbra a médio prazo para combater a falta de mão de obra no montado. Os emigrantes começam por desempenhar funções menos qualificadas no rancho sendo que alguns tornam-se tiradores de cortiça após alguns anos de observação e aprendizagem.

    Em causa estão sobretudo questões económicas e são essas que ainda vão mobilizando os mais jovens. Um tirador de cortiça arrecada diariamente entre 80€ e 100€, euros pagos à semana para trabalho desenvolvido nos dias úteis sendo superior quando o trabalho decorre ao fim de semana. Estes valores conferem-lhe a qualificação de trabalho agrícola mais bem remunerado, motivo pelo qual se torna igualmente atrativo. É inegável considerar que a extração da cortiça tem implicações económicas relevantes nas comunidades rurais do concelho de Coruche, sobretudo naquelas onde se identificam núcleos mais expressivos de tiradores, como a freguesia de São José da Lamarosa, Santana do Mato, Couço e Branca.

    Alguns testemunhos locais dão conta que nestas freguesias e noutros locais do concelho de Coruche, inclusive na vila, a tiragem da cortiça foi e continua a ser uma fonte de rendimento parcial para um pequeno grupo de homens e mulheres que sendo experientes, mas desempenhando outras atividades profissionais mais estáveis e fora do sector primário, optam por tirar alguns dias de férias para “ir para a cortiça” podendo assim auferir um atrativo rendimento adicional.

    A função do tirador de cortiça é, neste processo, a mais exigente mas também a mais bem renumerada. As mulheres e os restantes trabalhadores ganham cerca de metade do valor do tirador. É frequente verificar-se em alguns ranchos, a presença de marido e mulher, ele tirador de cortiça e ela ajuntadeira ou molheira ou ainda cozinheira. Os filhos também podem estar presentes fazendo ou não parelha com o pai, com quem aprenderam o ofício, mas essa é uma realidade que vai cada vez mais caindo em desuso.

    As mulheres, quando confrontadas com as exigências da sua função – de ajuntadeiras ou molheiras - garantem que é um trabalho duro, agravado por vezes por condições climatéricas bastante adversas e facilmente identificam problemas de saúde que derivam da sua função. Tal como os homens, também as mulheres trabalham, por vezes ininterruptamente durante a época da cortiça, podendo atingir oitenta dias, ou mais, de trabalho. Os homens queixam-se menos mas por vezes lá vão considerando que o corpo dói, que a idade pesa e que as formigas e as carraças sempre incomodam.

    Por fim, a questão convoca outra, que tem que ver com a ocupação destes trabalhadores fora da época da extração. Se algumas mulheres se ocupam do serviço doméstico, outras procuram alternativas recorrendo a outro tipo de trabalhos assalariados, tal como sucede com os homens. O rendimento resultante da extração da cortiça é significativo e apelativo mas no seu discurso mulheres e homens garantem que a sobrevivência anual não se consegue apenas com quatro meses de trabalho, a não ser quando a atividade é desempenhada como complemento (por exemplo, no caso daqueles que já são pensionistas, o que começa a ser cada vez mais frequente dada a tendência de envelhecimento referida). No período fora da época da extração grande parte dos tiradores de cortiça procura ocupação noutras atividades florestais, como na campanha da apanha de pinhas, cortes de madeira (pinheiro e eucalipto), desbastes, cortes/abates ou podas de sobreiros e azinheiras.

    No caso das mulheres e restantes elementos do rancho a colheita da pinha, é uma das tarefas mais procuradas o que não invalida que possam, noutras ocasiões, desenvolver alguns trabalhos agrícolas como a colheita de pimento e outras hortícolas. Convém sublinhar que fora da época da extração da cortiça são muitas vezes os próprios empreiteiros que dirigem os negócios florestais como a compra, corte e venda de madeira de pinheiro e eucalipto, a compra e corte de sobreiros secos e inclusive o comércio de madeira para lenhas. São também os empreiteiros que conduzem a campanha de apanha de pinha que inicia a 1 de dezembro e emprega muitos destes trabalhadores e garante, a todos - trabalhadores e empreiteiros – uma importante atividade de subsistência fora da época da extração da cortiça.
  • Manifestações associadas:
    Atendendo à realidade local do concelho de Coruche consideram-se como manifestações associadas à manifestação cultural em apreço as seguintes: a. Execução do machado corticeiro A atividade do ferreiro é associada à tiragem da cortiça em concreto pelo modo como executa, em moldes tradicionais, o machado corticeiro. Recorde-se que o machado corticeiro ou a machada é principal utensílio de trabalho do tirador de cortiça, sendo que a sua singularidade e a ancestralidade do seu uso conferem a esta atividade o seu caráter tradicional. O utensílio é adquirido a um ferreiro experiente que o executa, mediante encomenda, de forma personalizada. No 19.1 da seção IV do presente pedido de inventário é caracterizado o machado corticeiro enquanto património móvel, bem como no 19.3 da mesma seção é descrito, em maior profundidade a atividade do ferreiro no que respeita à sua execução. Como complementaridade, em anexo ao presente pedido de inventário encontra-se documentado, em vídeo, todo o processo tradicional de execução deste utensílio que serve exclusivamente a operação de descortiçamento. b. Produção de carvão vegetal A produção de carvão vegetal está de certo modo ligada à ideia de que “do sobreiro nada se desperdiça”. De facto, para além da cortiça outras matérias têm utilidade, quer do ponto de vista ecológico quer do ponto de vista económico. Por exemplo, a bolota, fruto do sobreiro, é utilizada como propagação da espécie e também como forragem para animais e para o fabrico de óleos culinários; as suas folhas são utilizadas como forragem e fertilizante natural e o material que resulta da poda dos sobreiros, tal como os exemplares mais decrépitos, fornecem lenha e alimentam a produção tradicional do carvão vegetal. Fora da época da extração da cortiça, proprietários, empreiteiros e tiradores estão assim envolvidos noutro tipo de negócios florestais entre os quais o negócio da madeira e a produção de carvão vegetal que assume particular relevância no concelho de Coruche, sobretudo na freguesia de Santana do Mato onde é mais significativa esta atividade. O processo inicia-se no montado com a recolha e transporte da matéria-prima até ao local onde irá ser transformada. Aí tem lugar processo de produção propriamente dito o qual é relativamente simples sendo que pressupõe a existência de fornos construídos em forma de “iglo” com tijolo, cimento e saibre. Antes de ser colocada no forno, a lenha recolhida é rachada e descortiçada, caso se justifique, para mais facilmente ser transformada pela ação intensa do calor. De seguida, os diversos tipos de madeira são colocados e empilhados em local apropriado e o forno começa a ser arquitetado com o auxílio de um cordel preso no chão com uma estaca no meio do recinto. O cordel vai fazendo a forma arredondada da estrutura à medida que sobe e afunila e se vão colocando os referidos materiais - tijolo, cimento e saibre. Há quem utilize também o barro. É regra de ouro construir o forno com parte da sua parede encostada a uma pequena barreira. A porta por onde é colocada a matéria-prima é cerrada com tijolo e saibre assim que o forno se enche. Pela abertura criada na zona da barreira é lançada a chama para o interior da construção sendo que é posteriormente fechada com o mesmo sistema da porta. Um ou dois tubos funcionam como chaminés e são as únicas aberturas desta estrutura. A madeira é assim submetida a um intenso calor durante três a cinco dias, ao fim dos quais o carvão é retirado, processo ao qual se chama “desenfornar”, partido com o auxílio de maços ou forquilhas e ensacado. Para que o processo se reinicie com nova matéria-prima são necessários oito dias de arrefecimento do forno. Cada forno produz cerca de 3 000 quilos de carvão. Não muito distante da realidade da tiragem da cortiça, é igualmente um trabalho duro. Neste caso é o pó do carvão e fumo que paira constantemente na atmosfera que trazem o incomodo, bem como o facto de ser uma atividade que é desenvolvida pelos trabalhadores sob intenso calor. Esta atividade traduz-se num recurso social e económico muito significativo para as comunidades rurais das freguesias onde tem maior representação. No concelho de Coruche é uma atividade relativamente sazonal e que decorre ainda em moldes mais ou menos tradicionais embora seja uma atividade que há alguns anos deu o salto para a industrialização com a construção de fornos de tijolo e betão e que deram origem à criação de verdadeiras indústrias de transformação as quais produzem carvão de forma contínua durante o ano inteiro. Em anexo ao presente pedido de inventário encontra-se um conjunto de documentação fotográfica que ilustra esta atividade tradicional. A mesma é igualmente ilustrada através da lente da realizadora Tânia Prates que, em 2015, realizou o documentário “Negro de Carvão” a partir da história do seu avô paterno, um dos primeiros carvoeiros do concelho. O vídeo foi realizado num contexto específico do percurso de formação da realizadora sendo que, por esse motivo, não se associa diretamente ao presente pedido de inventário podendo ser visionado através do link https://youtu.be/kHnUgtubobc. Recorde-se que Tânia Prates foi a realizadora do filme o “Cantar da Cortiça” esse sim realizado para fins de associação ao presente pedido de inventário e que consta da documentação (fílmica) anexa.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: A prática da tiragem está ativa em todo o concelho de Coruche considerando, desde logo, que o sobreiro, do qual se extrai a cortiça, é a espécie florestal que predomina localmente, ocupando mais de metade da área concelhia. A dinâmica é mais acentuada nas freguesias de São José da Lamarosa, Santana do Mato, Branca e Couço onde se concentra um número mais significativo de tiradores de cortiça. Descrição: Qualquer tirador de cortiça afirma ter aprendido o ofício observando outros tiradores e trabalhando lado a lado com os mais experientes. A aprendizagem dá-se, por isso, na prática e é neste contexto que ao longo dos anos se vai consolidando. A remuneração é tentadora sendo o principal motivo que leva um indivíduo, por norma ainda jovem, a interessar-se pelo ofício e empenhar-se na sua aprendizagem. Não raras vezes o ímpeto ou o impulso familiar tende a influenciar, sobretudo em famílias tradicionais de tiradores de cortiça onde se contabilizam algumas gerações deles. Pese embora o conhecimento teórico na área da silvicultura se tenha desenvolvido e não obstante o facto de o descortiçamento ser prática referenciada em alguns manuais técnicos, na verdade os tiradores de cortiça tendem a desvalorizar qualquer tentativa de aprendizagem formal, excluindo as que são impostas na sequência de processos de certificação florestal. Os mais jovens desenvolvem e aperfeiçoam as suas competências a cada ano, a cada campanha, a cada sobreiro, fazendo trabalhar a machada, isto é, descortiçando lado a lado com os mais experientes, observando e tomando os seus conselhos. Continua assim assegurado o processo de transmissão oral, empírico e intergeracional que tradicionalmente acompanha a atividade da tiragem da cortiça. Por ser um trabalho fisicamente exigente é “coisa de homens” pelo que se mantém a transmissão por via masculina, naturalmente dos mais velhos para os mais novos. Sendo que não existe formalmente a designação de «tirador aprendiz», na prática os aprendizes trabalham junto de tiradores experientes, muitas vezes em parelha. É frequente, em alguns ranchos, identificarem-se parelhas de pai e filho o que reforça não apenas a relação de confiança entre ambos, como a própria relação de aprendizagem. Contudo, o processo de transmissão não está plenamente salvaguardado. Certo que o ofício é ensinado no campo, campanha a campanha, sobreiro a sobreiro, contudo - e a constatação é feita pelos próprios tiradores de cortiça – verifica-se cada vez menos disponibilidade para aprender como também se verifica cada vez menos disponibilidade para ensinar e tudo por uma questão de tempo. O trabalho é sazonal, leva tempo a aprender e consome tempo a ensinar. Atualmente e segundo constatam, tem-se vindo a revelar cada vez mais difícil transmitir o conhecimento, no fundo perder tempo tentando explicar cautelosamente ao aprendiz desde a inclinação do machado, à força que deve imprimir, ao balanço (a primeira ação que se ensina a qualquer aprendiz) e ao jeito com que deve cravar o entrecasco. «Perder tempo significa perder dinheiro» o que não interessa a nenhum dos envolvidos quando o trabalho é feito à empreitada. Nestes casos o objetivo é tirar a máxima cortiça no mínimo tempo possível pelo que processo de transmissão fica comprometido. A questão, aliada a outras, tem vindo a transformar-se gradualmente num problema de mão de obra difícil de solucionar. Modo(s): A transmissão dos saberes associados à extração da cortiça é feita, essencialmente, por via oral envolvendo tiradores mais experientes e aprendizes. Grupos de tiradores experientes fazem progredir o trabalho mais rapidamente o que aparentemente se manifesta vantajoso para os aprendizes que se veem eles próprios obrigados a progredir rapidamente na aprendizagem. Nem sempre tal se revela benéfico atendendo a que, como referido, este ofício é sazonal, ou seja, o tempo de aprendizagem é curto e escasso para além de ser altamente especializado no conjunto das técnicas e saberes associados que assentam fundamentalmente na ação do homem, e no seu desejável bom desempenho. A transmissão e todo o processo de aprendizagem resulta da forma e da disponibilidade que demonstra um tirador mais velho para ensinar um mais novo e também, do modo como o responsável do grupo, no caso, o empreiteiro integra indivíduos menos experientes, consciente de que mais facilmente comprometem o ritmo do trabalho. Relativamente às funções que decorrem em paralelo no montado por esta ocasião, revela-se fundamental o conhecimento dos homens que organizam a carrada no trator – os carregadores – a quem são transmitidas igualmente por via oral, as melhoras de estratégias de organização e acondicionamento da carga. Fundamental também o processo de aprendizagem do próprio tratorista que, não sendo obrigatoriamente intergeracional, decorre sobretudo da sua própria experiência que ao longo de anos vai acumulando relativamente à forma conduzir em terrenos sinuosos e assegurando sempre as boas condições de transporte da carga que encaminha até ao estaleiro. Por fim, dando conta do processo de transmissão do conhecimento nas atividades que decorrem em paralelo à extração da cortiça é imprescindível considerar o papel do empilhador a quem são transmitidos também por via oral e intergeracional os segredos de edificação da pilha de cortiça para fins de demonstração, estabilização e maturação da matéria-prima. Ao mestre empilhador se requer total conhecimento deste saber fazer – do qual muitas vezes depende o bom negócio – sendo frequente que antes de atingirem o estatuto de responsáveis trabalham alguns anos na pilha como aprendizes ou ajudantes até estarem em condições de assegurar as funções autonomamente.
    Data: 2018-07-30
    Modo de transmissão oral
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: No que diz respeito ao descortiçamento, os tiradores são os principais agentes responsáveis pela transmissão.
  • Origem / Historial:
    A História do setor corticeiro e da tiragem de cortiça no concelho de Coruche estão ainda, em grande medida, por investigar. Para colmatar esta questão e com o grande objetivo de expandir o conhecimento nesta área, a Câmara Municipal encetou, em 2020, uma investigação histórica sobre a produção de cortiça no concelho de Coruche e, em consequência, sobre os antecedentes que enquadram a extração da cortiça e a figura do tirador. Considera-se que esta investigação permitirá, em profundidade, atestar a respetiva biografia social desta manifestação de património imaterial. A importância de conhecer e identificar, para esta manifestação, os grandes marcos e as suas alterações, de carácter estrutural ou conjuntural, assenta precisamente no facto de Coruche ser atualmente o principal produtor de cortiça do país. A história desta atividade no concelho não deixa de ser subsidiária da história da própria cortiça e ambas se cruzam com a história da Humanidade, daí a necessidade de a conhecer e a importância de a documentar. Esta abordagem sintetiza os principais momentos dessa história, salientando os referidos marcos que a delimitam. Relativamente às suas origens mais remotas, fontes históricas revelam os usos ancestrais pelas civilizações pré-clássicas e confirmaram que muito antes da era de Cristo já a casca do sobreiro era utilizada. Sabe-se por exemplo que era utilizada na China, no Egipto e no Próximo Oriente por volta de 3000 a.C., em utensílios domésticos, na vedação de vasilhas e nas artes de pesca (Bombico; Carneiro, 2016). Da Antiguidade Clássica chegaram-nos algumas referências à utilização da cortiça, sendo que uma das primeiras consta dos tratados sobre Botânica do grego Teofrasto, sucessor de Aristóteles, os quais constituem a mais importante contribuição à ciência botânica de toda a antiguidade até ao Renascimento. Neles o filósofo refere-se ao descortiçamento e à enorme capacidade regenerativa desta árvore e a sua faculdade em renovar a casca quando periodicamente esta lhe é retirada. “O sobreiro (…) tem um fruto parecido à bolota (…) Tira-se-lhes a cortiça, e dizem que se lha deve tirar completamente porque, caso contrário, a árvore degenera. Mas em uns três anos volta a cobrir-se dela.” (III, 17, 1) “O descortiçamento circular acarreta a morte de qualquer árvore (…) Mas quem sabe constitui o sobreiro uma excepção. Porque este ganha mais vigor se se lhe tira a cortiça exterior e a que está debaixo dessa tocando a carne. (…)” (IV, 15, 1) (Segura Munguía; Torres Ripa 2009, cit. in Bombico; Carneiro, 2016) Já Plínio-o-Velho (23 – 79 d.C.), na sua Naturalis Historia («História Natural»), faz menção ao sobreiro árvore pequena, de bolotas más e raras, e cujo único produto é a cortiça e ao seu emprego em cabos das âncoras dos navios, redes de pesca, tampas e ainda para calçado de inverno feminino (idem). O conhecido naturalista dá conta que na Grécia antiga o sobreiro era adorado como símbolo de honra e liberdade, motivo pelo qual apenas os sacerdotes o podiam cortar, dando conta também que o sobreiro era consagrado ao Deus Olímpico Júpiter razão pela qual as suas folhas e ramos serviam para coroar os atletas vencedores. Entre a Idade Média e a Idade Moderna, as fontes escritas são parcas destacando-se, nesta época, o pioneirismo português em matéria de legislação ambiental, sendo que as primeiras leis agrárias que protegem os montados de sobro e azinho surgem no início do século XIII, em 1209 (Natividade, 1950). Mais tarde, com os Descobrimentos e a sua importância no desenvolvimento da construção naval, dá-se nota do emprego da madeira do sobreiro na construção das naus e caravelas portuguesas, nomeadamente no fabrico das componentes mais expostas às intempéries (quilha e cavernas). Note-se que no Convento de Cristo, em Tomar, classificado como Património Mundial pela UNESCO, a janela da Sala do Capítulo datada do século XVI possui uma simbologia ligada à história dos Descobrimentos sendo que entre os elementos esculpidos na pedra se encontram troncos de sobreiro alusivos à sua utilização nas caravelas dos navegadores portugueses. As fontes referem também que a cortiça seria exportada (para Inglaterra) pelo menos desde o reinado de D. Dinis onde seria utilizada no fabrico de flutuadores de aparelhos de pesca. Por esta ocasião começa a desenvolver-se o seu interesse comercial (Mendes, 2007). Uma carta de privilégio confirmada em 1457 por D. Afonso V, concede o monopólio da exportação da cortiça por dez anos a Martim Leme, um mercador português estabelecido em Bruges (Bombico; Carneiro, 2016) o que causa grande contestação, sinal, sem dúvida, do seu elevado valor económico. Mas é, de facto, com o vinho que a cortiça mantém a sua relação mais forte e expressiva. Assim o prova uma ânfora datada do século I a.C. e encontrada em Éfeso a qual não só estava vedada com uma rolha de cortiça como ainda continha vinho, ou nas escavações de Pompéia, a cidade romana destruída pela grande erupção do vulcão Vesúvio, onde foram encontradas ânforas de vinhos vedadas com cortiça. Contudo e apesar destas referências, o maior desenvolvimento na aplicação da cortiça como vedante ocorreu no século XVII sendo paulatinamente a partir de então que se inicia a exploração intensiva dos montados que caracterizam a Península Ibérica, quando a produção de rolhas se intensifica. Esta tendência sagra-se como um marco histórico fundamental não apenas na história da cortiça mundial e nacional, como a nível local se acentua a sua relevância no concelho de Coruche. O concelho de Coruche é hoje o principal produtor de cortiça do país com uma extensão de povoamento dominante de sobro de 49 719 hectares (Branco, 2018). Da área total deste concelho (1117km2 de superfície), 60% é ocupada por floresta, dilatando-se o montado de sobro por 80% de todo o coberto vegetal. A par disso, a grande quantidade de cortiça extraída anualmente confere a esta atividade não só uma enorme importância económica e social mas também cultural, pela valorização da sua prática secular e do saber-fazer associado que, nomeadamente no que diz respeito à tirada da cortiça, não conheceu praticamente novidades por via da evolução tecnológica (Mendes, 2018). Esta prática constitui-se num processo tradicional que é pleno de arte na sua aceção criadora com expressão na transformação da paisagem e dos produtos que integram todo um sistema de desenvolvimento local, regional e nacional. Foi sobretudo a partir do século XVIII, com o início da exploração intensiva da cortiça, que se começou a olhar o sobreiro com o respeito sentido e devido a uma das árvores mais características de Portugal. Foi durante esta época que foram introduzidas técnicas de desbaste seletivo e de baixa densidade da zona arborizada para aproveitamento dos solos para a prática agrícola. Como referido, a cortiça terá sido desde sempre utilizada para aproveitamentos vários, como a fabricação de boias para as redes de pesca ou cortiços para as abelhas mas é com a valorização internacional da rolha de cortiça, resultante do crescimento do consumo de vinho um pouco por todo o globo, sobretudo na segunda metade do século XIX, que a área de montado de sobro e, consequentemente, a produção industrial desta matéria-prima conheceram um crescimento que foi bastante notório (Faísca, 2019). Em Coruche existem evidências que permitem antever que a cronologia do negócio corticeiro local seguiu o exemplo de muitas regiões do sul de Portugal. Na segunda metade do século XIX surgem diversos registos de contratos de arrendamento de cortiça como forma de obtenção de matéria-prima. Estes contratos eram maioritariamente celebrados com empresas estrangeiras como a Henry Bucknall & Sons, a Sociedade Corticeira Robinson Bros., Lda., e Herold & C.ª. De acordo com Gonçalves, em 1956, “Por [volta de] 1860 apareceram os ingleses comprando directamente a cortiça aos proprietários e fazendo arrendamentos a longos prazos, chegando alguns contratos a serem válidos por 99 anos” (p. 153). O negócio da cortiça aumentou e generalizou-se nos inícios do século XX, tornando-se então a poderosa alavanca que modificou profundamente a vida económica desta região. A cortiça passou a “exportar-se em grande escala, constituindo a principal fonte de riqueza do concelho” (Pró-Coruche, 1930, p. 8). A exploração da cortiça trouxe riqueza expressa na transferência dos proprietários dos montes para a aldeia e “(...) com a cortiça veio o dinheiro, e com o dinheiro foram surgindo as pessoas distinctas formando classes” (Caiado, 1923, p. 4). Dados referentes à época relatam que, nos montados coruchenses, os preços por arroba passaram de 27$50, em 1947, para 120$00, em 1955, portanto, quase quintuplicaram (Gonçalves, 1956). A valorização e o negócio da cortiça vieram alterar o tratamento destas vastas áreas, que foram desbravas, arrancando-se todas as espécies concorrentes com os sobreiros (Pena, 2002). Deste modo, esta região sofreu uma transformação profunda muito em volta do sobreiro, a partir do último quartel do século XIX, em que o montado de sobro se torna uma criação recente devido à forte intervenção do Homem de forma a melhorar o aproveitamento e a rentabilização dos escassos recursos numa região caracterizada por um clima mediterrânico e solos pobres. Este novo ordenamento e gestão dos montados, bem como todas as atividades florestais que lhes estavam inerentes, originaram a formação de comunidades locais: os foros. Os trabalhadores das freguesias de Coruche não se tornavam suficientes para limpar rapidamente tantos hectares e os proprietários e rendeiros mandavam vir ranchos da Beira, com os quais durante o inverno faziam os arranques (Garcia, 1948). Desta realidade resultaram então os foros, que se constituíram, na sua grande maioria, no início do século XX. Os Foros da Fajarda surgiram nos anos 1890, quando um grupo de trabalhadores das beiras se fixou na região, mas também os Foros da Branca e do Biscainho formaram os mais importantes núcleos de aforamento e pequena propriedade do concelho (Cunha e Santos, 1953). Além da constituição dos povoados, também a toponímia local remete para a história deste território e as transformações a que foi sujeito. Outros nomes de localidades dizem respeito ao tipo de coberto ou ao tipo de ambiente preexistente, tomando como exemplo: Santana do Mato, Foros do Paul, Foros da Charneca, Azinhal, Vale de Figueiras e Sobreiras. Na arquitetura tradicional a cortiça também desempenhou um importante papel no concelho, embora atualmente pouco reste dessas construções. A cortiça era aproveitada “na construção de casas, nas quais servia de cinta nos taipais de segurar a terra dessas construções rudimentares, donde ela hoje sai tal qual como foi extraída dos arvoredos” (Garcia, 1948, p. 27). Importa, aqui, evidenciar a construção de edifícios de cortiça e terra que resultou da conciliação entre as necessidades de grupos sociais relativamente afastados dos grandes eixos de comunicação e os recursos naturais existentes, passíveis de serem explorados, tendo em conta as técnicas e instrumentos disponíveis e as estruturas sociais e económicas. Nas primeiras tiradas de cortiça realizadas no território de Coruche os trabalhadores eram recrutados invariavelmente no Algarve. Os compradores de cortiça algarvios traziam das suas terras os tiradores. Contudo, começaram a surgir as referidas empresas concorrentes apresentando-se com um novo espírito. A empresa Herold, de origem germânica, foi a primeira a fixar-se e não tinha qualquer interesse em recrutar trabalhadores de outras regiões. De acordo com Alberto Garcia na sua obra, Monografia – “Santo António do Cousso”, pode-se afirmar que existiu no concelho uma escola de tiradores de cortiça: “Criou então a casa Herold uma nova escola, ainda hoje existente e a funcionar [referente a 1948], com resultados que, comparados aos de outrora, podem classificar-se de esplêndidos. Entusiasmou o trabalhador rural, deu-lhe regalias nos salários e nas horas de descanso, mandava-lhes para dirigente um homem hábil, mais ou menos da sua condição, que fazia a sua vida, comia e dormia sob os montados e escrevia todas as semanas pequenos relatórios dos acontecimentos” (1948. p. 43). Em torno desta arte, segundo nos refere Garcia, em 1948 “havia uma verdadeira ambição de ser tirador de cortiça; rapaz de 20 anos que o não fosse era depreciado até pelas raparigas nas conversas dos ranchos e bailaricos. O capataz era solicitado com pedidos continuados para colocar e fazer tiradores todos os anos. Os pais, as mães, todos à porfia procuravam cair nas boas graças do capataz, sempre contemplado com uns copos de vinho nas conversas domingueiras feitas nas tabernas escolhidas, preferentemente as mais pacatas, a fim de um certo ar respeitoso rodear o superior, o chefe, do qual se esperava a graça de adornar os candidatos com mais a prenda de serem tiradores de cortiça” (p. 44). Alberto Garcia descreve ainda que no “Primeiro [ou] segundo domingo de Junho, está o pessoal todo falado com trabalho garantido durante sete semanas. Às horas animadas na praça, onde as raparigas passeiam os seus luxos e disputam preços altos nas mondas de arroz, os nóveis atravessam em diferentes sentidos o local mais concorrido da povoação. Entram, saem das lojas, param nos grupos sempre de machada nova de forma peculiar, muito semelhante ao franquisque, pendurada no sangrador. A sua preocupação máxima é mostrarem que vão encetar a vida de tiradores de cortiça” (1948, p. 44). Curiosamente, sabe-se que já em 1900, quando da Exposição Universal, em Paris, a cortiça de Coruche, da herdade da Quinta Grande, pertencente ao ilustre agrónomo e agricultor Visconde de Coruche, ganhou uma medalha de ouro ligada aos produtos das explorações e das indústrias florestais. O expositor, intitulado “Descortiçadores exímios”, consistia “na cortiça inteira de duas sobreiras, tronco e ramadas, perfeitamente intacta sem um corte, sem uma solução de continuidade fóra da linha do descortiçamento. A sua altura será proximamente de seis metros. São exemplares curiosos e prova magnifica de pericia dos operarios agricolas portuguezes” (Boletim da Real Associação Central da Agricultura Portugueza, 1899. p. 246). Como resultado da importância da cortiça, também desde cedo existiu uma preocupação com o melhoramento das acessibilidades, de forma a fazer o transporte desta matéria-prima de uma maneira mais rápida e rentável. Até inícios do século XX os fardos de cortiça, aproveitando a corrente, eram enviados do Couço e de Santa Justa pelo rio Sorraia, chegando até Lisboa. De referir que em Santa Justa ainda existe um local junto à margem do Sorraia designado “Porto da Cortiça” (Bento, 2003). Num debate parlamentar, proferido a 18/05/1899 pelo deputado Isidro dos Reis, este faz menção a uma representação da então “junta da parochia do Couço”, pertencente ao concelho de Coruche, solicitando que a linha [férrea] do Vale do Sorraia fosse das primeiras, se não a primeira, a ser construída das que estavam projetadas para a região. A razão da sua construção prende-se com o facto da melhoria do transporte da cortiça que aqui era produzida e que, na opinião de vários empresários ingleses e americanos, seria a melhor do país (Silva, 2010). A 14 de janeiro de 1904, com a inauguração da linha de caminho de ferro de Setil a Vendas Novas, assistiu-se a uma grande mudança, constituindo um marco importante contra o isolamento e potenciando novas oportunidades. Dados relativos ao ano de 1923 referem que foram transportados a partir da estação de Coruche 1 333 710kg de cortiça. No que respeita à vertente industrial do negócio corticeiro, conseguiu-se apurar, com base no Inquérito Industrial de 1890, a existência de oito pequenos estabelecimentos de indústrias de cortiça, com um total de vinte e um trabalhadores, ligadas à produção de rolhas e de pranchas. Coruche assumia-se nesta época como o concelho do distrito de Santarém com o maior número de fábricas, oito, enquanto os concelhos de Abrantes e Chamusca apenas detinham uma fábrica cada um. Poucos anos depois, em 1911, existe uma outra referência, no periódico Gazeta de Coruche, ao estabelecimento de uma fábrica de cortiça no concelho, propriedade de “Alves do Rio, Ribeiros e Potier Ltd.”, parecendo ser a única referência em relação à antiga presença industrial corticeira no mesmo. A não existência de indústrias de cortiça no concelho até final do século XX fez com que grandes somas que poderiam enriquecer Coruche saíssem “para outras regiões que nada possuem que se compare com a produção e qualidades de cortiça local” (Cunha e Santos, 1953, p. 242). Somente em 1995 viria a ser edificada na Zona Industrial de Coruche uma indústria de transformação de cortiça, a “Equipar”, que em 2005 foi comprada pelo Grupo Amorim. Hoje em dia existem três unidades industriais corticeiras em Coruche, duas delas pertencentes ao Grupo Amorim e a outra ao Grupo Piedade, sendo o setor que mais emprega no concelho, fazendo com que sejam produzidas só em Coruche cerca de 5 milhões de rolhas de cortiça por dia. Considera-se que este é o último grande marco e o mais recente, da história da cortiça em Coruche. Pode-se afirmar que o setor industrial neste concelho foi uma conquista muito mais tardia, explicando o porquê de não ter uma tradição expressiva na transformação. Até então a cortiça extraída dos montados coruchenses era encaminhada para o Barreiro, Montijo, Alcochete ou Seixal para aí ser trabalhada, visto ser nesta zona que se concentravam os grandes centros industriais que detinham uma maior oferta de mão-de-obra e melhores acessibilidades. Atualmente em Coruche são produzidos cinco milhões de rolhas diariamente. No concelho que detém a maior área de sobreiro a nível nacional, daqui se extrai cerca de 7% da cortiça de Portugal, pelo que esta foi eleita como imagem de marca de Coruche, não apenas por uma questão promocional mas porque efetivamente a cortiça é um produto local em torno do qual gira toda uma economia secular. No cômputo geral prevê-se que todo o setor corticeiro envolva um crescimento anual de 3,25% até 2026, tendo o concelho de Coruche um papel fundamental nesse crescimento, não só pela indústria em si mas e acima de tudo pela matéria-prima que aqui existe que é a melhor do país ousando-se afirmar mesmo, do mundo. Perpetuando uma tendência que se veio revelando ao longo do século XX, na transição para o século XXI a indústria corticeira investe cada vez mais em inovação e desenvolvimento lançando para o mercado os mais variados produtos e um amplo conjunto de iniciativas que visam a definição de normas internacionais para a indústria da cortiça. Este século sagra-se como aquele em que a reputação da cortiça atinge o seu auge ao mesmo tempo em que as preocupações ambientais se colocam na ordem do dia pelo que a indústria da cortiça permanece em crescendo graças ao facto de ser matéria-prima ecológica, reciclável e reutilizável e, como tal, estando cada vez mais ao dispor de áreas inovadoras preocupadas com as questões do ambiente e sustentabilidade. Estamos na era em que as novas gerações se interessam por esta via pelo que, sobretudo em Portugal o aproveitamento das potencialidades da cortiça tem vindo a crescer de forma exponencial. Veja-se, entre muitíssimos, o exemplo das telecomunicações e a escolha da cortiça como matéria prima de excelência usada nos smartphones da primeira empresa portuguesa de telemóveis que escolheu Coruche para estabelecer a sua sede. Curiosamente e no extremo oposto desta cadeia, de todo o processo de produção e transformação da cortiça, cujo setor se revela altamente dinâmico, competitivo e pontencializador, a extração, a montante, mantém-se como a mais tradicional e talvez a mais imprescindível, de todas as atividades. A sua sustentabilidade, rentabilidade económica, os seus usos e as suas especificidades concorrem para que a tiragem da cortiça se mantenha uma atividade nobre e de cariz tradicional. A necessidade de zelar pela vitalidade da árvore, para não a danificar, exige habilidade manual e muita experiência, a qual tem conservado praticamente nos mesmos moldes esta atividade profissional ao longo de muitas gerações de tiradores. Até aos nossos dias o descortiçamento persiste em resistir à mecanização. Apesar de existirem já equipamentos para o fazer nenhum processo automático e mecanizado é capaz de tirar cortiça de modo tão rentável quanto o homem e a sua machada. Os especialistas ainda não aconselham o recurso à mecanização, pois ao fazer-se o primeiro corte a máquina pode ferir o sobreiro, enquanto os homens, com um trabalho manual preciso, sabem fazer o corte com mais cuidado e sensibilidade.
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Direitos consuetudinários Tiradores de cortiça
    Direitos individuais Ferreiro
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Susana Cruz, Gonçalo Cabecinhas, Ana Marques, Tânia Prates, David Nunes; Carla Queiroz.
    Função: Técnicos representantes da CMC: Susana Cruz, Gonçalo Cabecinhas, Ana Marques, Tânia Prates e David Nunes; Técnica representante da Via Educação: Carla Queiroz.
    Data: 2018-07-30
    Curriculum Vitae
    Declaração de compromisso
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
Logo Por Lisboa Logo QREN Logo FEDER