Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: PROC/0000000171
  • Domínio: Expressões artísticas e manifestações de carácter performativo
  • Categoria: Manifestações musicais e correlacionadas
  • Denominação: Canto a vozes de mulheres
  • Contexto territorial:
    Local: Centro e norte de Portugal continental
    País: Portugal.
  • Caracterização síntese:
    O canto a vozes de mulheres é uma manifestação cultural que dá voz a mulheres em diferentes localidades rurais do centro e norte de Portugal há sucessivas gerações e pode também encontrar-se em comunidades e(ou) grupos geograficamente distantes, mas que de alguma forma tiveram, ao longo da sua história, contacto com essas práticas. São as mulheres que, em grupos só de mulheres ou mistos, cantam as vozes que formam a polifonia vocal, sendo por isso as detentoras do conhecimento diferenciador desta prática. Valorizam uma distribuição não equitativa das cantadeiras pelas vozes cantantes, numa relação que pode ir de 15 elementos na voz mais grave para um, dois ou três nas vozes mais agudas. Esta característica performativa justifica que em cada um dos grupos haja, na maior parte dos casos, apenas duas ou três cantadeiras com competências para realizar a polifonia, na voz mais aguda. Face a essa escassez de cantadeiras detentoras desse saber específico, em situação de luto ou doença destas cantadeiras, o grupo fica impedido de realizar as polifonias a três e mais vozes. Os grupos percebem essa fragilidade e têm consciência da urgência em desenvolver iniciativas no sentido de instruir novas cantadeiras na competência específica da sobreposição de vozes. Por isso, uniram-se na Associação de Canto a Vozes - Fala de Mulheres para discutir e implementar estratégias de salvaguarda. A complexidade deste saber-fazer musical, que implica a aquisição e aperfeiçoamento coletivo de um amplo leque de competências musicais, tem dificultado esse processo de transmissão. É de notar que tradicionalmente, as mulheres aprendiam a cantar de ouvido observando, imitando e seguindo as advertências das cantadeiras mais experientes. No século XXI, o contexto de transmissão que ocorria no trabalho coletivo ou doméstico vem a ser substituído pelos contextos de preparação ou ensaio (este último em processos com mais formalidade). Todavia, o processo de transmissão continua a ser oral, através da escuta e reprodução reiterada coletiva. Nas localidades onde o canto a vozes de mulheres se canta e faz ouvir, esta prática assinala os momentos de celebração dessa comunidade e do seu passado. Marca presença nas festas e rituais locais como, por exemplo, a missa dominical que se realiza em dias com significado para essa população. Marca igualmente presença em acontecimentos laicos de âmbito cultural, nomeadamente, os momentos de revivificação do passado rural, como as feiras oitocentistas, os encontros de cantadeiras, as desfolhadas, os festivais e as festas de promoção da agropecuária local. Sendo uma memória e competência de mulheres, o canto a vozes habilita-as a serem interlocutoras nessa vida social local que acontece no espaço público, no século XXI. Os contextos de realização do canto a vozes são também contextos de salvaguarda desta prática musical. Todavia, é no contexto da preparação dos grupos para as apresentações públicas, contextos esses cuja regularidade e duração depende de grupo para grupo, que a transmissão de conhecimento se faz, atualmente, apesar de haver um número expressivo de cantadeiras que iniciou a aprendizagem deste repertório em contexto doméstico, de trabalhos agrícolas familiares ou de outros trabalhos coletivos como a replantação da floresta. Cada um dos grupos constituiu o seu repertório a partir: (i) da aprendizagem direta junto de detentoras da tradição (por vezes dentro do próprio grupo); (ii) de cancioneiros (com particular recorrência o Cancioneiro Minhoto de Gonçalo Sampaio ou os Cancioneiro de Cinfães, Cancioneiro de Resende e Cancioneiro de Arouca, de Vergílio Pereira); (iii) de uma combinação de ambos; (iv) de registos áudio e vídeo, disponíveis em diferentes suportes, publicados ou inéditos, com destaque para os coligidos por Artur Santos, Michel Giacometti, Vergílio Pereira, José Alberto Sardinha, e, mais recentemente, Tiago Pereira. O repertório e, nalguns casos, o traje rural no qual sobressai o ouro com que as cantadeiras se adornam, é uma marca distintiva dos grupos entre si, apesar de haver grupos como o das Cantadeiras de Bustarenga ou Cantadeiras de Malfeitoso que não possuem um traje específico. Cada um dos grupos preserva um conjunto de modas específico e, inclusive, quando partilham com outros grupos idênticas melodias e(ou) versos, cantam-nos diferentemente, seja na agógica ou na ornamentação. Alguns grupos estão ligados a associações ou coletividades, ranchos folclóricos e/ou grupos de folclore e, maioritariamente, os elementos destes coletivos mantêm entre si afinidades familiares, de vizinhança, mas principalmente de pertença, ligação e representação de uma comunidade local. A maior parte dos grupos não tem ensaiador ou maestro, sendo uma das cantadeiras ou cantadores a assumir a coordenação do canto a vozes. Desconhece-se a origem deste canto. Alguns estudiosos colocam a hipótese de terem origem eclesiástica (Bonito 1957) e anterior ao século XVII (Sampaio 1940, xxx). Todavia, em narrativas de viagem há referências a grupos de mulheres a cantar polifonias nos campos (Montebelo 1660).
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
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