Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: PROC/0000000191
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Culto a Santa Joana
  • Outras denominações: Devoção e Culto a Santa Joana Princesa
  • Contexto tipológico: O “Culto a Santa Joana” é uma prática social, ritual e devocional constante e ciclicamente recriada em festas, solenidades e procissões, com significativo relevo na realização da Procissão de Santa Joana Princesa que acontece anualmente a 12 de maio. O culto a Santa Joana emerge da comunidade como um ato da esfera do religioso e do divino, expressando-se numa manifestação pública e coletiva, viva e ativa em Aveiro. Esta manifestação de culto coletiva singulariza-se pela participação ativa das pessoas residentes nas freguesias da Glória e Vera Cruz, no centro da cidade de Aveiro. Contudo, o culto a Santa Joana tem acolhimento em todo o concelho de Aveiro e é singularizado pela prática devocional das populações das 10 freguesias concelhias e pela unidade religiosa e social do aglomerado populacional envolvido, o residente e o relacionado. O culto a Santa Joana é continuamente atualizado pela comunidade aveirense, sendo extensível a outras comunidades externas que partilham o mesmo sentimento de identidade devocional, à escala nacional e internacional. O papel das vivências no contexto da religiosidade popular está sedimentado e confirmado não só pela comunidade aveirense, bem como a nível nacional por comunidades residentes em vários lugares pertencentes a freguesias de concelhos distintos. A introdução do culto nas famílias e nas gerações mais novas passa pela dinâmica da Irmandade de Santa Joana e pela continuidade devocional das preces e orações realizadas junto ao túmulo da Princesa e em Capelas e oratórios públicos e privados, e pelas promessas que se fazem e que se materializam em ofertas a Santa Joana, flores na sua essência. Os modos de oferta e agradecimento das promessas evocadas pelos crentes reforçam a história e a manutenção dos seus devotos, que veem nesta devoção à Princesa a expressão de uma entrega aos mistérios da fé em momentos dolorosos, de dúvida na saúde, na expectativa de cura, entre outros sentimentos, e que são expectações/esperanças que passam de geração em geração. As comunidades externas ao concelho de Aveiro em que o culto a Santa Joana está presente e ativo são: em Alvalade (na Paróquia de Santa Joana, Diocese de Lisboa) e Salselas (na Paróquia de Santa Joana, Macedo de Cavaleiros, Diocese de Brangança de Miranda). Em Aveiro a manifestação de culto e devoção a Santa Joana é específica da cidade, na sua área urbana e central, e também na área periurbana, na freguesia de Santa Joana, a qual foi criada em 1985 e onde foi erigida uma Igreja projetada pelo conceituado arquiteto Luís Cunha, e aprovado pela Comissão Diocesana de Arte Sacra, em abril de 1972. A nível internacional a manifestação de culto a Santa Joana é extensível à comunidade de Votuporanga, um município brasileiro do Estado de São Paulo na Região Sudeste do Brasil, e ainda Curitiba, que propiciam anualmente espaços alargados de diálogo e de compreensão de um mesmo culto a Santa Joana Princesa, mas manifestado entre diferentes tradições e solenidades. Em Aveiro, a solenidade de maior visibilidade pública é a Procissão a Santa Joana Princesa que se celebra no dia 12 de maio, dia da Cidade e dia da sua Padroeira – Santa Joana. O dia 12 de maio congrega o lado oficial ao lado religioso, este mais popular, numa manifestação festiva e processional de larga permanência no tempo, instituída após a beatificação de Santa Joana em 1693-4. Contudo, o culto dedicado a Santa Joana tem raízes profundas que se podem evocar ao tempo da sua morte ocorrida a 12 de Maio de 1490. A Princesa foi desde a sua morte venerada como Santa pela comunidade religiosa residente no Convento de Jesus, e, simultaneamente, pela comunidade civil residente na então Villa de Aveiro. Na sequência desta veneração é então beatificada em 1693, por Breve de Inocêncio XI. Contudo, a Princesa é tradicionalmente denominada de Santa Joana, sem que seja popularmente necessário obter tal confirmação do Vaticano. O culto à Princesa Santa Joana foi essencialmente acarinhado e difundido pelo Convento de Jesus de Aveiro, local onde a Princesa viveu desde 1472, e onde morreu no ano de 1490. Coincide o Convento de Jesus com o atual Museu de Aveiro / Santa Joana, lugar onde se encontra sepultada a Princesa. No Coro-baixo do edifício monástico mantém-se a dualidade de uso pelos visitantes, quer sejam crentes e devotos de Santa Joana, ou simplesmente observadores do espaço como obra de arte total, coincidindo ambas as vivências: a museológica, e a de um espaço de oração e de comunhão mantido desde a presença da Ordem Dominicana. Ordem religiosa de clausura do ramo feminino que perdurou até à data que o Convento encerrou portas, em 1910 e após a proclamação da República. Atualmente este local no Coro-baixo mantém uma dupla condição nas suas funções, mantendo as museológicas que advêm da condição basilar de ser espaço de pertença e integrante do Museu de Aveiro / Santa Joana, mas mantém, e em simultâneo, a sua condição de origem como espaço de oração aberto à comunidade e aos que a este local ocorrem por devoção à Princesa Santa Joana. Historicamente e formalmente, partindo do memorial da Princesa Santa Joana (obra escrita durante a sua vida pelas irmãs confidentes), é-nos transmitido ser singular a simpatia e a ligação da população aveirense para com esta Princesa. Tal como o refere a Senhora D.ª Deontelina, pessoa devota de Santa Joana e participante da oração a Santa Joana no dia da Procissão, declarou em entrevista realizada no dia 12 de maio de 2019 o seguinte: “a santidade da Princesa está na caridade” (in entrevista registada a 12/05/2019) e colocada em documentação Associada - PROC/0000000191/FD/007. O historiador António Gomes da Rocha Madail descreve em 1966, num trabalho de investigação documental e arquivística, dados que atestam acerca da “Princesa Santa Joana, e do Senhorio Temporal da Villa ao Padroado espiritual da cidade e da Diocese de Aveiro”, aspetos da memória da população de Aveiro e da sua abnegação pelos vínculos terrenos em favor dos vínculos do Espírito, da Alma (in Bibliografia associada). A poesia do século XVIII e do século XIX, cantada e presente nos cânticos de modo “emotivo” é também significativa na memória da população aveirense (ver em Documentação Associada o Hino de Santa Joana, a Cantata e o depoimento de Aoife Hiney do Coral VOZ NUA que na atualidade interpretou o Hino a Santa Joana datado de 1957-59, (ver em PROC/0000000191/FD/052), com um novo arranjo do maestro Luis Cardoso, em concerto dado na Sé de Aveiro a 11 de maio de 2022). Acerca do papel das freiras dominicanas durante o tempo que antecedeu a beatificação da Princesa e que reporta aos documentos escritos realizados por estas habitantes professas da Ordem, cumpre referir o estudo publicado em 2015 acerca das “Vozes da vida religiosa feminina. Experiências, textualidades e silêncios (séculos XV a XXI) (Lisboa: CEHR, 2015), com destaque para o que o historiador Gilberto Coralejo Moiteiro neste contexto publica sobre o itinerário ou o caminho param a Santidade na vida de Santa Joana Princesa, com um estudo intitulado “Texto e experiência religiosa feminina. Estratégias discursivas hagiográficas no seio da observância dominicana portuguesa”, partindo da análise das estratégias discursivas utilizadas pela autora da Crónica da Fundação do Convento de Jesus (Margarida Pinheiro, freira dominicana do convento de Jesus de Aveiro ou pela Prioresa Maria de Ataíde, do mesmo convento de Jesus de Aveiro). Intercalação de Aveiro: “certamente uma das monjas dessa comunidade de dominicanas, que escreve entre 1513 e 1525, o autor demonstra como estas servem claramente o intuito fundamental da obra, a saber, a plena identificação do seu auditório com os modelos de comportamento e de vivência religiosa nela apresentados.” (Moiteiro, 2015). O culto passa a ser objeto de ofício e de missa próprios que se iniciam imediatamente após a sua beatificação em 1964. Santa Joana Princesa é consagrada Padroeira da cidade e da diocese de Aveiro, em 1965, e por esta razão as solenidades do ritual processional coincidem com as festas do município e com o dia feriado da cidade de Aveiro. O Município de Aveiro decretou o dia 12 de Maio como feriado municipal no ano de 1965, mantendo esta conformidade ao longo dos anos. Mesmo quando esta comemoração municipal foi alvo de questionamento pela Assembleia Municipal e motivo de discórdia neste plenário político, o dia 12 de maio voltou a ser votado e confirmado por uma deliberação municipal plenária, então ocorrida no período pós a Revolução do 25 de Abril de 1974, quando era decorrido o primeiro mandato de um executivo democraticamente eleito para governar a cidade entre 1976 e 1979. À época, uma outra data havia sido proposta, em substituição da de 12 de maio, e que correspondia à data de 16 de maio: a do “Dia dos Mártires da Liberdade”. Reporta esta data à memória dos mártires da Liberdade, defensores do liberalismo, aveirenses e participantes da Revolução de 16 de maio de 1828 ocorrida no Porto. Nesta data seria feita homenagem oficial à memória de diversas figuras ilustres de Aveiro: os liberais de Aveiro que haviam sido decapitados na cidade do Porto, e que persistem na memória coletiva da comunidade aveirense. Em contraponto estava a data da Morte da Princesa Santa Joana, que permaneceu por votação e por unanimidade, como data comemorativa do feriado oficial da cidade de Aveiro (Assembleia Municipal, in Arquivos da CMA). Neste contexto cumpre-nos assumir que a tipologia ou o domínio em que existe patente o culto a Santa Joana é relacionado com “Práticas sociais, rituais e eventos festivos”, sendo o culto a Santa Joana vivido como um modo de ser espiritual e devocional da comunidade aveirense e não só desta, emergindo noutros pontos do País e para além-mar: no Brasil e nos Estados Unidos da América. O Culto a Santa Joana é levado por emigrantes portugueses. É um culto creditado também pela Diocese de Aveiro e pelo Vaticano (onde decorre o processo da sua Santificação que se prevê confirmada em 2023), e ainda, é um culto apoiado por fatores socioculturais e políticos da cidade de Aveiro, que afirmam que esta figura singular da Cidade, a Princesa Santa Joana, tem um sentido simbólico e permanente na devoção comunitária e coletiva, prefigurando uma realidade que se manifesta na celebração anual realizada em dia de feriado municipal, materializado e imaterializado na Procissão da Santa Padroeira de Aveiro: a Santa Joana Princesa.
  • Contexto social:
    Comunidade(s): Freguesias do Concelho de Aveiro; Comissão Fabriqueira da Capela de Santa Joana de Salselas, Macedo de Cavaleiros.; Comunidade Paroquial de Santa Joana Princesa, Lisboa.; Comunidade paroquial da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Lagoa, S. Miguel, Açores; Centro Comunitário da Vera Cruz; Diocese de Aveiro
    Grupo(s): Irmandade de Santa Joana Princesa; Grupo Associativo e Centro Social de Santa Joana Princesa; Graduale – Música Sacra de Aveiro;; Tuna Feminina de Santa Joana da Associação Académica da Universidade de Aveiro; Grupo de Jovens de Stª Joana, Aveiro ; Lyon´s Clube Santa Joana Princesa ; Grupo Associativo - ASAS / Associação Solidariedade e Ação Social Santa Joana; AMPO, Associação para defesa dos órgãos históricos Ibéricos em Aveiro
    Indivíduo(s): Câmara Municipal de Aveiro; Mário Trilha ; Provedor da Irmandade de Santa Joana Princesa na década de 1980, Manuel Boia (Eng.º); Nuno Gonçalo da Paula ; Monsenhor João Gaspar; Domingos Peixoto ; Helena Carapinha; Rosa do Céu; Maria da Graça Ferreira Neves; Isménia do Egipto
  • Contexto territorial:
    Local: Cidade de Aveiro
    Concelho: Aveiro
    Distrito: Aveiro
    País: Portugal.
    NUTS: Portugal \ Continente \ Centro \ Baixo Vouga
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: Celebração pública e comunitária com periodicidade Anual; Festa e Procissão de Santa Joana Princesa a 12 de maio.
    Data(s): maio a 12 (morte de Santa Joana Princesa em 1490); fevereiro a 6 de 1452 (nascimento da Princesa em Lisboa); agosto a 4 (entrada da Princesa no Convento de Jesus de Aveiro em 1472)
  • Caracterização síntese:
    O culto à Princesa Santa Joana, de carácter "imemorial", inicia-se logo após o seu falecimento ocorrido na Primavera do ano de 1490, transferindo-se a ligação da Princesa para a esfera do espiritual e para o espaço do civil, onde um sentimento coletivo de crença e de fé pela Princesa é partilhado em culto pela sua figura. O culto é vivido em ciclos festivos que imaterialmente e materialmente se fazem representar na Procissão de Santa Joana Princesa, aliando-se à manifestação pública de culto um conjunto de objetos litúrgicos e as relíquias de Santa Joana, que recuperam no global, o acontecimento de Culto a Santa Joana. Acontecimento que se repete em cada ano no dia 12 de maio e que adquire caráter imaterial e incorporal, no que é pura reserva em relação à efetuação de um culto que começou essencialmente promovido pelas freiras do convento de Jesus de Aveiro (1490; 1693; 1712; ...), e que se continuou em reciprocidade, pela população local até aos nossos dias. Na medida em que a Princesa se encontra sepultada naquele que hoje é o Museu de Aveiro / Santa Joana, este assume um papel central na devoção que lhe é prestada e no legado histórico, artístico, cultual e patrimonial que lhe está associado. De realçar que, com uma regularidade quase diária, se deslocam ao museu devotos da Princesa que lhe vêm prestar a sua homenagem, orando junto ao Túmulo e colocando ramos de flores, e ofertando esmolas que deixam numa caixa de esmolas da Irmandade de Santa Joana. A memória da população de Aveiro assenta na vida da Princesa enquanto habitante do Real Convento de Jesus ao longo de 18 anos, desde 1472 a 1490, e na abnegação, renúncia da riqueza e entrega espiritual que esta chamou a si durante a sua vida monástica em Aveiro. No ensaio da “Iconografia da Princesa”, registado em separata do Arquivo Distrital de Aveiro, vol. XXIII, nº. 91 de 1952: 57, é dito que esta Princesa deu efetivo “desligamento físico aos afetos e vínculos humanos, valorizando os sentimentos do Espírito” (Madahil, 1957 pp-121-181). Acima dos vínculos terrenos, a Princesa abriu um período de reabilitação moral e social permitindo que o exemplo da sua vida religiosa e monástica estimulasse e motivasse a congregação espiritual da comunidade aveirense. Na edição anual dos festejos que celebram e invocam a Santa Joana Princesa, o Município de Aveiro e o Museu de Aveiro / Santa Joana colaboram estreitamente com a Diocese de Aveiro e com a Irmandade de Santa Joana Princesa, cabendo a esta Irmandade a transmissão do culto e a manutenção das práticas e rituais religiosos, para além do cuidado do património imaterial. Ao Museu de Aveiro / Santa Joana, detentor dos direitos de tutela direta dos objetos relacionados com o culto, tais como as relíquias, as imagens processionais, os paramentos, os andores e os espaços especificamente religiosos da Igreja de Jesus e Coro-baixo (também espaços museológicos), compete-lhe a sua salvaguarda, estudo, conservação e preservação e subsequente valorização. Neste dia da Procissão Santa Joana Princesa, as relíquias da Princesa são devolvidas à comunidade no sentido do seu desfrute e partilha pública o que dá origem à sua integração na Procissão. As relíquias, nomeadamente, o cofre relicário que contém a veste e o cinto pertencentes à Princesa e a “âmbula” de vidro onde se guarda uma madeixa de cabelo da Princesa e ainda a relíquia que contém o Santo Lenho, são transportadas na Procissão de Santa Joana (sob a proteção do Pálio), pelas mãos de dois diáconos, apoiadas em almofadas próprias, indo ao centro o Turíbulo e a Naveta; estes objetos de culto ficam assim em destacados e em exposição, patentes ao olhar de todos: dos que assistem à Procissão ao longo das ruas da cidade. A Festa e a Procissão de Santa Joana Princesa congregam o lado oficial institucional (o da esfera política) e o religioso (da esfera do culto e da devoção), este último mais popular e envolvente das comunidades locais. O lado comunitário constitui uma prática social, ritual e devocional recriada continuamente, em cada ano civil e sistematicamente atualizada pela comunidade. Os Festejos e a Procissão de Santa Joana Princesa ocorrem a 12 de maio, decorrendo ao longo do dia, mas com manifestações prévias que têm início nas cerimónias da véspera que acontecem no dia 11 de maio, consistindo estas na colocação dos andores e das imagens de Santa Joana e de São Domingos na Igreja de Jesus de Aveiro afim de serem transportadas para a Sé de Aveiro na manhã do dia 12 de maio. Do espaço da Igreja de Jesus saem os andores que são transportados para a Sé de Aveiro, no dia 12 de maio, pela manhã antes da eucaristia que terá lugar perto do meio dia. Este momento solene antecede as cerimónias religiosas e a missa oficial, proferida na Sé pelo Senhor Bispo da Diocese de Aveiro, no dia da Procissão de Santa Joana Princesa. Invocando o Culto a Santa Joana, a missa tem como local central a Sé de Aveiro. Após a missa e por volta das 15h inicia a formatura da Procissão de Santa Joana, cujo esquema processional obedece ao tradicional cortejo mantido pela Irmandade de Santa Joana Princesa, passando de geração em geração, pelo menos desde que a então Real Irmandade de Santa Joana assumiu a sua organização e manutenção (1877). Na atualidade esta prática ritual e processional que ocorre no dia 12 de maio é uma manifestação popular e comunitária, que na esfera do religioso e do imaterial expressa ativamente, o culto a Santa Joana. Assim, nos dias de hoje, o ritual devocional de oração dos crentes a Santa Joana prolonga-se até ao final da tarde, até ao final da Procissão. Após a entrada dos andores de S. Domingos e de Santa Joana na Igreja de Jesus (Museu de Aveiro/ Santa Joana) é então celebrada outra missa, acompanhada de uma evocação do hino de Santa Joana cantado pelos presentes junto ao Túmulo da Princesa, no coro-baixo do antigo convento de Jesus, atual Museu de Aveiro / Santa Joana. No Coro-baixo estão sepultados os restos mortais da Santa Joana em túmulo a esta dedicado, datado de 1711, e classificado como monumento (tesouro) nacional. As festividades religiosas congregam um conjunto particular de momentos e de desenvolvimentos históricos, sociais e culturais que são extensíveis a outras comunidades que partilham o mesmo sentimento de identidade devocional sedimentada a nível local pela comunidade aveirense. A nível nacional a Santa Joana é também invocada por comunidades residentes na Paróquia de Salselas em Macedo de Cavaleiros, em Alvalade na Paróquia de S. Joana em Lisboa e a nível internacional pela comunidade de Votuporanga, um município brasileiro do Estado de São Paulo na Região Sudeste do Brasil, e ainda a cidade de Curitiba no Brasil, onde se reune uma grande comunidade de emigrantes, proveniente de Aveiro. O culto a Santa Joana propicia um espaço alargado de diálogo e de compreensão de um mesmo sentimento de celebração, agregando atividades religiosas tais como as missas e orações junto ao túmulo de Santa Joana, a momentos de construção da identidade social e cultural como por exemplo, a serenata ao ar livre, a Santa Joana Princesa, cantada pela Tuna Feminina de estudantes da Universidade de Aveiro, oferecida no final da procissão junto ao Museu de Aveiro / Santa Joana. É ainda oferecido à população um concerto musical que tem lugar no Teatro Aveirense na véspera do dia 12 de maio, aberto à comunidade, ou alternadamente, um concerto com a Filarmonia das Beiras na Sé de Aveiro (2022). Associam-se a estes outros eventos que ocorrem pelas ruas da cidade, para além do pendor comercial da venda de doces realizada ao longo da Avenida de Santa Joana, atraindo pessoas de cá e de fora, de turistas e, naturalmente, criando dinâmicas comerciais entre os próprios residentes.
  • Caracterização desenvolvida:
    As Festas em honra de Santa Joana Princesa são uma celebração de carácter religioso, efetivando-se o ritual da Procissão de Santa Joana Princesa como o acontecimento central do dia 12 de maio. A Procissão de Santa Joana Princesa é considerada como o momento agregador da participação da comunidade local, dos irmãos e das irmãs tradicionais e de carreira, de várias Irmandades e Confrarias, de vários grupos específicos (ver elenco da Procissão de Santa Joana Princesa, no campo "Especificações, Contexto Tipológico e Contexto Social"), de autoridades, de representantes cívicos, e de demais população, forasteiros/turistas e visitantes externos que se juntam à Procissão de Santa Joana Princesa. As festividades religiosas remontam provavelmente a finais do século XVII, inícios do século XVIII. Historicamente, a reverência que em Aveiro se presta à Princesa Santa Joana tem raízes profundas, que se podem procurar em tempos que antecedem mesmo a sua vinda para aquela a que a Princesa chamaria de “minha Lisboa, a pequena”. Assim, podemos iniciar o historial a 15 de janeiro de 1462, quando o seu pai, o Rei D. Afonso V, se desloca à Vila de Aveiro para assistir e participar no lançamento da primeira pedra da igreja do Convento de Jesus, que toma sob a sua proteção. A presença excecional do monarca deve-se à estreita relação que tinha com D. Brites Leitoa, fidalga que obtém de Pio II, em 1461, as licenças necessárias para fundar um cenóbio feminino, da ordem Dominicana. Acompanhado de toda a corte e do Bispo de Coimbra, D. João Galvão, o monarca é recebido por D. Brites dizendo-lhe que um dia ainda neste mosteiro teria e se meteria coisa sua. (MADAHIL, 1939, p. 28). Rocha Madahil continua a sua descrição deste modo: “Esta premunição concretizar-se-á através da escolha de D. Joana, filha única do casamento do soberano com D. Isabel de Coimbra e Princesa Jurada, que contrariando a vontade do pai e do irmão, futuro D. João II, entra em clausura aos dezoito anos, vivendo até à sua morte no Convento de Jesus de Aveiro, como religiosa não professa, e aí se encontrando sepultada. Aquando da sua entrada, a 4 de Agosto de 1472, e acompanhada pelo pai, novo sinal é dado, pois há uma estrela brilhante que paira sobre a Vila (o cometa de 1472 – Halley)”, a/o qual extingue quando D. Joana se recolhe em Jesus. A um sem número de milagres se aliam as virtudes que lhe eram reconhecidas pelos seus contemporâneos, a humildade, a caridade e a mais elevada fé. Dos luxos de que abnegou, da “mão divina” que a salvou de três casamentos com cabeças coroadas que lhe foram impostos, da simpatia que granjeia na comunidade que a recebeu, ficou memória viva no “Memorial da Infanta”, obra hagiográfica com origem no próprio Convento de Jesus, e produzida entre os últimos anos do século XV e os primeiros do século XVI, documento sobre o qual se fundará grande parte do seu processo de beatificação. No “Memorial”, possivelmente saído da mão de Margarida Pinheira (?), as alusões à Princesa dão-na já como santa, culminado a sucessão das coisas extraordinárias que lhe atribuem no seu enterro. A 12 de Maio de 1490, na Sala de Lavor, falece a Princesa Santa Joana. “O seu cadáver é trazido ao coro de baixo para ser sepultado e, ao passar pelo jardim que a própria Princesa cuidava e usava, os marmeleiros e as tílias que plantara murcham em sinal de tristeza. Passam então a acudir ao convento inúmeras pessoas, buscando os milagres que tinha fama de operar, protegendo-os de maleitas através da terra que saía do seu primeiro túmulo e se guardava num recipiente de barro que, ao ser esvaziado, logo enchia milagrosamente, facilitando os partos difíceis com o empréstimo, na grade conventual, do seu cinto ou concedendo geração a pais, nobres e plebeus, desesperados por não terem descendência” (MADAHIL, 1939). Para além desta atenção para quem a ela pedia auxílio, registava-se um outro fenómeno excecional: junto ao seu túmulo, e nos dias do seu passamento, constatava-se a existência de um raro odor a flores, o que sucedeu também quando se abriu o seu túmulo para as verificações das ossadas, necessárias à beatificação. Assim nasce o amor e respeito por esta figura tutelar, não só nas religiosas dominicanas aveirenses, mas também em toda a comunidade, assim se gera também a vontade de a ver subir aos altares. A participação das comunidades na procissão de Santa Joana Princesa: Em 1943, José de Castro, nos seus Estudos Etnográficos (in VI: Culto Religioso, 1934), fornece-nos um extraordinário panorama da organização do cortejo processional. A Procissão de Santa Joana (…) é – por seu esplendor – uma das manifestações religiosas de maior grandeza em toda a região. Constituída pela Cruz Paroquial e dois ciriais, de prata conduzidos por seminaristas revestidos de riquíssimos paramentos branco e ouro. Por ambos os lados uma fila de seminaristas com batina preta e sobrepeliz branca, precedem o «pálio» também de seda branca e ouro, sustentado por oito varas distribuídas por confrades ou individualidades de representação local. Sob o «palio» o sacerdote que preside à Procissão, acolitado por outros dois igualmente revestidos de idênticos paramentos, conduz um precioso relicário onde se guarda a relíquia da Cruz do Redentor, pequeno fragmento a que se dá o nome de Santo Lenho. Dois agrupamentos filarmónicos acompanham a Procissão em todo o percurso, executando marchas lentas apropriadas. E, finalmente, o Povo fiel de todas as camadas sociais, em oração de agradecimento ou de súplica, numa atitude de piedoso recolhimento perante veste acto solene de devoção à Santa Princesa de Portugal”. (CASTRO; 1943, p.333-4). Entre 1985 e 1988, estando na direção do museu a Dr. ª Maria Clementina de Carvalho Quaresma, e verificando a enorme fragilidade em que se encontravam os sumptuosos paramentos de festa em seda e ouro do século XVIII (vestes solenes das imagens processionais, palio, capa de asperges, casulas, dalmáticas, cortinas, etc.) pertencentes e inventariados nas coleções do Museu de Aveiro (IPPAR, 1985-89), determina que estes sejam protegidos, encomendando paramentos novos, muito mais simples, que passaram a estar a uso até aos nossos dias. Logo em 1985 serão executados, pela Irmã Ilda, os novos hábitos das imagens processionais, custando de feitio e tecidos 19.875$00; em 1986 adquire uma nova passadeira para a igreja, assim como o jogo de paramentos para os religiosos que participam nas solenidades do 12 de Maio e novas coberturas para os andores; em 1987, a firma Gaiola Mil 77, confecionará os reposteiros armoriados das portas da igreja e fornecerá albas e toalhas de linho, pelo valor de 120.000$00; por fim, em 1988, é bordado o brasão de Santa Joana a ouro sobre linho, o qual se pode ver colocado no céu do palio quando a procissão sai à rua. (Arquivo antigo do MA/1985-89; em Mapa de receitas e despesas). Da mesma forma resguarda as cortinas de seda, pavilhão, pratas e porcelanas que ainda eram usadas para engalanar a igreja e o altar da Padroeira, no dia que celebra a sua entrada nos céus. Critérios de conservação e uma nova visão museológica determinaram esta opção. Da parte da Irmandade e da própria população houve imediatamente eco a estas novas diretrizes, principalmente centradas nas vestes modestas que foram adquiridas para as imagens, comentando-se que vão, hoje, mais mal vestidas de que há vinte anos e são, agora, os quadros menos bonitos da procissão. Por este motivo, a 18 de Junho de 1993, o Provedor da Irmandade, Eng.º Manuel Boia, dirige um pedido ao Secretário de Estado da Cultura, Dr. Pedro Santana Lopes, para que oferecesse réplicas das vestes originais, o que nunca chegou a acontecer. (Arquivo antigo do MA/ IPPAR - 1985-89; Entrada, Of.º 365/93) Perdia-se em aparato mas ganhava-se a sobrevida de um património excecional, com normas mais apertadas, mas sempre com a disponibilidade dos Diretores do museu e da tutela para uma participação que permitisse que as cerimónias decorressem com toda a dignidade. A Irmandade de Santa Joana Princesa e a população de Aveiro foram reativas a estas novas regras que passaram a acatar com maior serenidade, principalmente devido aos esforços que o Sr. Eng. º Manuel Boia promoveu, no papel de Provedor da Irmandade de Santa Joana Princesa; deve-se ainda a esta entidade, nos mais de vinte anos em que foi Provedor o Sr. Eng. Manuel Boia, a tentativa de recuperar a presença dos Pajens motivando assim o rejuvenescimento desta entidade. Surge então a inclusão do grupo dos Leais Conselheiros, do grupo dos Infantes, grupo do Cavaleiros, e demais grupos, os denominados Grupos de Escudeiros, de Açafatas e dos Pajens que seguem na atualidade da Procissão de Santa Joana Princesa após o Grupo dos Infantes; Os grupos das Aias e das Joaninhas e Dominguinhos que seguem após o Grupo dos Cavaleiros. Seguindo após a Banda os grupos dos Leais Conselheiros e seus Donzéis; o das Damas de Santa Joana e suas Donzelas. Invocam-se no cortejo, personagens que reproduzem a nobre comitiva que acompanhava a Princesa. Acerca da criação do grupo dos Pajens, cumpre registar que já em 1959, D. Domingos da Apresentação Fernandes, criara a Associação dos Pajens de Santa Joana Princesa, grupo que ressurgirá em 1988. No ano seguinte, a Irmandade anuncia aos Irmãos e à cidade que, no préstito [desse] ano, um escol de Infantes e Cavaleiros – não inferior aos pajens na apresentação -, instituirá uma recordação histórica, ligada, em memória, à vida de Santa Joana. Pretendia-se, com estas novidades, não apenas ornamentar o cortejo processional, mas acima de tudo o enquadramento dos jovens no manter vivo o sentimento de apreço pelos nobres exemplos da Padroeira, bem como a esperança de se vir a alicerçar neles o carinho pela Irmandade e passando desde aí a integrar a cenografia processional. (Arquivo antigo do Museu de Aveiro - MA/IPPAR-1985-1989; Entrada, Of.º 30/89). Nos nossos dias continuam a afluir milhares de devotos e curiosos a Aveiro no dia feriado municipal, 12 de maio, povoando não só o Museu em que as relíquias permanecem, mas as ruas da cidade para verem passar, no alto andor, a sua Santa Princesa e Padroeira. As atividades de culto que emergem da comunidade e que se reativam anualmente na procissão de Santa Joana Princesa, são as que vivem da investidura de novos irmãos na irmandade de Santa Joana Princesa, os quais integram os graus mais jovens, para que estes deem jovialidade e continuidade ao ritual processional do 12 de maio. Os jovens investidos deste compromisso fazem a sua confirmação durante a celebração litúrgica na missa solene do dia 12 de maio que tem lugar na Sé de Aveiro, presidida pelo Bispo da Diocese de Aveiro, e na qual fazem a promessa de continuar a imitar a bondade de Santa Joana Princesa, comprometendo-se com a irmandade a seguir a sua carreira até ao grau de irmãos. Nesta eucaristia existem mais grupos juvenis que se vão agregando à Irmandade de Santa Joana Princesa, e que são os seguintes: Grupos dos Infantes (Escudeiros, Açafatas, Pajens); Grupo dos Cavaleiros, Grupo das Aias; Grupos das Joaninhas e Dominguinhos; Grupos dos leais conselheiros e seus Donzéis; Grupo das Damas de Santa Joana e suas Donzelas. Estes jovens devem ter entre 15 a 17 anos (?) de idade para darem início a esta formação que culmina com a representação e participação em atos religiosos e devocionais emergentes na comunidade e evocativos do culto a Santa Joana. As atividades desenvolvidas e relacionadas com o culto a Santa Joana junto das comunidades são prioritariamente da responsabilidade da Diocese de Aveiro e da Irmandade de Santa Joana Princesa. Da Irmandade conhece-se estatutariamente (de 1877), apenas um livro de atas. Só a partir dos anos Oitenta do século XX se constituiu um arquivo de tudo quanto diz respeito à atividade da instituição com os respetivos programas festivos, algumas páginas soltas de convocação de Irmãos, nomeadamente para as eleições e para a procissão de Santa Joana Princesa. Existiam ainda os instrumentos normativos que regularam a Irmandade, a qual nunca deixou de realizar a festa da “Bem-aventurada D.ª Joana” e de “fazer memória do seu excelso patrocínio” (Nuno Da Paula, 2016-18:64). Na tese de mestrado de Nuno Gonçalo Rebelo da Paula é registado o seguinte: “A agonia do Mosteiro de Jesus prolongou-se [desde 1833] por quarenta anos, tudo se consumando em 2 de Março de 1874 – data em que se finou a última religiosa professa, madre Henriqueta Rosa Anjos Barbosa Osório. Nos anos seguintes a Câmara Municipal de Aveiro providenciou à festa da Bem-aventurada Joana de Portugal. Um grupo alargado de aveirenses, muitos dos quais com projeção social e formação bastante para consciencialização do momento presente, compreendeu a necessidade de garantir a continuidade do culto à Infanta aquando da morte da última religiosa do Mosteiro de Jesus. Foi assim que em 16 de março de 1877 um grupo de cento e onze signatários institui a Irmandade de Santa Joana Princesa, da qual foi o seu primeiro Provedor Agostinho Pinheiro da Silva, antigo Presidente da Câmara. Não obstante, uma portaria governamental de 30 de maio de 1877 concedeu à Irmandade o uso da igreja conventual e outras dependências, nomeadamente o coro de baixo, e alfaias de utilização litúrgica, para respetivo uso, havendo necessidade de os enunciar em conforme inventário” (Nuno Da Paula, 2016). A partilha de espaços entre o extinto Convento de Jesus de Aveiro (coincidente com a data da morte da última freira D. Henriqueta de Barbosa Magalhães em 1874), e enquanto Colégio de Santa Joana para educandas de modesta condição social e económica (em vigência de 1874 a 1910), e os espaços de culto da Irmandade de Santa Joana Princesa (Igreja de Jesus e dependências tidas como locais evocativos da Princesa Santa Joana) foram desde o início da constituição da Irmandade, em 1877, alvo de alguma contenda / disputa entre a Irmandade de Santa Joana e o Estado português. Nem sempre foram amistosas as relações entre o Estado, como entidade de tutela do Museu (criado em 1911 após a República), e detentora do imóvel e das suas coleções, e a Irmandade de Santa Joana Princesa. Este confronto de tutelas conduziu a alguns momentos de clivagem, que levaram ao estabelecimento de uma especial cordialidade, de acordos tácitos até ao atual acordo escrito relativamente a um espaço museológico com utilização contínua e não apenas pontual, para celebrações religiosas e para manutenção do culto. O Museu de Aveiro / Santa Joana possibilita a manutenção e salvaguarda das manifestações de cultas prestadas pelos aveirenses, e por quem pretenda dirigir-se ao Coro-baixo, onde está instalado o túmulo de Santa Joana que guarda em reserva os seus restos mortais. Neste espaço convivem a dimensão artística e museológica com a dimensão religiosa e cultual. O Museu de Aveiro / Santa Joana é, igualmente, uma das instituições promotoras do culto dedicado à Princesa, beatificada em 1693 por Breve de Inocêncio XI, mantendo a dualidade de significados, do religioso e do profano, agregados aos espaços de função museológica e aos de maior dimensão espiritual tais como os da Igreja de Jesus, Coro-baixo e Sala de Lavor. A Sala de lavor foi o local onde a Princesa Santa Joana faleceu em 1490, convivendo este espaço com a malha arquitetónica e espacial denominada de área monumental: a que integra o antigo Convento de Jesus das Dominicanas de Aveiro no novo Museu de Aveiro / Santa Joana. Assim, na área do Coro-baixo onde se situa o túmulo de Santa Joana, um dos tesouros nacionais portugueses, e no interior do qual se mantêm em reserva e salvaguarda os restos mortais da Princesa, é respeitado o valor devocional e cultual e permitido aos devotos a oração e a meditação. Convivem neste espaço manifestações de culto mais fervoroso que acontecem no dia comemorativo da sua morte, a 12 de maio, mas também ao longo do ano. Junto ao túmulo acontecem outras manifestações comuns de oração, de reflexão, e ainda, no âmbito das funções de Museu, ocorrem demonstrações de visita ao lugar como obra de arte total. O Museu torna acessível ao conhecimento e ao usufruto dos visitantes toda a área monumental onde se integram vários espaços remissivos da presença e da vivência simbólica da Princesa Santa Joana, abrindo portas a todos quantos desejam experienciar a visita ao Museu do modo mais diverso e sensitivo, promovendo o bem-estar de todos os públicos e não fechando portas aos públicos que a ele se dirigem com fins devocionais. Referimo-nos aos grupos de catequese que cada vez mais se fazem estar presentes, entre outros grupos específicos: estudantes da academia aveirense e famílias. Contexto territorial no qual o culto é vivido durante o ritual processional, bem como as diferentes fases em que este se estrutura: - tendo lugar nas ruas circundantes ao Museu de Aveiro / Santa Joana e à Sé de Aveiro. O percurso inicia na Rua da Corredoura, descendo esta artéria até às Pontes (s/o canal Central), para de seguida subir a Rua Direita até à Avenida de Santa Joana junto ao Museu de Aveiro / Santa Joana, num percurso de aproximadamente 2 Km. Também pode ser feito este mesmo percurso em sentido inverso, ou seja, com inicio na Rua Direita em direção às Pontes para de seguida subir a Rua da Corredoura passando em frente à Sé de Aveiro e dar entrada na Igreja de Jesus. Os irmãos e Irmãs da Irmandade de Santa Joana Princesa, nomeados em reunião de assembleia de acordo com os estatutos da Irmandade, são os responsáveis pela preparação e organização das atividades religiosas inerentes à Procissão de Santa Joana Princesa, em coordenação com a Diocese de Aveiro, com o Museu de Aveiro / Santa Joana e com o Município de Aveiro. Os Estatutos definem os fins e a organização da Irmandade. Já aprovados pela autoridade administrativa em 26 de março, foram em 7 de abril sancionados pela autoridade eclesiástica os “Estatutos da Real Irmandade de Santa Joana Princeza de Portugal, Filha de El-Rei D. Afonso V”, que têm a data de 4 de Março de 1877, a que corresponde à aprovação por aquele grupo de notáveis em Assembleia Geral. Os Estatutos referidos são impressos, primeiro em Coimbra e depois, em 1882, em Aveiro, na Imprensa Commercial. Os Irmãos e as Irmãs desenvolvem ao longo do ano vários eventos religiosos e recreativos em que se debatem os princípios organizativos que levam à concretização da Festa e da Procissão de Santa Joana Princesa. A Câmara Municipal de Aveiro tem a seu cargo a maior parcela de natureza financeira que é previamente discutida pelo executivo camarário face as despesas que a Irmandade de Santa Joana Princesa apresenta para a realização das celebrações. Esta etapa de preparação e seu financiamento envolve decisões sobre os seguros dos bens móveis que acompanham a procissão, nomeadamente, o valor de seguro das relíquias que integram a procissão, das imagens escultóricas, e adereços em metais preciosos que as ornamentam. As relíquias são constituídas por um cofre de cristal e prata onde se guardam as contas e o habito de Santa Joanna, e um outro cofre de cristal que expõe os louros “ cabellos da bemaventurada Princeza”. O orçamento envolve decisões sobre licenças em espaço público, apoio da polícia municipal ao evento e dos bombeiros, licenças para venda e comercialização de doces e afins na rua e nas praças da cidade, quermesses e comunicação do evento na generalidade, e ainda, as despesas com as Bandas Musicais e Fanfarra que integram a Procissão, entre outros. As celebrações desenrolam-se ao longo de dois dias, iniciando-se na véspera com atividades culturais tais como concertos e serenatas ao ar livre promovidos pelas Tunas Académicas da Universidade de Aveiro, masculina e feminina. A Tuna Feminina faz, tradicionalmente, a serenata dita “Memorial a Santa Joana” no final da tarde, e após a entrada dos andores e das imagens na Igreja de Jesus. Na véspera, ou seja, no dia 11 de maio, há um momento solene que corresponde ao arranjo com flores em papel, tecido e ainda com flores naturais, colocadas nos andores em suportes em talha dourada que se prendem no andor em madeira, forrado também em tecido. Os preparativos incluem ainda a tarefa de limpeza e preparação das ruas onde o cortejo tem lugar. As ruas ficam atapetadas com flores e junco. Na manhã de dia 12 de maio as janellas ficam ornadas com belas colchas de seda e damasco bordadas. “Pode dizer-se, sem exageração, que a festa de Santa Joanna, em Aveiro, é em tudo completa” (…) (GOMES; 1875, p. 157-9) As Imagens devocionais de Santa Joana e São Domingos são esculturas encomendadas no século XVIII a oficinas sediadas em Itália, sendo estas também arranjadas para exposição pública na Igreja de Jesus e posterior mente transportadas nos andores respetivos para a Sé de Aveiro. É neste templo que a Procissão é encenada envolvendo uma hierarquia de participantes que se constituem em lugares bem definidos ao longo do cortejo processional. De acordo com os Estatutos da Irmandade de Santa Joana Princesa (Cap. II, Art.º 3) é obrigação dos Irmãos, e obrigações da Irmandade, estipularem as insígnias a usar na Procissão: - uma opa branca com cabeção preto, e n´este do lado esquerdo as armas da Princeza Santa Joanna, abertas a retroz de cores e fio de ouro; e bem assim usará na festividade solemne de Santa Joanna de bandeira de seda branca, tendo bordadas no centro as armas da mesma Princeza, sendo um escudo bipartido, tendo d´um lado as armas reaes e do outro uma coroa de espinhos. (ESTATUTOS; Cap. II, Art.º 15) Ainda hoje é assim! - a câmara municipal faz-se representar pelo seu presidente e vereadores, levando o seu rico estandarte; integram a Procissão entidades oficiais tais como autoridades civis e militares. Acresce referir ainda que no dia 12 de maio, dia da solenidade de Santa Joana Princesa (às 9h15), há lugar na igreja do Convento de Jesus, à investidura e compromissos de membros da Irmandade. A seguir, às 10h00, o Bispo da Diocese de Aveiro preside à Eucaristia na Sé. Á tarde, por volta das 16h00 é tradição a procissão sair da Sé e percorrer algumas das ruas centrais e mais antigas da cidade [por vezes há alteração do percurso]. Por norma as ruas são as que se inscrevem dentro da antiga muralha medieval: “mandada construir pelo Infante D. Pedro, regente de Portugal, Duque de Coimbra e Senhor de Aveiro, Verdemilho, Ílhavo e Mira” (Marques, 1996:1). A Procissão recolhe na Igreja de Jesus de Aveiro por volta das 17h30, onde os andores dão entrada para aí ficarem expostos dando origem a uma oferenda geral das flores que decoravam os andores, acontecimento este que envolve os devotos de Santa Joana e os que participam e assistem a esta solenidade pública. Reside neste gesto uma devoção natural que por tradição se perpetua de geração e geração na crença que as flores que integram a Procissão são portadoras de uma bênção divina, facto que estimula a preservação ao longo do ano, das flores levadas nos andores e colocadas junto ao túmulo (ver . Após a entrada dos andores na Igreja de Jesus, no Museu de Aveiro / Santa Joana, é promovido no final da tarde um evento de natureza cultural e social, uma serenata ao ar livre, dita de “Memorial de Santa Joana” pela Tuna Feminina da Universidade de Aveiro, em honra da Princesa. Nesse dia também se realizam várias peregrinações/romagens com diocesanos de outras freguesias do concelho de Aveiro, impulsionadas pelo Bispo de Aveiro. A procissão mantém-se em toda a sua secular solenidade e grandiosidade, apesar do ónus das despesas que acarreta e dos esforços que, a Câmara e principalmente a Irmandade de Santa Joana têm de desenvolver e promover. No passado como hoje, levantam-se sempre questões de financiamento que o brio acentua, pugnando-se pelo brilhantismo do evento. Neste contexto cumpre-nos assumir que a manifestação cultual que existe agregada a Santa Joana é múltipla e multicultural; é também um modo de ser espiritual e devocional presente na comunidade aveirense e não só nesta, emergindo noutros pontos do País e para além deste, no Brasil e nos Estados Unidos levado por emigrantes portugueses. É um culto creditado pela Diocese de Aveiro decorrendo na atualidade o processo de canonização de Santa Joana Princesa, que se prevê homologado em 2023. É um culto apoiado por fatores socioculturais e políticos da cidade de Aveiro, que afirmam que esta figura singular da Cidade, a Princesa Santa Joana, tem um sentido simbólico e permanente na devoção comunitária e coletiva, prefigurando uma realidade que se manifesta na celebração anual em dia oficialmente designado de "Feriado Municipal", materializado e imaterialmente celebrado através da Procissão em Honra à Santa Padroeira de Aveiro: a Santa Joana. Na atualidade do tempo e do lugar no qual o culto toma presença ativa, existem exemplos vários de assimilação deste culto por práticas artísticas e autores nacionais e internacionais que resultam na produção de objetos de arte contemporâneos. Damos nota deste interesse social, cultural e artístico nos seguintes objetos e instalações de arte contemporânea: obra - instalação da artista luso-francesa Adélia Gonçalves, intitulada "Revelatum, 2019". Instalação com Projecção videográfica, 5’’ colocada na “pia de água benta” junto à entrada lateral da Igreja de Jesus. Instalação criada para a exposição O Tempo da Água, para o Museu de Aveiro/Santa Joana e colocada numa pia de água benta na Igreja de Jesus, no Museu de Aveiro / Santa Joana, em 2019. A descrição desta obra de arte reporta ao facto de todos os anos, no dia 12 de Maio, a imagem de Santa Joana, pertencente ao Museu de Aveiro, sair na procissão das festas em sua honra, deixando o museu onde está guardada. Ao projetar o seu rosto numa tela de água, a artista devolve a imagem à população, ao longo de todo o ano, quando não está habitualmente visível. A imagem dá-se a ver no elemento dominante deste território, a água, símbolo também de purificação. A pia de água benta apela ao gesto ritual do crente e, quando aí mergulha a sua mão, é como se lhe pudesse tocar. É então que a imagem se desfaz entre os seus dedos e precisa de tempo para que o rosto ganhe, de novo, a sua configuração. Descrição assinada por Laura Castro, 2019. Destacamos o facto deste ano de 2022 se ter realizado um concerto na Sé de Aveiro em que o Coro Voz Nua cantou o Hino a Santa Joana com arranjos atuais do maestro Luis Cardoso sobre partituras de 1957-59 e orquestra Filarmonia das Beiras. Sobre este concerto entrevistamos a maestrina Aoife Hiney e ela disse-nos o seguinte: " (...) E depois, no próprio concerto, foi completamente diferente porque foi com este repertório, acho eu, que o público mais se identificou. Gostaram muito de tudo e tiveram os solistas a fazer essa ginástica fabulosa, entre as agudas e a cobertura e isso tudo o que dá brilho, é fabuloso. Mas eu acho que foi o hino no fim que o público começou a cantar junto connosco, e mesmo se não cantaram, eu vi no público os lábios mexerem, [a] dizer a letra lá nos seus lugares, e isso tocou-lhes e isso demonstrou que este repertório de facto tem a sua expressão, tem o seu interesse, e (…) eu também estou aqui há pouquíssimo tempo, não posso falar pelos aveirenses, mas na minha experiência a ver, durante aquele momento, parecia que as pessoas, muitas delas estavam identificadas com aquela música e queriam-se integrar e participar e fazer parte e dar a sua voz assim, à multidão a cantar o hino a Santa Joana.(Aoife Hiney, 5 dezembro 2022). Neste depoimento e em outros que realizamos em 2022 fomos registando a atualidade das descrições e confirmando a permanente identidade das comunidades com o Culto a Santa Joana e sua importância para as populações desta região. Acrescentamos ainda as palavras do músico Messias Simões acerca deste culto para além de Aveiro: Entrevista realizada em 18 de novembro de 2022, na qual este músico nos testemunha o seguinte, a partir da questão sobre algumas partituras, ou o Hino a Santa Joana (?). Isso é uma recolha que não fui eu que mais diretamente fiz, mas que vêm de uma outra localidade que é do museu da Palhaça, que é do concelho de Oliveira do Bairro, e que reflete que, a própria personagem / personalidade da Santa Joana é também seguida fora do concelho de Aveiro, e acredito que, certamente, em muitos outros concelhos haverá sempre registos de músicas que foram dedicadas à Santa. Porque no fundo, a maior parte das pessoas que vêm (subentende-se que é a Procissão), penso eu que são pessoas de fora da cidade e, bem no fundo, usam, ou digamos, a Santa Joana Princesa, é como ponto de encontro para muitas dessas pessoas. Muitas que nem se conhecem, mas que naquele dia funcionam como uma grande família e depois quando regressam a casa vão com aquele sentimento de que para o ano querem voltar. (min. 04:50´). Isso é importante. No entender de alguns (Padre Gustavo Fernandes) existem outros gestos demonstrativos da devoção a Santa Joana fora já de portas, estendendo-se estes a um território alargado da Ria. Por exemplo, representação simbolizada pelo Ícone realizado em 2018, encomenda da Diocese de Aveiro a uma iconógrafa Tânia Pires, o qual foi reproduzido e adotado por algumas paróquias, tais como: Bustos, Fermentelos e Mamarrosa (Oliveira do Bairro), Costa Nova do Prado, Gafanha do Carmo e Gafanha da Encarnação (Ílhavo), Assim, mais do que identificarmos uma devoção antiga a Santa Joana, "detetamos um recente encontro com a padroeira da cidade e da diocese de Aveiro, dando força a todo o esforço por dar a conhecer esta mulher de Deus!" (palavras do padre Gustavo Fernandes da Gafanha do Carmo, Ílhavo, 2022)
  • Manifestações associadas:
    O culto a Santa Joana tem-se mantido desde 1490 (ano da sua morte) mas é vivido numa dimensão comunitária abrangente desde que ao culto privado se associam as festas públicas em honra a Santa Joana, aquando da sua beatificação. As celebrações são autorizadas apostolicamente e ganham grandeza, reconhecimento público e institucional, desde o momento da sua beatificação ocorrida a 04/04/1693. Vários são os testemunhos imateriais associados ao culto de Santa Joana. Em 1626 inicia-se o seu processo de Beatificação, afirmando-se o culto, veneração, prodígios e maravilhas da Infanta, beatificada em 1693, pelo Papa Inocêncio XII, constatando-se através dele, e dos subsequentes, a afirmação da verdade do “Memorial”: os milagres operados e a caridade para com todos, grandes e pequenos. Em 1694 é realizada a primeira procissão solene que se perpetua regularmente até aos dias de hoje. A Procissão de Santa Joana Princesa é a mais expressiva manifestação associada ao culto. Geram-se, assim, e sobretudo a partir da sua Beatificação, objetos de culto: relicários, escultura, pintura, poesia, teatro, música. Um conjunto de peças preciosas do século XV ao século XXI, que demonstram perpetuação da memória e atualidade de D. Joana de Portugal, Princesa e Santa. Santa Joana Princesa, contrariando o estatuto de Beata com culto essencialmente local, está presente e é cultuada em quase todo o país, nas ilhas, nomeadamente em S. Miguel, na Paróquia de N.S. Do Rosário,e no Brasil, Espanha, França, Itália, Estados Unidos da América, e desde sempre difundida no universo da Ordem Dominicana. Na reabertura do seu processo de canonização (2015) celebramos com exaltação os 550 anos da Princesa Santa Joana em Aveiro, ela que a moldou e aos heroicos aveirenses, que a fez notória e levou pelo mundo o seu nome, conferindo-lhe prestígio, notoriedade, continuidade e modernidade. A colocação diária de flores junto ao túmulo da Princesa e a oração dos crentes que espontaneamente acontece junto a este túmulo, são atos de exteriorização/expressão da devoção e da crença que as comunidades civis retêm viva nos dias de hoje. Acresce a estas manifestações de culto diárias e mais comuns, outras de carater mais intimista e que se registam nas várias igrejas das paroquias de Aveiro onde há sempre promessas a serem cumpridas e a serem pagas, evocando a Santa Joana: materializadas em flores no altar da sua invocação, fotografias, e no Museu de Aveiro / Santa Joana existe uma oferta recente de um tapete bordado a ponto tradicional de Arraiolos oferecido por devota da Santa Joana e que tem de figurar sob a mesa de altar nos dias de celebração da Santa Padroeira de Aveiro (a 12 de maio).
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: A transmissão de práticas e de hábitos culturais e também religiosos em torno do Culto a Santa Joana Princesa está ativa e é indissociável da própria história da cidade de Aveiro. A Diocese de Aveiro e a Irmandade de Santa Joana Princesa, a par com a população de Aveiro, mantêm manifestamente viva e ativa a devoção à Padroeira de Aveiro, Santa Joana Princesa. É também mantida pelas comunidades locais a passagem deste testemunho devocional a Santa Joana no seio familiar, legitimando e propagando assim, a crença, a fé e o culto a Santa Joana através de várias gerações. É também ativa a continuação da tradição pelos grupos de jovens, que se organizam em grupos associativos assumindo-se como membros de entidades culturais e artísticas locais, bem como grupos ativos de escuteiros que adaptam formas diversas de participação na Procissão de Santa Joana Princesa. Existem na atualidade outros eventos alusivos a esta Princesa, tais como concertos musicais e lançamentos de livros concernentes a esta figura ìmpar da história Nacional. Na atualidade a Procissão de Santa Joana Princesa é a mais expressiva manifestação associada ao culto. A colocação diária de flores junto ao túmulo da Princesa e a oração dos crentes que espontaneamente acontece junto a este túmulo, são atos de exteriorização/expressão da devoção e da crença que as comunidades (civis e religiosas) retêm viva nos dias de hoje. A Diocese de Aveiro e a Irmandade de Santa Joana Princesa protagonizam desde sempre, tal como na atualidade, um papel fundamental na organização da Procissão de Santa Joana Princesa, o culminar das festividades. Cabe-lhe a ordenação e alinhamento de todos os membros e entidades participantes da Procissão, bem como o correto prosseguimento da Procissão pelas ruas da cidade de Aveiro, integrando vários grupos de representantes institucioanis e civis que dele fazem parte. A Irmandade de Santa Joana Princesa é, por excelência, a aliança que atualiza e renova o culto em proximidade com o povo de Aveiro. A forte presença e participação dos jovens que dela fazem parte dão lugar à investidura de novos “irmãos”, cujo ato solene é sempre presidido pelo Bispo de Aveiro, entidade máxima da Diocese de Aveiro. Esta investidura e o compromisso que novos “cavaleiros”, "infantes", "escudeiros" "pajens" e novas “aias”, "açafatas", "damas" e "donzelas", grupos representativos do histórico social de Santa Joana Princesa devem assumir como “graus de caminhada”, constituem rituais de passagem que todos os anos se realizam no interior da Irmandade e que garantem, simultaneamente, o seu próprio futuro. Ainda da responsabilidade da Irmandade de Santa Joana Princesa é a decoração dos andores de Santa Joana Princesa e de S. Domingos, com rosas e outras flores do mês de maio, saindo ambos da Sé de Aveiro na manhã de 12 de maio e integrando a Procissão. Este delicado labor está a cargo das Irmãs, membros da Irmandade de Santa Joan Princesa. Estas flores, quando no regresso dos andores ao Museu de Aveiro / Santa Joana (local onde permanacem ao longo do ano), e já no regresso das imagens à Igreja de Jesus após cumprido o trajecto da procissão, tornam-se objecto de desejo e posse por parte dos devotos que, num ímpeto, as tentam arrebatar, deixando aos que em último se aproximam dos andores, não mais do que restos caídos de pétalas, ciosamente recolhidas como atributos da Santa Joana e guardadas como sinal de participação e experiência religiosa para memória futura. As rosas são representação da Santa, testemunho que, em síntese, incorpora o significado imanente e transcendente que os devotos lhes atribuem e que se estende ao complexo festivo, apreendido como um todo, pontuado por momentos de maior intensidade devocional: junto do túmulo, das relíquias, da imagem processional na Igreja de Jesus ou à sua passagem durante o cortejo por Aveiro (ver PROC/0000000191/FD/106 ). O valor simbólico das rosas transfigura-se enquanto prova material dos pedidos que os devotos dirigem à Santa: nuns casos, sinal de agradecimento por terem sido concedidos; noutros, esperando o atendimento e a proteção desejados. O Processo de Transmissão do culto pela Irmandade de Santa Joana Princesa, por grupos e coletividades e também por individuais, consta da "caraterização desenvolvida" registada no item anterior desta ficha de inventário em "Caraterização" complementada com a documentação associada . Na atualidade, é de recordar que o Tribunal Diocesano que tomou posse a 25 de junho de 2015 para o processo de canonização da Beata Joana está desde essa data a recolher testemunhos e documentos que atestem “as virtudes heroicas” da princesa portuguesa, ou seja, que comprovem que esta figura, pela sua vida, pelas suas ações, pode ser apresentada como exemplo e modelo de vida para as pessoas. No campo da arte os criadores artísticos continuam a evocar a figura de Santa Joana no contexto mais atual e no sentido de uma mulher de Estado que se emancipou numa época em que esta atitude seria mais difícil de defender e de ser tomada por uma filha de um Rei. Recusando casar-se e dando entrada num convento resignou-se a uma vida palaciana para ter uma vida de observância religiosa. Este facto foi ainda motivo de abordagem em 2022 pelas artistas internacionais, Alicia Herrero Simón e Maria Ángeles Vila Tortosa, Espanha Companhia LAS MITOCONDRIAS, e pela curadora de Itália, Benedetta Carpi de Resmini, num acontecimento criado no Claustro do MA/SJ e apresentado entre 15 e 24 de julho de 2022: We Will Leave our Shape Behind - numa tentativa de reatualizar memórias de mulheres que marcaram a sua época, que mudaram mentalidades e que deixaram marcas na sociedade civil, sua contemporânea. Foi também feito um projeto pela artista Luso-Francesa Adélia Gonçalves, produzido em fotografia e vídeo, obras que foram expostas no Museu de Aveiro / Santa Joana em 2019 e que resultaram na doação de um vídeo/instalação artística, atualmente em projeção na Igreja de Jesus: vídeo artístico Revelatium decorrente da exposição temporária “A Forma da Água”. Damos nota detalhada desta resposta vanguardista criativa do século XXI, no campo da Caraterização Desenvolvida, por ser considerada relevante para a contextualização alargada da mesma. Sobre a atualização e atividade do culto a Santa Joana, no contexto da sua religiosidade, poderemos ainda acrescentar o depoimento de Monsenhor João Gaspar que o integra na sua obra mais atual "Encontros e Encantos na memória de Santa Joana", Ed. Diocese de Aveiro, 2015, e que passamos a citar: "O pedido à protecção Santa Joana mantém-se quando da “tomada de posse” de D. António Moiteiro, no Convento de Jesus, junto do túmulo de Santa Joana, invocação reiterada na primeira homilia dirigida aos cristãos de Aveiro quando da sua entrada na Sé (13SET14). Já no corrente ano – 5JAN15 – aproveitando a celebração do quinquagésimo aniversário da declaração oficial de Santa Joana como padroeira da cidade e da Diocese de Aveiro, anuncia a reabertura do seu processo de canonização.Como reconhece Mons. J. Gaspar (op. cit., 306), se os “bispos de Aveiro mantiveram e dilataram a devoção e padroeira, lembrando-a com justeza, falando dela com assiduidade, homenageando-a com carinho e rogando-lhe com perseverança o seu favor junto de Deus”, a sociedade aveirense afirma em manifestações de fé e actos públicos, que “Santa Joana é de Aveiro! …Aveiro é de Santa Joana!...” Recorda-nos por isso o autor (op. cit., 251) que, hoje como ontem, “o dia 12 de maio é o feriado municipal de Aveiro, que se soleniza com o badalar dos sinos, com o estralejar dos foguetes, com os acordes musicais, com o encontro de pessoas, com a sessão solene nos paços do concelho, com a homenagem a personalidades, empresas e associações aveirenses, com a eucaristia na sé e com a procissão pública por algumas ruas da cidade”. (Gaspar, 2015).
    Data: 2022-05-12
    Modo de transmissão oral e escrita
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Irmandade de Santa Joana Princesa, em Aveiro; Comunidade aveirense; Diocese de Aveiro. Comunidades e paróquias de Salselas, Macedo de Cavaleiros e de Alvalade, Lagares D´El Rei em Lisboa.
  • Origem / Historial:
    Na génese da celebração festiva, pública e participativa das comunidades na Procissão de Santa Joana e nas orações à padroeira de Aveiro, poderemos elencar alguns factos confirmativos da sua santidade que se ligam, também, aos seus processos de beatificação. Nestes poderá estar a Prioresa D. Jerónima da Silva pois, em 1577, e estando em grande aflição, invoca Santa Joana que lhe assoma, ora o seu aparecimento pós-morte era fundamental na argumentação canónica. Com este sucesso, de imediato a Prioresa manda transferir as relíquias da Princesa para um novo túmulo, colocado sobre um pedestal, e já não a singela campa rasa, pedida pela própria Princesa, que as religiosas pisavam quando recebiam a comunhão na grade do coro de baixo. No entanto o primeiro processo canónico só virá a ganhar forma com D. Mariana Coutinho, em 1626, fruto de uma petição dos Oficiais da Câmara de Aveiro e das religiosas do Convento de Jesus. Este processo não foi consequente instaurando-se novos processos, Ordinários e Apostólicos, que certificavam o culto, veneração, prodígios e maravilhas da Infanta permitindo-se reconhecer as suas imagens expostas à veneração pública, desde tempos antigos, com a faculdade de as visitar, reconhecer e descrever. Tiveram lugar em Coimbra, diocese à qual pertencia a então Vila de Aveiro, em Lisboa e Évora, iniciando-se em 1686 e culminando no de 1689, que determinará a sua subida aos altares. Assim, a Princesa seria finalmente beatificada, Per viam cultus immemorabilis, ou seja por ser provado o seu culto imemorial, através de um breve de Inocêncio XI, a 4 de Abril de 1693, passando a ter oficio e missa próprios, para todo o país e para a Ordem Dominicana. Os depoimentos dados pelas testemunhas, religiosas domínicas, clero e notáveis tinham provado o secular culto prestado, com a atribuição de feitos extraordinários através da intercessão da Princesa, que nos aparecem discriminados quer no processo de 1626 quer no de 1689. A beatificação permitia o culto público, e com ele a possibilidade de serem realizadas procissões. Logo em 1694, no priorado de D. Lourença da Silva, se leva à rua uma magnífica procissão, integrando diversos andores com figuras alegóricas, desenhadas por Sebastião Pacheco Varela, em que a primeira imagem da Princesa é levada sobre um carro dourado, integrando ainda o cortejo várias encenações da sua vida. Esta imagem seria então colocada no altar da igreja que lhe é dedicado, e no qual permanece. Aveiro e sobretudo o Convento de Jesus, não se pouparam a esforços para celebrar com a maior gala o acontecimento que, pelas descrições, se pode afirmar ter sido o maior momento de teatralidade e magnificência barroca jamais vista na Veneza de Portugal, com sermões, missas pontificais, procissões, musica, jogos, fogos de artificio e touradas a unificarem a Vila em torno da figura real que subia aos altares e que causava a euforia geral. Os esforços das monjas iam no sentido de enaltecer a sua Princesa Santa, entrando em vastos programas decorativos a ela dedicados, que embelezavam e engrandeciam o convento ao mesmo tempo que punham em evidência o seu modelo de virtude. Inserem-se nesta dinâmica o novo túmulo de embrechados marmóreos, que D. Pedro II concede para receber condignamente as ossadas da agora Beata Joana, encomendado ao arquitecto régio João Antunes, os programas da capela-mor da igreja, o seu magnifico altar em frente à porta de entrada no templo, a conversão da Sala de Lavor em capela-relicário. No período Joanino será ainda tentada a canonização, através do Processo Apostólico, corrido em Coimbra, de 1749 a 1752, o qual não teve êxito por desinteresse dos requerentes. (SANTOS, 1963, p. 224-246) A continuidade da devoção no Convento de Jesus das Dominicanas de Aveiro e a morte da última freira em 1874. Entretanto, o convento goza da prerrogativa de poder estar ativo até à morte da última religiosa professa, facto que ocorre a 2 de Março de 1874, com D. Maria Henriqueta dos Anjos Barbosa Osório. Logo o delegado do Tesouro Público de Aveiro, António Leite de Sousa Reis, participa à Direcção Geral dos Próprios Nacionais a urgência de ser definido o destino a dar às recolhidas do convento, do qual teriam de sair assim que a Fazenda Nacional tomasse posse do edifício. Desponta então um movimento, encabeçado pela Câmara de Aveiro e com o total apoio das recolhidas, que roga ao Rei que lhes seja autorizada a conservação do mosteiro como casa de educação e ensino. O Governo, sensível ao rogo dos aveirenses, autoriza a instalação nas dependências do Convento de Jesus de um colégio feminino, sob invocação da Princesa Santa Joana, orientado pela pupila D. Leonor Angélica Cardoso de Lemos. Todavia o colégio debatia-se com graves dificuldades. Com o bispado de Aveiro em situação de indefinição desde a morte do terceiro bispo, D. Manuel Resende, em 1837, e sendo abolida posteriormente, em 1882, será o Bispo-Conde, D. Manuel Correia de Bastos Pina, que procurará resolver as questões prementes que o colégio vivia. Contacta D. Teresa Saldanha, que dirigia a Congregação de Santa Catarina de Sena das Irmãs Terceiras Dominicanas, e o colégio, com fôlego renovado, reabriria a 10 de Novembro de 1884. Foi sua diretora, durante vinte e cinco anos, a Madre Inês Champalimaud Duff, ficando à sua responsabilidade o edifício e as relíquias da Princesa. A organização da Irmandade de Santa Joana – é estipulada à Irmandade de Santa Joana Princesa o promover o culto religioso de Santa Joanna, conservar no maior aceio o altar, o túmulo da Santa Joana Princesa e a Igreja de Jesus, e praticar todos os actos de piedade e beneficência, que forem compatíveis com os seus rendimentos, depois de satisfeitas as suas despezas obrigatórias. (ESTATUTOS; Cap. I, Art.º 3); No segundo capítulo: “Dos Irmãos, e obrigações da Irmandade estipulam-se as insígnias a usar, uma opa branca com cabeção preto, e n´este do lado esquerdo as armas da Princeza Santa Joanna, abertas a retroz de cores e fio de ouro; e bem assim usará na festividade solemne de Santa Joanna de bandeira de seda branca, tendo bordadas no centro as armas da mesma Princeza, sendo um escudo bipartido, tendo d´um lado as armas reaes e do outro uma coroa de espinhos” (ESTATUTOS; Cap. II, Art.º 15). Ainda hoje é assim! O capítulo III respeita à Mesa e suas atribuições, o IV Das penas e multas (prevendo a possibilidade de expulsão aos irmãos que provocassem prejuízo à Irmandade e multas para os que não aceitassem as funções para as quais tenham sido eleitos e para o tesoureiro, caso empreste ou alugue algum bem da Irmandade). No capítulo V desenvolvem-se as Disposições Geraes e, por último, o VI capítulo de Disposições Transitórias, enunciando deveres de parte a parte, entre a Irmandade e a comunidade religiosa. O Património material Com a Irmandade preenchia-se, ou pretendia preencher-se, algum vazio legal, nomeadamente na posse e guarda das preciosidades destinadas ao culto da Princesa. A partir de então, assim como o Colégio, passam a estar sobre a sua alçada, devidamente inventariadas pela Irmandade em 1877 (tendo por base os inventários anteriores de 1859 e 1874) e em 1888, especificando-se as alfaias, paramentos e joias, assim como o uso pela Real Irmandade da igreja, coro baixo, sacristia, capela da Senhora da Assunção e capela de Santa Joana (erigida em 1734 na Sala de Lavor). Numa perspetiva diferente, mas importantíssima, vívida, popular e externa é a descrição que Tobias faz da procissão a que assistiu em 1896, publicada no semanário “Branco e Negro”, de 24 de Maio: “Dia alegre de sol. De todas as bandas, por estas estradas claras que desembocam na pittoresca cidade do Vouga, a Veneza lusitana chamada, - ranchos de aldeãos em trajos domingueiros, affluem em ondas, logo de manhãsinha, espalhando-se pelos quatro cantos da cidade, emquanto a procissão não sae p´rá rua. Aveiro, hoje, tem um aspecto desusado de gala. Pellas janellas, rostos sorridentes inclinam-se; ouve-se um chalrar estridulo; anda no ar uma musica festiva, um zumbido de romaria, que parece ennovelar-se n´esta atmosfera translúcida e azul, fazendo-nos correr nas veias, mais apressado e fogoso, um sangue rutilo de folgança jovial. (…) Suffoca-se. As ruas estão cheias de gente. Há um rumor longínquo de povo que ondula, n´uma ancia de arranjar um bom lugar á frente, para vêer melhor. Silencio. Parece que começam a saír as irmandades porque vejo cabeças debruçadas para a frente, na rua, em todo o percurso, e pellas janelas d´onde pendem colgaduras de damasco, ricas e lindas, em verdade. Ageito-me um pouco mais para ver também; acotovélo os meus visinhos, que não se impacientem. Abro um sorriso agradecido. Já vejo, já vejo. Effectivamente, a procissão começa a desfilar. Não posso fixar precisamente a ordem por que vae. É imponente, é o que sei dizer. Fluctuam ao vento da tarde as opas das confrarias e abrem claros na multidão as sobrepelizes dos padres. D´algumas janelas atiram flores. É o palio que passa, agitando os seus doirados que reluzem. O povo ajoelha, reverente e contricto. Ergo então um pouco a cabeça e tiro para minha vista um aspecto bizarro de toda aquella gente com a espinha dobrada e olhos no chão, como se o resplendor da mitra e da custodia a cegasse. É então que consigo descobrir ao longe o andor de Santa Joanna Princeza, ondulando gravemente, com a grande capa de setim cahindo para traz, em longas pregas. (…) A festa da natureza, cá fora, também era bem bonita e com um leve toque religioso que descia da atmosphera, onde pareciam correr fumos de incenso. (…) O povo começa a agitar-se p´ra seguir o radiante cortejo. À festa sagrada alia-se sempre a festa profana, ambas criando um espaço manifesto de devoção e reverência mas também de afabilidade e integração.” (Tobias, 1896). Nos últimos meses da monarquia, a casa conventual, em particular a igreja, compreendendo o túmulo de Santa Joana, seriam classificados como Monumento Nacional, por Decreto de 16-06-1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910. No ano seguinte, a 23 de Agosto, um decreto dos ministros Afonso Costa e José Relvas estabelece o seguinte: 1.º – São cedidos à Câmara Municipal do Concelho de Aveiro os edifícios e suas dependências dos extintos conventos de Jesus e das Carmelitas nessa cidade, a fim de neles instalar repartições públicas, escolas, tribunais e quartéis de polícia; 2.º – A parte do convento de Jesus, contígua ao claustro e à igreja, a qual já foi declarada monumento nacional, será destinada à instalação de um museu regional de arte antiga e moderna, na medida do que for sendo necessário e sob a administração da Câmara Municipal. Melo Freitas, que defendia que um monumento classificado como nacional não pode estar à mercê de vandalismos e não pode ser arbitrariamente deturpado, truncado ou alienado (FREITAS; 1911, p.) vê a sua proposta de criação de um museu triunfar. Porém, a Edilidade reconheceu a sua incapacidade de tomar a seu cargo a tarefa do museu, chamando o Governo a si a sua instalação e conservação, a 7 de Junho de 1912. (DIÁRIO DO GOVERNO; n.º 198, 25-8-1911, p. 3608). Gerava-se desta forma o que poderia ter sido uma situação altamente complexa, no que respeita ao culto e ao uso dos pertences da festa de Santa Joana. No entanto a sensibilidade dos Diretores do museu, que recebem este legado, foi sempre de compreender a importância religiosa e sociológica dos festejos e a parceria que deveria existir entre a Irmandade de Santa Joana e o museu. A instabilidade política da I República acabaria por se não refletir demasiado nas festas sagradas aveirenses, que continuavam a pautar-se pela ordem e imponência conforme o antigo uso e brio (CORREIO DE AVEIRO; 05-03-1911) saindo os desfiles à rua com toda a pompa. (CORREIO DE AVEIRO; 19-03-1911) Refere-se assim a festa da padroeira realizada em 1915: o templo foi decorado com uma rica ornamentação de cortinado branco e de tela de ouro e a missa de Rossi executada a órgão e vozes. (CORREIO DE AVEIRO; 23-05-1915) Contudo há um episódio que se deve registar. O Inventário das alfaias, paramentos e demais objetos do culto que foram do convento de Jesus - Em 1959 o milenário de Aveiro inclui a procissão, pois desde 1951 que o feriado municipal coincidia com a data da morte da Princesa, cristalizando desta maneira a ligação umbilical entre a cidade e a sua Protetora. No ano do milenário, o Bispo da Diocese, D. Domingos da Apresentação Fernandes, procura divulgar o culto da Princesa, no seguimento da atuação do seu antecessor. Para isso procurará reabrir o processo de Canonização, pois apesar de ser conhecida por Santa nunca chegou a bom termo esse processo, e cria a Associação dos Pajens de Santa Joana Princesa, tentando com ela promover a devoção e patentear nas camadas mais jovens o exemplo das virtudes morais e religiosas da filha de D. Afonso V, que procura difundir na diocese. O corpo destes pajens passaria a integrar o cortejo processional. Já com D. Manuel de Almeida Trindade como Pastor da diocese, em 1964, dirige a Sua Santidade o Papa Paulo VI uma petição, rogando que, apesar de não ser Santa, a Beata Joana fosse designada Padroeira da cidade e da diocese de Aveiro. Após ser ouvida a Sagrada Congregação dos Ritos, a 5 de Janeiro de 1965, Santa Joana é declarada pela Santa Sé Padroeira de Aveiro e sua diocese, com festa litúrgica de segunda classe e com missa e ofício próprios. Os esforços da Real Irmandade continuam, procurando e assumindo com o município e diocese a organização dos festejos de 12 de Maio. Desenvolvera-se, entretanto, uma pequena contenda entre a Irmandade e o museu de Aveiro, no que respeitava à posse dos bens, a qual importa tentar esclarecer. Com a lei de 1834, extinguindo as Ordens religiosas, produziram-se inúmeros inventários, hoje no fundo histórico do Ministério das Finanças. Através deles o estado assegurava-se dos bens, móveis, imóveis, rendas, foros, etc. que pertenciam a cada uma das casas, e incidiram, desde logo, nos cenóbios masculinos, uma vez que os frades são imediatamente expulsos dos seus conventos. No Convento de Jesus surge-nos uma primeira relação em 1859, autenticada pela Madre Henriqueta dos Anjos Barbosa, “Auto de abertura da descripção e avaliação das alfaias e mais objectos preciosos pertencentes ao Convento de Jesus de Aveiro”. Levantamento eminentemente parcelar, com apenas 160 itens, que deixa de fora inúmeras peças mas que, no essencial, apura as de maior significado e as de uso litúrgico, sendo particularmente afinadas as menções que respeitam aos objectos de ourivesaria. Com a instituição da Real Irmandade (ESTATUTOS; 1877, Art. 48º, p. 11), se fará novo Inventário das alfaias, paramentos e demais objectos do culto que foram do convento de Jesus, escolhidas e designadas pelo Reverendíssimo Vigário Geral do Bispado e entregues pelas senhoras recolhidas no mesmo convento, por depósito, à Real Irmandade de Santa Joana Princeza, em conformidade com a Portaria do Ministério dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça de trinta de Maio de 1877. A Irmandade fará ainda um outro inventário, em 1888, no qual são apontadas não só as verbas dos bens existentes e constantes da anterior relação, mas também se dá baixa de outros, poucos, que estavam sem condições de uso e se dá entrada de objectos entretanto adquiridos, como por exemplo a Bandeira da real Irmandade, bordada a ouro, com franja de ouro e cruz de prata. (NEVES; 1987, p. 48.) De 1892, em que se faz o Termo suplementar da descrição e avaliação dos objetos pertencentes ao culto, do suprimido convento de Stª Joana, até 1922 não se conhecem novos inventários do antigo acervo conventual. O Conselho de Arte e Arqueologia da Direcção Geral de Belas Artes, a 26 de Agosto de 1922, definiu o aproveitamento a dar à igreja de Jesus, estabelecendo que: a) A capela não pode ser aplicada continua e normalmente ás cerimónias de culto d´um templo séde de paroquia ou freguesia; b) Pode, porem, continuar a ser aberta ao culto religioso limitado ás tradicionais festividades de Santa Joana e a outras cerimonias de culto em que a concorrência dos fieis não exceda a pequena capacidade da capela; c) Estas ultimas poderão ser previamente impedidas pelo Director do Museu Regional se reconhecer que d´elas podem resultar prejuisos para a boa conservação do edifício; d) Em quaesquer festividade ou cerimonias religiosas a realizar na capela tem de ser completamente iliminadas as armações com panos ou estofos cuja fixação se faça com o emprego de pregos, escapinhas ou alfinetes na talha; e) Da capela deverão ser imediatamente retirados o actual sacrário […]; f) Tambem serão retirados os bancos, mesas e outros artigos de aspecto mesquinho e desharmonico com a capela; g) A capela e sacristia, não obstante poderem ser aplicadas ao culto religioso, são consideradas dependências do Museu Regional de Aveiro, cujo Director poderá patentea-las aos visitantes do Museu e fará exercer por os seus subordinados uma vigilância efectiva sobre aquelas para as conservar em bom estado e defende-las de estragos propositados ou inconscientes; h) O coro inferior, e o coro superior com respectiva capela, ficam na absoluta dependência do Museu; i)Finalmente, quando se realizarem festividades ou quaesquer cerimonias religiosas na capela do extinto Convento de Jesus, o acesso dos fieis será feito exclusivamente pela porta daquela […] (ARQUIVO DO MUSEU DE AVEIRO; transcrição policopiada).
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Breve pontifício de Paulo VI que atribui o estatuto de Padroeira da cidade e da Diocese de Aveiro à princesa de Portugal Santa Joana, com atribuição de respetivos privilégios litúrgicos Direito e privilégio litúrgico emitido pela Chancelaria do papa Paulo VI, a 25 de janeiro de 1965: Breve de "PAVLVS PP. VI/ Ad perpetuam rei memoriam" 25 de Janeiro de 1965 Chancelaria do Papa Paulo VI 40 x 52 cm Coleção Diocese de Aveiro Breve pontifício de Paulo VI que atribui o estatuto de Padroeira da cidade e da Diocese de Aveiro à princesa de Portugal Santa Joana, com atribuição de respetivos privilégios litúrgicos Em 1965, foi D. Manuel de Almeida Trindade, bispo de Aveiro, quem “em nome do clero secular e do clero regular, das autoridades da Cidade e de todos os fiéis” pediu o “patrocínio sobre a cidade e sobre a diocese”, substituindo assim Santa Ana como padroeira de Aveiro. Diocese de Aveiro - Curia Diocesana
    Direito Consuetudinário local – Ativo.Direitos Associados ao Culto a Santa Joana. Direito Consuetudinário, corresponde aos Direitos Associados: nomeadamente, a transmissão do Culto e da sua manifestação “em orações, missas e procissões” através dos usos e costumes das populações, de norte a sul do País; Tipologia do Culto a Santa Joana é o de uma prática social, ritual e devocional com procissão pública, de ciclo anual. O Direito Consuetudinário local protege os conhecimentos e práticas tradicionais que, no caso do culto a Santa Joana, se materializam na oferta diária de flores e esmolas colocados junto ao túmulo da Princesa, situado no Coro-baixo do Convento de Jesus de Aveiro. Nos tempos atuais, há muitos grupos de catequese, grupos de escoteiros e grupos de culto que se deslocam a Aveiro apenas para rezar junto ao túmulo da Santa Joana. O culto a “Santa” Joana foi-se mantendo, desenvolvendo e difundindo num contexto consuetudinário, intergeracional, mantendo a sua permanente actualidade. Desde há séculos que o povo, em especial o da região de Aveiro, conhece e trata a sua princesa como “santa” e não como “beata”, conceito que desconhece. Ao longo do tempo, este culto foi-se difundindo e atualizando, acompanhando a evolução da sociedade, de tal forma que, desde o século XX, existem mesmo duas paróquias que a assumiram como patrona, uma em Aveiro e outra em Lisboa (Alvalade). Irmandade de Santa Joana Princesa de Aveiro
  • Responsável pela documentação :
    Nome: maria da luz nolasco cardoso
    Função: conservadora do Museu de Aveiro / Santa Joana
    Data: 2022-06-09
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Secretário de Estado da Cultura Direção-Geral do Património Cultural
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